O Jardim do den
Barbara Cartland






Coleo Barbara Cartland n 66





Livros Abril
Ttulo original: "Moon Over Eden"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1976
Traduo: Lygia Junqueira
Copyright para a lngua portuguesa: 1983 Abril S.A. Cultural e Industrial - So Paulo
Composto e impresso em oficinas prprias




Este livro faz parte de um projeto sem fins lucrativos, de fs para fs.
Sua distribuio  livre e sua comercializao estritamente proibida.
Cultura: um bem universal.


Disponibilizao: MANA
Digitalizao: Palas Atenia
Reviso:  Ana Ribeiro



Lorde Hawkston era bonito e elegante, um verdadeiro cavalheiro. Por isso, Dominica aceitou seu estranho pedido para casar com o sobrinho dele e ir viver numa remota 
plantao de ch. Se o rapaz fosse parecido com o tio... Mas cada fibra de seu corpo estremeceu de repulsa, quando conheceu o noivo: Gerald era grosseiro, cruel 
e beberro. E o misterioso e selvagem Ceilo perdeu todo o encanto para ela. Tornou-se apenas um lugar perigoso, onde leopardos espreitavam seus passos. Como poderia 
suportar que aquele homem repugnante a tocasse, quando era com os lbios de lorde Hawkston que ela sonhava?




CAPTULO I



1888
      
      Lorde Hawkston respirou o ar quente, mido. Olhou para o cu estrelado e compreendeu o quanto, no frio da Inglaterra, tinha sentido falta desse calor que parecia 
impregnar iodo seu corpo, fazendo com que cada um de seus msculos ficasse relaxado e flexvel.
      Atravessou o gramado, lentamente, sentindo o perfume das magnlias, dos jasmins e dos oleandros, cujos galhos davam uma sombra agradvel durante o dia.
      Nos vinte e seis dias de viagem, desde a Inglaterra, ele antecipara o prazer de rever o Ceilo, quase como um menino que vai passar as frias em casa.
      No era de estranhar, j que passara dezesseis anos de sua vida no lugar que os maometanos chamavam de "Ilha Paraso", pois acreditavam que Ado e Eva l tinham 
buscado refgio, depois de expulsos do Jardim do den.
      Na Inglaterra foi fcil rir dessas descries, como a dos brmanes, "Lanka, a resplandecente"; ou a dos budistas, a "prola cada na fronte da ndia"; ou a 
dos gregos, "a terra das flores de ltus".
      Mas, voltando ao Ceilo, ao rever aquelas belezas, Lorde Hawkston achou que no havia exagero nessas descries.
      No que fosse um homem romntico. Era conhecido como ultra-reservado, um patro exigente e implacvel, quando necessrio.
      Tinha que ser assim, porque sua vida no havia sido fcil! Na realidade, tivera que lutar pelo que queria, palmo a palmo, sendo bem-sucedido por saber exatamente 
o que desejava.
      Enquanto caminhava pelo magnfico jardim do Palcio da Rainha (como era conhecida a casa do governador, em Colombo), ia pensando que, quando seguisse para 
o norte, para a sua fazenda de ch, seria maravilhoso rever os amigos e a bela casa que ele construra no lugar do pequeno bangal que era seu lar, quando comprara 
a fazenda.
      Imerso em seus pensamentos, lorde Hawkston de repente percebeu que no estava mais s, no jardim.
      Tinha esperado at que o governador e os outros hspedes se retirassem para os quartos, para ento sair para a noite enluarada, tendo o desejo irresistvel 
de ficar sozinho com seus pensamentos e com a emoo da volta.
      Agora, algum atravessava o gramado.
      Instintivamente, lorde Hawkston parou atrs de uma moita de bambus, para que sua presena no fosse notada.
      O homem se aproximou, e, agora, como o luar lhe iluminava o rosto, viu que era um jovem militar que viajara com ele no mesmo navio, da Inglaterra para o Ceilo. 
O capito Patrick 0'Neill era um dos muitos oficiais que voltavam de licena.
      Lorde Hawkston tinha conversado com eles s refeies, porque tambm sentavam  mesa do capito, mas, a no ser por isto, pouco convivia com os passageiros 
mais jovens, que provavelmente o achavam muito velho para tomar parte nas conversas deles e nas brincadeiras que estavam sempre fazendo uns com os outros.
      Mas lorde Hawkston achava que Patrick 0'Neill parecia um pouco mais responsvel do que os demais e um oficial competente. Imaginou que talvez estivesse encarregado 
das sentinelas que guardavam o governador e tinha vindo verificar se estavam cumprindo bem sua tarefa. Surpreso, viu o capito 0'Neill se encaminhar diretamente 
para a casa do governador.
      Assim como muitas casas coloniais, o Palcio da Rainha tinha uma fachada imponente e, nos fundos, longas varandas em dois andares, onde os residentes dormiam, 
nos meses quentes de vero.
      Sabendo que no havia perigo de ser descoberto ali,  sombra dos bambus, lorde Hawkston observou o capito chegar aos fundos da casa, olhar para a varanda 
superior e assobiar baixinho.
      Lorde Hawkston esperou, admirado, e viu um vulto branco saindo do quarto e aparecer na varanda sob a qual se achava 0'Neill.
      Era uma mulher! Os cabelos estavam soltos, caindo como uma nuvem dourada, quando ela se debruou sobre a grade.
      No percebeu se disse alguma coisa, mas o capito comeou a subir para a varanda. No era difcil, porque os pilares eram de ferro forjado, fornecendo bons 
pontos de apoio para os ps, at mesmo para o mais desajeitado dos montanheses. Dali a segundos, o capito passou uma perna sobre a grade e depois outra, entrando 
na varanda. Lorde Hawkston viu-o pegar a mulher nos braos e apert-la contra o peito, apaixonadamente.
      Por um momento, ali ficaram, ao luar, como a eterna encarnao do amor, abraados, lbios unidos, os cabelos louros da mulher encostados no ombro largo dele. 
Depois, desapareceram na escurido do quarto.
      Lorde Hawkston ficou de respirao suspensa. Sabia perfeitamente quem era a mulher e, por um momento, sentiu, no clera, mas grande surpresa com a audcia 
de ambos.
      A mulher que o capito havia beijado e com quem entrara no quarto era a nobre srta. Emily Ludgrove, que viera para o Ceilo em companhia de lorde Hawkston, 
para casar com o sobrinho dele, Gerald Warren!
      Dezoito anos antes, lorde Hawkston se chamava Chilton Hawk e estava com vinte e um anos. Era o filho mais moo de um filho mais moo. No havia a mnima possibilidade 
de herdar o ttulo e os bens da famlia. Seu pai, que tinha muito pouco dinheiro, no podia proporcionar-lhe a chance de uma vida confortvel, na Inglaterra.
      Mas o rapaz herdou duas mil libras, quando atingiu a maioridade e, animado com um artigo que leu sobre o sucesso das plantaes de caf no Ceilo, resolveu 
ir para l, tentar fortuna.
      Naquele tempo, o Ceilo parecia muito distante, e falava-se da ilha como se ficasse no fim do mundo.
      Dez anos antes, em 1860, houve um grande incremento no caf, depois que os plantadores britnicos levaram para l seu esprito empreendedor, assim como capital 
para investir nas plantaes.
      Chilton Hawk tinha estado em Oxford, com um escocs que fora para o Ceilo trs anos antes e que lhe mandava cartas entusiasmadas sobre as oportunidades que 
havia l para rapazes com energia e ambio.
      O pai ficou surpreso com a deciso de Chilton de se tornar plantador de caf, embora esperasse que ele fosse viajar, depois de receber a herana da av.
      - No se comprometa, meu rapaz - avisou-o. - Examine tudo, antes de mais nada. Talvez Singapura ou a ndia lhe convenham mais.
      Mas, assim que chegou ao Ceilo, Chilton Hawk compreendeu que era ali o lugar onde queria viver e trabalhar.
      E de fato trabalhou!
      No soube o quanto era duro, at comprar quinhentos e sessenta acres de terra, a uma libra o acre, e perceber que teria que destocar o terreno. Isto significava 
empregar oitenta homens, e, no ntimo, sempre tinha medo de que o dinheiro acabasse.
      Comeava o dia ouvindo o rudo dos machados, da queda das rvores, das serras e dos martelos. Depois, tudo precisava ser levado embora e queimado.
      No se tratava apenas de derrubar as rvores, como tambm de limpar o terreno e prepar-lo para o plantio.
      Teve a sorte, assim que chegou, de ser apresentado por seu amigo de Oxford a um plantador escocs experiente, de trinta e cinco anos, chamado James Taylor.
      Taylor era um dos plantadores que entrariam para a histria do Ceilo e j era bastante importante na poca para merecer o respeito dos outros fazendeiros.
      Aos dezoito anos, James Taylor, um homem forte, um verdadeiro gigante, assinou um contrato de trs anos com os agentes londrinos do Loolecondera Estate, que 
ficava situado uns cem quilmetros a sudoeste de Kandy. A vantagem de estar perto de Kandy era que a estrada de ferro para Colombo tinha ficado pronta em 1867. Isto 
dava aos plantadores um meio de transporte muito mais rpido do que os carros de boi que levavam semanas para levar o caf pela estrada militar at o porto.
      Taylor simpatizou com o rapaz que acabara de chegar da Inglaterra e aconselhou-o a comprar terras perto do Loolecondera Estate, na regio montanhosa central. 
Chilton Hawk tinha ficado encantado com a beleza da natureza naquela regio e logo se adaptou ao estranho ambiente.
      James Taylor mostrou-lhe como obter os servios dos cules locais e sugeriu-lhe onde deveria construir seu primeiro bangal. Encorajou-o durante os primeiros 
anos de servio rduo, nos quais Chilton trabalhou to intensamente quanto seus empregados, para no dizer mais!
      Apesar disso, ao olhar para trs, Hawk achava que tinham sido os melhores anos de sua vida. Estava construindo alguma coisa; era seu prprio patro e, se perdesse 
tudo o que possua, no poderia culpar ningum, a no ser ele mesmo.
      E teria perdido tudo, se no fosse amigo de James Taylor.
      Durante dez anos, a alta do caf fez com que Hawk acreditasse que estava a ponto de ficar rico. A terra passou a valer vinte e oito libras o acre, as culturas 
se estendiam ao longo de novas estradas, que antes tinham sido apenas caminhos primitivos.
      De repente, os dias de glria pareceram contados. Uma terrvel doena prpria do caf, a ferrugem, ameaou toda a indstria.
      Ainda agora, lorde Hawkston se lembrava do horror que sentira, quando vira pela primeira vez o fungo em suas plantaes.
      Os fungos eram microscpicos; os esporos eram levados pelo vento, indo germinar nas folhas de outros ps de caf.
      Foi uma catstrofe para todos os fazendeiros. Nada podiam fazer, exceto limpar a rea infectada, pulverizar com cal e enxofre as rvores que sobravam e rezar 
para que no se repetisse a tragdia, quando novos esporos fossem trazidos pelo vento.
      Foi uma esperana que no se concretizou. A doena do caf acabou com a maioria dos plantadores europeus e todos os cingaleses. Nada puderam fazer para salvar 
as plantaes arruinadas, a no ser mandar alguns pedaes de troncos dos cafeeiros para a Inglaterra, para servirem de pernas de mesinhas de ch.
      Mas, para Chilton Hawk, a amizade com James Taylor foi uma tbua de salvao.
      Em 1866, Taylor ganhou algumas sementes de ch, das mos do superintendente do Jardim Britnico Real, de Peradeniya.
      Na plantao Loolecondera, dezenove acres foram reservados para uns cem quilos de sementes de ch. Quando ajudou Hawks a comprar e preparar sua fazenda, Taylor 
convenceu o amigo a usar o mesmo nmero de acres para o plantio do ch. Foi o que o salvou da runa total.
      No resto da fazenda, Hawk teve que comear tudo de novo. Arregaou as mangas e plantou ch.
      Neste meio tempo, seu amigo Taylor estava ocupado com um novo projeto, uma casa de ch completamente equipada com uma calandra, a primeira deste tipo a ser 
feita em Ceilo.
      Aps a instabilidade financeira causada pela catstrofe do caf, as esperanas renasceram, quando se soube que, na propriedade Taylor e na vizinhana, o ch 
estava dando lucro.
      Plantadores desiludidos foram at l para aprender os mtodos da nova cultura; logo comearam a aparecer arbustos de ch no meio dos ps mortos. Trabalhando 
quase vinte e quatro horas por dia, Chilton Hawk comeou a reconstruir a fortuna perdida.
      Nunca, nem mesmo em sonhos, tinha acreditado que um dia poderia herdar o ttulo ou as propriedades da famlia, na Inglaterra.
      Havia seis vidas entre ele e a chance de herdar do tio. Mas, devido a mortes no campo de batalha, a acidentes e  velhice, pouco a pouco os que o precediam 
foram desaparecendo.
      Mesmo assim, teve um choque, em 1886, ao saber que o tio tinha morrido e que era o novo lorde Hawkston.
      Nada podia fazer, a no ser ir para a Inglaterra. Mas deixar a plantao, agora de mil e duzentos acres, largar os amigos e, principalmente, James Taylor, 
foi para ele como ter uma perna ou um brao amputados.
      Ao mesmo tempo, tinha-se tornado auto-suficiente. s vezes, passava trs ou quatro semanas sem ver ningum, alm dos empregados. Ficava sozinho na casa grande 
que mandara construir no alto de um morro, para que pudesse receber a brisa de todos os lados, no calor.
      Mas no inverno a casa era fria, e tinha mandado fazer lareiras grandes,  lenha.
      Chilton habituou-se a ficar sozinho. Gostava de ler, mas, em geral, depois de um jantar bem feito e bem servido, ia para a cama, levantando-se de madrugada 
e se entregando ao trabalho que o absorvia.
      Quando voltou para a Inglaterra, viu que esquecera que um cavalheiro podia levar uma vida folgada, calma, sem presses e sem outra ambio, exceto se divertir 
nas horas de lazer.
      O tio tinha estado doente nos ltimos anos de vida e muitas coisas haviam sido negligenciadas. Novos mtodos de cultivo precisavam ser introduzidos nas propriedades, 
novas mquinas compradas, casas consertadas. E, acima de tudo, ele tinha que rever seus parentes.
      No Ceilo, Hawk era um lder e um organizador do trabalho. Mas na Inglaterra, como lorde Hawkston, esperavam que fosse o chefe de uma famlia grande, com uma 
maioria de parentes pobres, todos gananciosos e avarentos.
      Assim que chegou  Inglaterra, sua primeira preocupao foi encontrar algum que pudesse tomar conta de sua plantao no Ceilo.
      Esta propriedade seria, no futuro, um bem de famlia, fazendo parte da herana dos futuros detentores do ttulo.
      Achou que tinha encontrado a pessoa ideal em seu sobrinho, Gerald Warren, filho nico de sua irm mais velha, um rapaz inteligente, de vinte e quatro anos.
      Como estava preocupado por ter deixado a fazenda nas mos de seu administrador cingals, lorde Hawkston mandou Gerald para l de um modo um tanto precipitado, 
o que no teria feito, se no fosse um caso to urgente.
      Achou que Gerald, com vinte e quatro anos, seria capaz de cuidar de uma propriedade que estava bem organizada e dando lucro, e onde no havia mais o trabalho 
braal pesado de dezesseis anos atrs.
      O rapaz concordou de boa vontade. Mais tarde, lorde Hawkston ficou sabendo que ele no se sentia feliz na Inglaterra, no mantendo um bom relacionamento com 
a maioria dos parentes.
      Pouco antes de embarcar, Gerald disse ao tio que estava noivo da filha de um nobre da vizinhana, Emily Ludgrove, mas que a famlia da moa os convencera a 
no casar antes de o rapaz partir.
      Os pais de Emily tinham desencorajado qualquer conversa sobre um noivado oficial, pela simples razo de Gerald ter poucas perspectivas na vida, no demonstrando 
interesse em ganhar dinheiro e contentando-se com a pequena mesada que a me viva lhe dava.
      O convite do tio abria-lhe novas perspectivas e, embora o noivado no fosse anunciado, ficou estabelecido que ele e Emily casariam dentro de um ano.
      - Eu mesmo a levarei para o Ceilo - prometeu lorde Hawkston.
      - Ser que precisamos esperar um ano? - perguntou Gerald.
      - Infelizmente, creio que sim. Tenho tanta coisa que fazer aqui, que acho que no ficarei livre antes de doze meses.
      Na realidade, passaram-se dezoito meses, at ele ter uma chance de sair da Inglaterra. Emily no parecia ter pressa.
      A famlia da moa tambm achava que no havia pressa e, mesmo depois de lorde Hawkston estar pronto para partir, alguns detalhes do enxoval de Emily os prenderam 
por mais dois meses.
      Finalmente, embarcaram em Southampton, e lorde Hawkston tele-grafou ao sobrinho que fosse esper-lo em Colombo. Tinha notado que as cartas de Gerald haviam 
ficado cada vez mais raras, nos ltimos nove meses.
      A princpio, o rapaz escreveu regularmente: de quinze em quinze dias, chegava uma carta com detalhes completos sobre a plantao. S nos ltimos doze meses 
foi que lorde Hawkston ficou imaginando se Gerald escrevia o que achava que ia agradar, em vez do que estava realmente acontecendo.
      Depois, as cartas s chegavam uma vez por ms e, finalmente, no passavam de bilhetes, de dois em dois ou mesmo de trs em trs meses.
      O rapaz est ocupado, pensou lorde Hawkston. Com certeza, Emily recebe suas cartas regularmente.
      Raramente via a futura esposa de Gerald. Nada tinha em comum com o pai da jovem, achando-o muito maante. Alm do mais, havia muito que fazer na propriedade 
para que perdesse tempo com compromissos sociais.
      Fosse como fosse, achava-os cansativos.
      Estava to habituado a ficar s, que as conversas sociais e os mexericos mesquinhos o entediavam.
      Sabia que os parentes no apenas o achavam de gnio difcil, como o temiam um pouco. No se importava com essa atitude. Pelo contrrio, preferia que fosse 
assim.
      Certa vez, quando entrava numa sala de visitas, ouviu uma das primas dizer:
      - Ele  um homem difcil. Nunca sei o que est pensando e, para dizer a verdade, no estou interessada em saber.
      Todos riram, e ele tambm achou divertido.
      No navio, esforou-se para ser o mais reservado possvel. Sabia perfeitamente que as amizades efusivas feitas a bordo no duravam, depois que os passageiros 
chegavam em terra firme.
      Percebeu que Emily, que viajava acompanhada por um coronel e sua esposa que voltavam para o Ceilo, era muito assediada pelos jovens oficiais. No havia dvida 
de que gostava muito de danar, dos jogos, dos bailes a fantasia, dos concertos. Mas lorde Hawkston no notou que o capito Patrick 0'Neill se mostrava mais assduo 
em suas demonstraes de interesse.
      Agora, no jardim da casa do governador, ele saiu das sombras dos bambus e atravessou o gramado.
      Era uma situao inesperada, e ficou imaginando o que podia fazer a respeito. De uma coisa estava certo: no tinha inteno de permitir que Emily casasse com 
o sobrinho.
      Talvez tivesse sido bom que Gerald no os esperasse em Colombo, conforme havia sido planejado.
      A carta que Hawks recebeu ao chegar lhe contou que Gerald no tinha podido viajar por estar doente, mas que esperava j estar bom, quando o tio e Emily chegassem 
a Kandy.
      Ao ler a carta, lorde Hawkston ficou aborrecido. Planejava fazer com que os dois casassem assim que chegassem a Colombo. Sua inteno era mand-los viajar, 
em lua-de-mel, e ir sozinho para a plantao.
      Estava ansioso para ver o que havia sido feito, discutir algumas inovaes com o capataz, reencontrar os cules, sendo que alguns trabalhavam com ele desde 
o primeiro dia em que comeara a limpar o terreno. Mas seus planos foram perturbados e achou que a cerimnia deveria se realizar em Kandy.
      Foi um golpe perceber que no haveria mais casamento e que teria que dizer a Gerald que procurasse esposa em outro lugar.
      Menina endiabrada! Por que no podia se comportar?
      Enquanto refletia sobre isso, achou que em parte ele era culpado por no ter voltado antes para o Ceilo. Dezoito meses era muita coisa na vida de dois jovens! 
H muitos anos, tambm ele pensava assim.
      Por outro lado, se Emily era leviana a ponto de ficar atrada pelo primeiro rapaz bonito que a cortejava, ento era prefervel que isso tivesse acontecido 
antes do casamento.
      Vou mand-la de volta para a Inglaterra no primeiro navio, decidiu.
      A beleza da noite, para ele, ficou estragada. Dirigiu-se para a frente da casa, procurando no pensar naqueles dois jovens abraados no quarto, l em cima.
      Na manh seguinte, lorde Hawkston tomou o desjejum cedo. Quando terminou, vieram lhe dizer que algum desejava v-lo.
      Surpreso com a visita matinal, acompanhou o criado a uma saleta, onde teve o grande prazer de encontrar James Taylor  sua espera.
      Aos cinqenta anos, James Taylor era um homem grande, de barba longa. Pesava mais ou menos cento e dez quilos e tinha mos enormes. Quando sorria, o rosto 
de olhos fundos e nariz comprido tinha um estranho encanto.
      - Soube que voc chegou ontem, Chilton - disse, estendendo a mo.
      - James! Eu estava com esperana de encontr-lo, mas no to cedo! Como vai? Parece que no nos vemos h sculos.
      - Senti muito a sua falta, Chilton. J estava com medo de que tivesse se tornado importante demais para ns.
      - No imagina como eu estava louco para voltar. Mas trabalhei em casa quase tanto quanto aqui, s que de um modo diferente. No foi fcil.
      James Taylor sorriu.
      - Nada do que ns fizemos foi fcil, Chilton, mas espero que voc tenha tido sucesso.
      - Eu tambm. - Lembrou-se depois de Emily, e seu rosto adquiriu uma expresso sombria. - Que me diz de meu sobrinho?
      -  esta uma das razes de eu vir procur-lo - disse Taylor.
      Qualquer coisa em seu tom fez com que lorde Hawkston o olhasse vivamente.
      - O rapaz se adaptou bem aqui e tem trabalhado direito? Quero saber a verdade.
      - Toda a verdade?
      - Sabe que eu no me contentaria com menos.
      - Muito bem. Somos velhos amigos, Chilton, e, como sempre fomos francos um com o outro, vim lhe dizer que precisa dar um jeito naquele rapaz.
      - Que quer dizer com isso?
      James Taylor hesitou por um momento.
      - Acho que, ao contrrio do que acontece com voc e comigo, ele no se adaptou  solido. Ns dois sabemos que  difcil viver sozinho, enfrentar as noites 
longas, sem ter com quem conversar, andar vrios quilmetros para encontrar uma cara conhecida.
      - O que ele anda fazendo? Bebendo? Taylor inclinou a cabea.
      - Que mais? - perguntou lorde Hawkston.
      - Est fazendo uma confuso dos diabos.
      - De que maneira?
      Houve um momento de silncio. Hawkston insistiu:
      - Diga-me a verdade, James. No quero saber de meias palavras.
      - Muito bem. Para ser franco, ele violou uma das regras, em relao a uma jovem nativa.
      Lorde Hawkston contraiu-se.
      - Como  que ele pde fazer isso?
      - Ns dois sabemos, Chilton, que  hbito, e nada censurvel, que um rapaz arranje uma amante numa aldeia vizinha ou em outra fazenda.
      Lorde Hawkston concordou movendo a cabea. O proibido era um plantador envolver-se com uma de suas empregadas.
      - Um ms depois de chegar aqui, seu sobrinho arranjou uma amante, uma jovem cingalesa. Agora, ele a abandonou e se recusa a dar-lhe uma compensao.
      - No posso acreditar!
      - Mas  verdade, e causou um certo escndalo.
      Lorde Hawkston ficou em silncio durante alguns minutos.
      - Conte-me tudo. Quero saber.
      Sabia que as regras de coabitao entre um branco, proprietrio ou administrador de uma fazenda, e uma nativa eram um costume antigo e, como tal, aceito tanto 
pelos plantadores quanto pelos prprios nativos.
      Os portugueses e os holandeses que tinham precedido os ingleses no Ceilo haviam convivido com nativas e, em muitos casos, casado com elas.
      Os ingleses tinham outro tipo de arranjo. Um fazendeiro que vivesse sozinho arranjava uma amante, segundo os termos geralmente decididos pelo pai dela. O fazendeiro 
convidava a jovem a ir visit-lo, quando dela precisava, mas a nativa continuava vivendo numa aldeia vizinha, ou at mesmo na colnia da fazenda, mas no abertamente 
com o proprietrio das terras.
      As moas eram muito atraentes, suaves e amorosas. Muitas vezes, plantadores jovens encontravam verdadeira felicidade, ao lado delas.
      Os cingaleses consideravam uma honra uma de suas mulheres ser amante do durai, ou o dono da fazenda, e se ele se cansava da amante, isto no a estigmatizava. 
Ela voltava para sua gente, com um dote que permitia que casasse com um de seus patrcios, porque, aos olhos deles, era uma mulher rica.
      A quantidade de rpias dadas como compensao era uma lei tcita, aceita por ambas as partes.
      Se da unio houvesse filhos, ficavam com a me, e muitos iam para uma vila no morro, conhecida como Nova Inglaterra. Eram em geral crianas muito bonitas, 
de pele escura e olhos azuis, s vezes at de cabelos louros.
      Isto de vez em quando causava aborrecimentos, porque os pais da mulher compreendiam que um filho era uma boa desculpa para extorquir dinheiro do fazendeiro.
      O preo era alto, at mesmo extorsivo. Um campons astuto fazia com que houvesse um acordo preparado por um advogado, s vezes obrigando o pai a pagar alimentos 
pelo resto da vida.
      Mas, na maioria dos casos, essas unies eram agradveis, e, contanto que se fizesse justia, no havia conseqncias incmodas.
      Lorde Hawkston achava compreensvel que Gerald tivesse infringido essas leis.
      Os plantadores no Ceilo eram conhecidos como os mais inteligentes, os mais cavalheiros e os mais confiveis de todos os colonizadores britnicos. Nas fazendas 
de caf, ch e borracha, encontrava-se um microcosmo da Gr-Bretanha: rapazes de escolas pblicas, de universidades, homens de negcio, advogados, militares, conservadores, 
liberais, ingleses, escoceses, gauleses e irlandeses.
      Trabalhavam arduamente, mas tambm se divertiam muito e, depois que se aclimatavam, aproveitavam bem a vida.
      Poucos tinham que ser pioneiros, como aconteceu com James Taylor e Chilton Hawk.
      Mesmo assim, era uma vida dura e, para subir de novato para perya durai, ou chefo, como diziam os cules, era necessrio trabalhar das seis da manh s seis 
ou sete da tarde.
      Mas um perya durai morava num bangal espaoso, ou numa casa no alto do morro, com grandes jardins. Fiscalizava o servio no campo, a cavalo. Quando tinha 
licena, podia caar elefantes selvagens, alces, bfalos, ursos e leopardos. Podia pescar, nadar, jogar crquete, tomar parte em gincanas ou em torneios de plo 
e freqentar os clubes ingleses que ficavam a apenas um dia de viagem da maioria das plantaes.
      James Taylor explicou cuidadosamente o que tinha acontecido.
      Gerald comeou a beber, assim que chegou. Logo se fartou dos negcios da fazenda, deixando tudo por conta do capataz.
      A princpio ia para Kandy, onde havia alguns divertimentos; depois, juntou-se aos fazendeiros conceituados que se divertiam em Colombo e davam pouca ou nenhuma 
ateno s suas propriedades.
      Isso o manteve ocupado durante algum tempo, mas o dinheiro foi acabando e ele no podia se dar ao luxo daquelas visitas dispendiosas.
      Finalmente, vendo-se sem tosto, foi obrigado a ficar em casa, bebendo. Sua nica distrao era Seetha, a nativa pela qual se interessou assim que chegou.
      - Que aconteceu? - perguntou lorde Hawkston.
      - Parece que houve uma cena, h um ms, quando Gerald andava bebendo muito. Acusou a moa de ter roubado um anel de sinete que ele sempre usava. Depois, parece 
que a jia foi achada embaixo de um mvel da sala. - Taylor fez uma pausa e continuou, severo: - A princpio, Gerald ficou irredutvel. A moa estava muito zangada 
e sentida com a injustia.
      Lorde Hawkston podia imaginar a indignao da nativa. Os cinga-leses que trabalhavam na plantao eram em geral muito honestos e, alm do mais, teriam medo 
de roubar alguma coisa da casa do patro.
      Ele prprio nunca sentira falta de nada, durante todos os anos em que vivera ali.
      - Gerald disse  moa que desse o fora - continuou Taylor. - E, como a acusava de ladra, recusou-se a lhe dar o dinheiro que de costume se d quando uma mulher 
 despedida.
      Lorde Hawkston andou de um lado para o outro do quarto.
      - Idiota! Maldito idiota!
      - Concordo com voc - disse Taylor. - Quando eu soube o que aconteceu, fui at l falar com o rapaz, mas, na ocasio, ele no estava em condies de entender 
o que eu queria dizer. Acontece que vi seu cabograma, Chilton, em cima da escrivaninha. Li-o, fiquei sabendo que voc ia chegar e vim lhe contar o que est acontecendo.
      - Foi muita gentileza sua, James.
      - No cabograma voc dizia: "Emily e eu devemos chegar sexta-feira". Quer dizer que trouxe uma esposa para Gerald? Ouvi dizer que era isso o que ia fazer. Como 
bem sabe, numa comunidade pequena, a gente fica sabendo de tudo.
      - Trouxe uma jovem que estava noiva de Gerald, na Inglaterra - respondeu lorde Hawkston, com dureza. - Infelizmente, descobri que est interessada por outro 
homem e no vou consentir no casamento.
      James Taylor deu um assobiozinho.
      - Mais problemas... Pois bem, acho que  uma pena. Se h uma coisa que poderia salvar Gerald, seria uma mulher sensata que o impedisse de beber e aliviasse 
a solido que, obviamente, ele no pode suportar sozinho.
      - Vou procurar arranjar uma esposa para ele - disse lorde Hawkston. Acrescentou, baixinho: - Mas no ser Emily Ludgrove.
      Taylor consultou o relgio.
      - Preciso voltar para casa. Pretendo tomar o trem da manh pra Kandy, mas queria prepar-lo, Chilton, para o que o espera. Desejo sinceramente que consiga 
arrumar as coisas. Depois, venha me procurar. Tenho umas novas experincias muito interessantes para lhe mostrar.
      - Nada me d maior prazer. Obrigado, James, por provar mais uma vez que  um verdadeiro amigo.
      - Gostaria de ter melhores notcias. Mas h uma coisa que lhe vai causar prazer: a exportao de ch, este ano, ultrapassar as duzentas e cinqenta mil toneladas.
      Lorde Hawkston sorriu.
      - Era isto o que eu desejava ouvir.
      - Minha fazenda vai de vento em popa - disse Taylor. - O mesmo deve acontecer com a sua, assim que sentir novamente seu toque mgico. Precisamos de voc aqui, 
Chilton. Todos ns precisamos, e o Ceilo tambm precisa.
      - No me tente! Sabe que prefiro estar aqui a estar em qualquer outra parte do mundo.
      Havia nestas palavras uma nota de profunda sinceridade. Taylor ps a mo no ombro do amigo.
      - Logo nos veremos, Chilton. Falaremos disto, ento.
      Lorde Hawkston acompanhou-o at a porta e depois voltou, de expresso carregada.
      Sabia agora que precisava falar com Emily Ludgrove. Depois, teria que decidir o que fazer com o sobrinho.
      No era uma perspectiva agradvel. Mas aqueles que o conheciam bem teriam percebido, pela sbita contrao do queixo, que ele ia entrar numa batalha e que, 
como sempre, sairia vitorioso.
      Dali a vinte minutos, Emily Ludgrove entrou na saleta onde lorde Hawkston a esperava. Ele teve que reconhecer que a moa estava muito bonita. O vestido que 
tinha comprado em Londres estava na ltima moda, revelando a perfeio do corpo esbelto, ao passo que a cor acentuava o azul dos olhos e dourado dos cabelos.
      Pela primeira vez, lorde Hawkston compreendeu que talvez fosse absurdo ela vir se enterrar numa fazenda de ch a quilmetros de distncia dos inmeros admiradores 
que devia ter.
      - Bom dia, milorde! - disse Emily, coquete, com o olhar que sempre lanava a qualquer homem, moo ou velho, com quem se visse a ss.
      - Bom dia, Emily! Faa o favor de sentar. Quero falar com voc.
      - Isso  assustador! Aconteceu alguma coisa?
      - Quero inform-la de que estou providenciando sua passagem de volta  Inglaterra no primeiro navio possvel.
      Emily arregalou os olhos, incrdula. Antes que dissesse qualquer coisa, ele continuou:
      - Acontece que eu estava no jardim, ontem  noite, quando o capito 0'NeiIl foi visit-la de um modo um tanto irregular.
      A moa ficou imvel. Depois, disse:
      - O capito 0'Neill me pediu em casamento.
      - Acho que  o mnimo que ele podia fazer - comentou lorde Hawkston, seco.
      - E eu estava justamente pensando se devo aceitar o pedido.
      - A escolha  simples: ou aceita, ou volta para a Inglaterra.
      - Ento, milorde, acho que sabe qual ser minha resposta. Tenho certeza de que apresentar minhas desculpas a Gerald, mas duvido de que pudssemos ser felizes, 
aps uma to longa separao.
      Levantou-se, e lorde Hawkston no pde deixar de pensar que ela aceitava a situao com um equilbrio do qual no a julgara capaz.
      - Se no tem mais nada a dizer, milorde, vou me retirar e escrever uma carta ao capito 0'Neill, dando-lhe a resposta que, pelo que ele me disse, o far o 
homem mais feliz do mundo!
      - Nada mais tenho a dizer. Creio que no estaria interessada em ouvir minha opinio sobre o seu comportamento.
      - Por que haveria de estar? No compreende, ou esqueceu, o que  ser jovem! A mocidade  curta, e pretendo aproveit-la enquanto puder. E h rapazes ansiosos 
para cooperar neste sentido.
      Lorde Hawkston no encontrou resposta. Inclinou-se, ironicamente. Emily dirigiu-se para a porta. L chegando, virou-se, dizendo, em tom adocicado:
      - Faa o favor de dizer a Gerald que lamento desapont-lo e que espero que continuemos amigos.
      Saiu da sala, antes que lorde Hawkston encontrasse palavras adequadas. Apesar de zangado, no pde deixar de rir. A moa tinha um topete com o qual ele no 
contara! Se algum pudesse manter Gerald na linha seria Emily!
      Ao mesmo tempo, achava que ela estava com a razo. Nunca teria suportado a solido de uma fazenda no morro e mesmo que ela e Gerald fossem para Colombo, ou 
voltassem para a Inglaterra, Emily no se contentaria com Gerald.
      De um jeito ou de outro, faria com que outros homens depositassem o corao a seus ps e, se isso ferisse os sentimentos do marido, ele teria que se habituar...
      Lorde Hawkston suspirou. Captulo encerrado.
      Agora, tinha que enfrentar o sobrinho e achava que James Taylor estava certo, ao dizer que o rapaz precisava era de uma esposa sensata!
      A questo era: onde encontr-la?
      Ficou olhando para o jardim. As flores eram uma orgia de cores. Havia orqudeas roxas, hibiscos vermelhos, jasmins brancos e perfumados. Parecia um ambiente 
perfeito para o amor, mas achou que era a ltima pessoa capaz de escolher uma noiva para o sobrinho.
      Afinal de contas, no tinha podido escolher uma para si mesmo! Aos trinta e sete anos, havia chegado  concluso de que continuaria solteiro.
      Quando esteve na Inglaterra, percebeu que os parentes achavam que devia casar e foi convidado a reunies para ser apresentado a vrias mulheres atraentes, 
vivas ou solteiras que, por um motivo qualquer, no tinham conseguido casar na flor da mocidade.
      A famlia esperava ansiosamente que ele se apaixonasse por algum e ficou desapontada quando tal no se deu.
      Sua tia chegou mesmo a recrimin-lo.
      - Afinal de contas, Chilton, voc sabe to bem quanto eu que devia casar e arranjar um herdeiro. Sempre achei que  muito melhor quando o ttulo  herdado 
em linha direta.
      - No pode dizer que o ttulo veio em linha direta, no que me diz respeito - replicou lorde Hawkston, sorrindo.
      - Sei disso, e  justamente por este motivo que acho que voc deve providenciar um herdeiro o mais depressa possvel.
      - Primeiro, preciso encontrar uma esposa.
      - Estive olhando para voc e h vrias damas que considero adequadas.
      - Tenho a desagradvel sensao de que seus planos vo fracassar. No tenho a mnima inteno, tia Alice, e quero deixar isto bem claro, de casar por causa 
do ttulo, da propriedade ou da rvore genealgica da famlia.
      - Ora, Chilton, no seja teimoso! No estou sugerindo que case sem gostar, mas j est meio passado para perder a cabea por uma carinha bonita!
      - Nisso, tem razo - concordou ele, com um sorriso.
      - Ento, se eu lhe arranjar uma mulher encantadora, entre vinte e cinco e trinta anos, ou talvez um pouco mais, que o divertir, meu sobrinho, e o ajudar 
a passar o tempo agradavelmente, ela certamente acabar conseguindo fazer com que seu corao vibre!
      A questo era que as mulheres que a tia considerava adequadas no faziam seu corao vibrar nem tampouco sua mente.
      Refletiu que talvez esperasse demais da vida. Mas, embora parecesse reservado e insensvel, no fundo desejava um amor que pudesse significar para ele tanto 
quanto a beleza do Ceilo.
      Muitas vezes, quando ficava no terrao de sua casa e olhava para os morros  volta, e tambm para a gua cristalina que corria no vale, sentia que a beleza 
do cenrio despertava nele uma reao que era quase como o incio de um desejo por uma mulher bonita.
       absurdo estar apaixonado por um pas!  disse a si mesmo.
      Apesar disto, sabia que amava o Ceilo como um homem ama a esposa.
      A beleza, a maciez, a suavidade do ambiente, tudo isso, combinado com o ar clido e mido, era quase feminino, inspirando um sentimento mais espiritual, tal 
a sua intensidade.
       assim que o amor deve ser!, pensou, tentando rir de suas fantasias.




CAPTULO II
      
      
      
      Lorde Hawkston resolveu falar com o governador sobre o problema de encontrar uma esposa para Gerald. Ficou imaginando o que dizer a respeito de Emily Ludgrove, 
mas, assim que iniciou a conversa, percebeu que ela se adiantara a ele.
      Sir Arthur Gordon, neto do conde de Aberdeen, que lorde Hawkston ficara conhecendo ligeiramente antes de sair da Inglaterra, era um homem de austera dignidade 
que inspirava aos subordinados tanto receio quanto respeito.
      Quando assumiu o cargo, no Ceilo, em 1883, a ilha se encontrava abalada pela crise econmica devido  queda do caf, mas a mar estava virando lentamente 
e os fazendeiros exploravam as possibilidades no apenas do ch mas tambm da cinchona.
      Sir Arthur interessava-se pessoalmente por essa evoluo, principalmente pelo estabelecimento da indstria do ch. Mandou inspetores a Loolecondera e  fazenda 
de lorde Hawkston, ficando muito impressionado com os relatrios. Mais tarde, iria visitar pessoalmente algumas plantaes.
      Tanto James Taylor quanto lorde Hawkston gostavam dele e no tiveram dificuldade em convenc-lo de que o ch traria de novo prosperidade ao Ceilo.
      O que mais agradava a lorde Hawkston em sir Arthur era sua imparcialidade em questes de racismo. Na realidade, pouco antes de lorde Hawkston partir para a 
Inglaterra, o governador ameaara desligar-se de um clube de Colombo que tinha tentado vetar a entrada de certos cingaleses.
      Um de seus traos mais simpticos era proteger os interesses dos capatazes nativos e os direitos de propriedade dos templos budistas. Era o governador mais 
esclarecido e mais progressista que o Ceilo tinha tido em muitos anos.
      Empreendeu a restaurao da irrigao de muitos canais, terminou o quebra-mar do porto de Colombo, cuja pedra fundamental tinha sido lanada pelo prncipe 
de Gales em 1875, ampliou a estrada de ferro e comeou a construo de quase quatrocentos quilmetros de novas estradas.
      Lorde Hawkston refletiu que era difcil para as pessoas, na Inglaterra, avaliar o poder de um governador no Ceilo. No somente reinava, como governava, cercado 
por todo o fausto da realeza. Tinha residncia em Colombo, Nuwara, Sliya, Kandy e Jaffma. Tinha uma guarda cingalesa mais imponente do que a guarda da Torre de Londres 
e um regimento de cavalaria sikh que o precedia em visitas oficiais. Tinha uma guarda pessoal e um trem especial para suas viagens.
      Todos os documentos dirigidos  rainha passavam por suas mos. A ltima palavra era dele, e ningum sabia qual era essa ltima palavra.
      Era impossvel esquecer que sir Arthur era um aristocrata e muito cnscio de sua autoridade, de modo que lorde Hawkston estava em dvida sobre o que seria 
sensato lhe contar a respeito de Emily Ludgrove.
      Resolveu no contar seu comportamento com o capito 0'Neill, no porque estivesse particularmente interessado em proteger a reputao de Emily, mas porque 
gostava de 0'Neill e achava que, escolhendo tal esposa, ele j iria ter muitos problemas na vida.
      Depois que entrou no escritrio do governador, ficaram a ss, tendo o secretrio se retirado, e sir Arthur disse, com um sorriso:
      - Sei o que veio me contar, Hawkston. A srta. Ludgrove j me informou que deseja casar com o capito 0'Neill.
      Lorde Hawkston nada disse, e sir Arthur continuou:
      - Acho que isso deve ser aborrecido para voc, considerando-se que a trouxe para casar com seu sobrinho. Pelo que ouvi dizer, o rapaz precisa da influncia 
firme de uma esposa.
      Lorde Hawkston no estranhou que o governador estivesse to a par do comportamento de Gerald. Era muito mais astuto do que pensavam e, embora no esplendor 
do Palcio do Governo parecesse imune s coisas corriqueiras da vida, na realidade pouco acontecia em Colombo, e tambm em outras partes do pas, de que ele no 
tivesse conhecimento.
      - Receio, Excelncia, que meu sobrinho tenha agido como um tolo.
      - Isso acontece com muitos rapazes, logo que vm para c. Como voc e eu sabemos, Hawkston, h muita gente disposta a ajudar um homem a fazer loucuras; principalmente, 
quando ele tem dinheiro.
      -  verdade - concordou lorde Hawkston, a contragosto.
      Lembrava de certas farras que fizera em Colombo, mas tinha cuidado demais com seu precioso dinheiro para gast-lo com mulheres de reputao duvidosa e com 
divertimentos dbios, que eram oferecidos aos rapazes imaturos que chegavam da Inglaterra.
      Mais tarde, entretanto, tivera uma ligao agradvel com uma portuguesa bonita de Kandy, que ia visitar sempre que podia. A ligao durara anos, mas ele tinha 
sido muito discreto.
      Seu orgulho ficou ferido, ao perceber que o mau comportamento de Gerald era do conhecimento do prprio governador.
      - Gostaria que tivssemos cuidado melhor de seu sobrinho, quando ele chegou aqui - disse sir Arthur, pensativo. - Ele jantou ou almoou aqui, vrias vezes, 
mas, como voc bem sabe, as refeies no palcio no inevitavelmente formais e devem ter parecido maantes para o jovem. Soube por meu secretrio que Gerald foi 
convidado para um baile que demos no Natal, mas no respondeu ao convite.
      Lorde Hawkston apertou os lbios.
      Se havia uma coisa que detestava, era a falta de educao. No curto prazo em que conviveu com Gerald, na Inglaterra, pensou que, pelo menos, o rapaz soubesse 
se comportar como um cavalheiro.
      - A questo agora : que vai voc fazer com ele? - continuou o governador.
      - Pretendo arranjar-lhe uma esposa, Excelncia. Trouxe para c a moa que ele mesmo escolheu, mas, como os planos goraram, preciso cobrir essa deficincia 
arranjando-lhe outra mulher.
      Sir Arthur .riu.
      - Isso  bem de voc, Hawkston! Tem fama de ser invencvel. S o que posso dizer  que Gerald Warren tem sorte em ter um tio como voc.
      - Naturalmente, vou precisar de sua ajuda, Excelncia. O governador riu de novo.
      - No creio que possa ser de grande ajuda. Garanto-lhe que h uma carncia de moas, interessantes e livres, neste estabelecimento! Seja como for, acho que 
no ser difcil encontrar algum, numa das famlias inglesas que moram em Colombo. - Sentou e ps a mo na testa. - Deixe-me pensar. No dei muita ateno, at 
agora, s famlias dos militares, mas acho que h uma ou duas filhas de oficiais que ainda no foram fisgadas por algum subalterno.
      - Prefiro uma jovem que j viva em Colombo h algum tempo - disse lorde Hawkston. - Estou to habituado com as belezas deste pas, que esqueci que algumas 
pessoas novas aqui podem encontrar defeito neste tipo de vida diferente.
      - Est pensando na solido de uma pessoa ficar isolada numa plantao durante meses a fio - observou sir Arthur, srio. - Vai precisar encontrar uma moa excepcional 
para suportar esse tipo de vida. Permita-me dizer que, assim que fiquei conhecendo a srta. Ludgrove, achei que no era o tipo certo.
      - Agora compreendo isto, mas foi Gerald quem a escolheu, no eu.
      - E acha que ele vai aceitar a sua escolha, Hawkston, sem ser consultado?
      - Far o que eu resolver, a no ser que queira ser despachado para a Inglaterra. Neste caso, ter que pagar a passagem, porque no tenho inteno de faz-lo!
      Hawkston falou no tom implacvel, determinado, que as pessoas que trabalhavam com ele conheciam bem. O governador olhou-o atentamente e depois disse:
      - Querer fazer o papel de Deus, quando se trata de amor e de casamento,  um negcio arriscado. Voc pode se sair mal.
      - Estou ouvindo seu aviso, Excelncia, mas ainda preciso de sua ajuda.
      - Estive examinando a lista das pessoas que vm jantar aqui, hoje. Nenhuma das jovens tem os requisitos necessrios. Acho melhor voc dar uma olhada na congregao, 
amanh cedo. - Notou a expresso de Hawkston e disse, com um sorriso: - Sabe muito bem que, estando hospedado na casa do governador, todos esperam que me acompanhe 
 igreja.
      - Estou pronto a cumprir meu dever.
      - No vai ser to mau como parece. Eu disse ao vigrio que o sermo no deve durar mais de quinze minutos.
      Na manh seguinte, na Igreja de So Pedro, de pedra cinzenta, lorde Hawkston olhou  volta. Viu os genuflexrios cheios de pessoas elegantes que teriam surpreendido 
aqueles que achavam que o Ceilo era o fim do mundo, sem contato com a moda.
      Vestidos de tafet, de cetim, de bombazina, enfeitados de rendas, gales, botes ou fitas, no s estavam na ltima moda, mas eram muito luxuosos! Assim tambm 
as toucas e os chapus enfeitados de flores e de plumas, nos cabelos bem penteados das devotas.
      Lorde Hawkston sempre tinha ouvido dizer que o domingo em Colombo era um dia de desfile de elegncia, mas nunca havia comparecido a um servio religioso, e 
ficou surpreso por ver ali tantos europeus. Notou que muitas das mulheres eram bastante atraentes.
      Mas achou que as mais elegantes deviam ser esposas de oficiais ou de funcionrios do governo.
      Atrs dos europeus, com uma fileira de separao, estavam os cingaleses, ainda mais resplendentes com seus saris coloridos, seus trajes de seda e de algodo 
tintos com um processo que era especialidade dos teceles locais.
      As cores e os tecidos exticos, desde gazes simples at fazendas ricamente bordadas, faziam com que os cingaleses parecessem um buqu de flores contra as paredes 
cinzentas da igreja.
      O governador foi recebido,  porta, pelo padre de sobrepeliz, sendo levado de maneira tradicional at o seu lugar especial, no altar-mor, onde se viam almofadas 
de veludo e livros de oraes com braso da Inglaterra.
      Na frente dos lugares do governador e de seus acompanhantes, ficava o coro, e atrs havia um rgo. Assim que o servio comeou, lorde Hawkston percebeu que 
o rgo era tocado por uma jovem que usava um vestido branco de algodo e uma feia touca preta amarrada com fitas pretas.
      A moa parecia muito austera, comparada com as outras mulheres da congregao. Depois, ele percebeu, com surpresa, que o mesmo tipo de vestido era usado por 
outras cinco jovens sentadas atrs do coro. Todas usavam idnticos vestidos brancos, toucas e luvas pretas, e faixas tambm pretas na cintura.
      A princpio, pensou que fosse algum uniforme para as mulheres do coro, mas, enquanto olhava para elas, o governador sussurrou em seu ouvido:
      - O vigrio tem seis filhas!
      - Seis!
      - A mulher morreu h dois anos - disse o governador, falando por trs do livro de oraes. - Isso fez com que ele procurasse nos tornar ainda mais cnscios 
de nossos pecados e do fogo do inferno que est  nossa espera.
      Lorde Hawkston olhou, interessado, para o vigrio. Era um homem magro, esqulido, que devia ter sido bonito quando moo. Mas agora era de uma magreza exagerada, 
rosto cadavrico, dando a impresso de um homem que se afastou de todos os prazeres da vida.
      Tinha um ar de fanatismo, refletiu lorde Hawkston, que ficou imaginando se as filhas sofreriam por levar uma vida que, tinha certeza, seria de severidade e 
de privao voluntria.
      Olhou para as moas, com novo interesse. A mais velha, de frente para ele, tinha um rosto bonito, pelo que se podia ver sob a aba do chapu. As outras, ainda 
adolescentes, tinham pele rosada, narizinho arrebitado e olhos curiosos, que encaravam com firmeza a congregao.
      A mais velha, que tocava o rgo, parecia ter olhos atrs da cabea. Quando a mais moa comeou a se remexer, inquieta, ela se virou, vivamente, para repreend-la. 
Ao mesmo tempo, entregou a um menino do coro, um cingals, um livro de oraes aberto, pois ele parecia perdido, no encontrando a pgina certa.
      Quando no estava tocando, a moa ficava voltada para trs, tomando conta do coro. Era, sem dvida, uma jovem muito competente, pensou o lorde, vendo-a de 
novo abrir um livro de oraes e entreg-lo a um menino que no tinha a mnima idia de quais respostas devia dar.
      Quando se levantou, lorde Hawkston percebeu que era esbelta e elegante, pois o vestido de algodo grosseiro no disfarava completamente seu corpo.
      Tendo vivido muito tempo no Ceilo, ele sabia que os vestidos das filhas do vigrio eram feitos com o tecido branco mais barato, usado apenas pelos cingaleses 
mais pobres.
      O governador tinha dito que a me delas morrera dois anos antes. Isto significava que o vigrio queria que ficassem de luto durante muito tempo, como era moda 
na Inglaterra, que os chapus continuariam a ser usados, at que se tornasse imperativo comprar outros. O coro cantava os salmos, e lorde Hawkston percebeu que, 
apesar de muito velho, o rgo era tocado com habilidade. A filha mais velha do vigrio era, sem dvida, uma musicista.  Durante todos os servios, continuou fazendo 
especulaes sobre a famlia, imaginando como seria a vida deles.
      Quando ouviu o sermo, teve uma idia melhor do ambiente em que as moas haviam sido educadas.
      O governador tinha razo, ao dizer que o homem estava obcecado com a idia do pecado e do castigo que seria infligido a todos os pecadores e do qual era impossvel 
escapar. Ele falava com um ardor inconfundvel, com um fogo que vinha de uma sincera convico.
      Como padre, era dedicado, mas, como pai, devia ser duro de agentar.
      O vigrio hesitou uma vez, durante o sermo, quando, sem o perceber, virou duas pginas de suas notas ao mesmo tempo. A filha mais velha virou a cabea para 
o plpito, e lorde Hawkston viu seu rosto de frente, pela primeira vez. Era oval. com um narizinho reto e olhos grandes, que, daquela distncia, pareciam cinzentos. 
Tinha sobrancelhas arqueadas, e lorde Hawkston calculou que os cabelos, de um louro-acinzentado, deviam estar presos atrs, sob o chapu preto, de um modo que no 
enfeitaria ningum.
      O vigrio encontrou o ponto certo do sermo e a filha pareceu relaxar. Virou de novo a cabea para ver o que estava acontecendo no coro e inclinou-se para 
repreender um menino que brincava com um estilingue. Ele o tinha tirado do bolso sob a sobrepeliz, mas, assustado com a atitude da moa, deixou o estilingue cair, 
assim como a pedra que pretendia arremessar.
      O brinquedo caiu no cho com rudo. A filha do vigrio inclinou-se, evidentemente para dizer ao menino que o deixasse onde estava ate o servio terminar, mas 
foi tarde demais. Temendo perder o mais precioso de seus bens, o garoto se arrastou por entre as pernas de seus vizinhos, procurando recuperar seu tesouro. Encontrou-o 
e escorregou de novo para seu lugar, olhando, ansiosamente, para a filha do vigrio.
      Ela fitou-o com serenidade. Depois, quando o garoto abaixou a cabea, contrito, ela encontrou o olhar de uma das irms e sorriu. Houve em seu rosto uma total 
transformao, e, neste momento, lorde Hawkston tomou uma deciso. Aquele era o tipo de mulher para Gerald. Uma jovem que dava conta de um pai fantico, de uma poro 
de meninos travessos e de um bando de irms certamente seria capaz de dar conta de Gerald, de um modo bastante competente.
      Quando voltava para o palcio de carruagem, ao lado do governador, lorde Hawkston perguntou:
      - Que me diz do vigrio? Fale-me sobre ele.
      -  um sujeito difcil. Est sempre se queixando das iniqidades que acontecem no porto e em outras partes menos agradveis da cidade. Tenho que lhe explicar 
que no compete ao governador impedir que os homens gastem seu dinheiro como bem entendem e que, a no ser que estejam infringindo a lei, no posso interferir.
      - E quanto  famlia dele?
      - Mal a conheo. De vez em quando as meninas so convidadas para um ou outro divertimento, mas o pai conserva o luto pela esposa de um modo que, creio eu, 
exclui tudo, menos a orao. Ento, s vemos a filha mais velha quando h reunies relativas  escola paroquial, ou nas ocasies em que o vigrio procura levantar 
fundos para suas obras de caridade.
      - Parece uma vida muito sombria.
      - Creio que a maioria das moas, hoje em dia, a acharia intolervel - respondeu o governador.
      - Li em algum lugar que a difuso do cristianismo e da educao no meio do povo do Ceilo  maior do que em qualquer outro Estado oriental.
      - Creio que  verdade - disse sir Arthur. - No ltimo censo, verificou-se que temos duzentos e vinte mil catlicos romanos, cinqenta mil protestantes e mais 
ou menos dois milhes de budistas! - Fez uma pausa e acrescentou, com um brilhozinho no olhar: - Em outras ocasies, esto includos mil quinhentos e trinta e dois 
danarinos de Satans, cento e vinte e um encantadores de serpente, seiscentos e vinte batedores de tambor e cinco mil faquires ou mendigos devotos!
      Lorde Hawkston riu.
      - Uma coleo heterognea!
      No conversaram mais, porque a carruagem parou  porta da casa do governador.
      Depois do almoo, lorde Hawkston foi procurar o secretrio do governador, um homem idoso que passara toda a sua vida em Colombo. Havia trabalhado para vrios 
governadores sucessivos, que tinham achado de valor incalculvel seus conhecimentos sobre assuntos locais.
      - Quero saber tudo o que puder me contar sobre o vigrio de So Pedro.
      - Ele se chama Radford. Est em Colombo h vinte e dois anos. Casou aqui e est convencido de que ns, da casa do governador, somos um bando de pessoas calejadas 
e sem sentimentos, que no queremos cooperar com ele em seu desejo ardente de purificar a cidade de Colombo.
      - Ele devia compar-la com outras cidades da costa, do mesmo tamanho - comentou lorde Hawkston, seco. - Ficaria surpreso por ver que, em comparao, Colombo 
, na minha opinio, um exemplo de bom comportamento.
      - Eu no diria tanto, milorde, mas aqui h realmente pouco vcio e, de um modo geral, o povo se comporta direito.
      - Foi o que sempre pensei. Fale-me agora da sra. Radford.
      - Era uma mulher encantadora. Se  que algum podia fazer com que o vigrio se mostrasse humano, esse algum era ela. Era de uma boa famlia da Inglaterra; 
o pai cuidava dos Jardins Botnicos em Kew. Veio para c com o pai, quando ele chegou para orientar o governador da poca sobre determinadas plantas que provavelmente 
se dariam bem em nosso solo. Ficou conhecendo o vigrio, que naquele tempo era apenas cura, e se apaixonou por ele. - O secretrio explicou: - Quando conheci Radford, 
ele era um rapaz atraente, mas j inflamado por um entusiasmo proftico que sempre achei muito desagradvel, na convivncia.
      - Tiveram seis filhas?
      - O vigrio sempre sentiu desgosto por no ter um filho. Depois que a srta. Dominica e a srta. F nasceram, ele deu  terceira filha o nome de Esperana. Infelizmente, 
houve mais trs meninas, srtas. Caridade, Graa e Prudncia.
      - Deus de piedade! Que nomes para elas carregarem durante toda a vida!
      - Dominica teve sorte - continuou o secretrio. - Nasceu num domingo, de modo que o nome pareceu apropriado, mas, para as outras,  mais uma cruz que tm que 
carregar.
      - Posso bem imaginar - comentou lorde Hawkston.
      - So todas umas meninas muito agradveis. Minha mulher gosta delas. s vezes conseguem licena para vir tomar ch com minha filha, que  invlida. A no ser 
por isso, poucos divertimentos tm. O pai no aprova distraes mundanas.
      - Pretendo ir visitar o vigrio. Posso citar o seu nome,  guisa de apresentao?
      O secretrio sorriu.
      - Mencione o do governador, milorde. Apesar de tudo, o vigrio se impressiona com Sua Excelncia.
      - Seguirei seu conselho.
      
      
      Lorde Hawkston chegou  casa paroquial s quatro horas da tarde, achando que no s era a hora correta para uma visita, como tambm que o vigrio no estaria 
ocupado na igreja.
      A porta foi aberta por uma das meninas, que aparentava catorze anos e que ele achou que devia ser Caridade.
      Olhou-o, assustada. Quando ele disse que queria falar com o vigrio, levou-o para a sala da frente, parecendo um tanto constrangida e dizendo que ia chamar 
o pai.
      Lorde Hawkston olhou ao redor e achou que tudo ali era muito pobre, mas de bom gosto. As cortinas eram de uma fazenda ordinria, mas feitas com capricho e 
tendo um belo tom azul. O cho, lavado e esfregado, muito limpo, estava coberto por alguns tapetes de artesanato local. As paredes caiadas estavam nuas, a no ser 
por uma aquarela, uma paisagem. Havia um vaso de flores numa mesa simples, perto da lareira.
      Como era domingo, as persianas estavam descidas, vendo-se apenas uma fresta de luz na parte de baixo de cada janela. Lorde Hawkston sabia que era hbito na 
Esccia, e em algumas partes da Inglaterra, descerem as persianas no domingo, mas no esperava encontrar isto no Ceilo.
      Quando viu o vigrio aparecer, compreendera que cometera uma transgresso, vindo visit-lo no domingo.
      - Deseja falar comigo? - perguntou, parecendo ainda mais esqulido e mais severo do que na igreja.
      As vestes sombrias, as mas do rosto salientes, os cabelos grisalhos, quase brancos nas tmporas, faziam com que parecesse um dos antigos profetas, pronto 
a deblaterar contra os habitantes de Sodoma e Gomorra.
      - Sou lorde Hawkston.
      O vigrio inclinou ligeiramente a cabea.
      - Estou hospedado no palcio do governador. Vim v-lo porque preciso de sua ajuda e tenho um assunto importante a discutir com o senhor.
      Do lado de fora da sala, Caridade fechou a porta e subiu a escada, correndo.
      Dominica estava no quarto que dividia com F. Tirava o chapu, tendo acabado de voltar da escola dominical, que dirigia e para onde tinha ido logo depois do 
almoo.
      Caridade irrompeu no quarto, e Dominica olhou-a, surpresa.
      - Dominica... Quem  que voc acha... Quem  que voc acha que est aqui?
      - Que aconteceu? Por que est to excitada?
      - Um cavalheiro veio visitar papai e apareceu numa das carruagens do governador.  o mesmo que estava hoje na igreja. Voc deve t-lo visto, o que estava sentado 
ao lado do governador. Vi que ele achou graa, quando Ranil deixou o estilingue cair no cho.
      - No foi nada engraado - disse Dominica. - Papai ouviu o barulho e ficou muito zangado.  difcil fazer com que compreenda que os meninos do coro nunca escutam 
seus sermes.
      - Por que haveriam de escutar? - disse Caridade, desinteressada. - Garanto que o governador tambm no escuta.
      - Que ser que ele quer com papai? - perguntou Dominica.
      -  muito distinto, mas no creio que nos tenha vindo convidar para algum baile.
      - Caridade! - repreendeu-a Dominica. Depois, riu. - Sabe que isso  to improvvel como sermos convidadas para ir  Lua! Fosse como fosse, papai no permitiria 
que comparecssemos.
      - Quando eu for grande como voc e F, vou danar, diga papai o que disser!
      - Ento,  melhor no deixar que ele a oua agora, ou lhe dar uma surra! - disse uma voz  porta.
      F entrou no quarto. Lorde Hawkston teve razo, ao achar que era uma moa bonita. Sem o chapu feio que sombreava o rosto, via-se que tinha cabelos louros, 
olhos azuis e uma expresso angelical, mas tambm, embora isto no fosse aparente, um esprito malicioso. Assim como Caridade, estava pronta a se rebelar contra 
as restries que lhes eram impostas pelo pai.
      - Que significa tudo isto? - perguntou F. -  verdade que h um moo aqui em casa?
      - No  l muito moo - respondeu Caridade. - Mas  elegante e est hospedado em casa do governador.
      -  aquele que estava hoje na igreja? A irm fez que sim.
      - Dei uma boa espiada nele e achei-o muito atraente - confessou F.
      Dominica riu.
      - Voc acha todos os homens atraentes, e bem sabe disto!
      - No tenho muita oportunidade de v-los, a no ser na igreja. Tinha esperana de ver hoje aquele tenente que andou me namorando no domingo passado, mas deve 
estar de servio. No havia sinal dele.
      Dominica relanceou o olhar para a porta.
      - Tenha cuidado, F. Sempre tenho medo de que papai oua voc falar desse jeito.
      - Papai est ocupado demais, procurando o pecado na cidade, para tentar descobri-lo em sua prpria casa - disse a outra, displicente.
      - No tenho muita certeza disso! - avisou-a Dominica.
      - Que ser que aquele cavalheiro est dizendo a papai? - perguntou Caridade. - Vocs acham que devo ir escutar atrs da porta? Se papai me descobrir no vestbulo, 
posso dizer que estava esperando para acompanhar o visitante, quando sasse.
      - Sim, v - concordou F. Dominica protestou:
      - Voc no vai fazer nada disso!  falta de educao escutar atrs da porta e voc sabe muito bem!
      - Mas que ser que ele quer com papai? - perguntou Caridade.
      - Vocs sabero quando chegar a hora - disse Dominica, calmamente. Depois, deu um gritinho. - Deus do cu! Acham que ele vai ficar para o ch? Ontem eu pretendia 
fazer um bolo, mas no tive tempo, e tambm, para dizer a verdade, o dinheiro da casa tinha acabado e eu no quis pedir mais a papai.
      - No se preocupe - disse F. - Podemos preparar uns sanduches, e Caridade pode ir apanhar umas frutas no jardim. Com certeza, ele se empanturrou com a comida 
extica e deliciosa da casa do governador e no est interessado em nossa comida modesta.
      - F, por favor, no fale assim diante das meninas - pediu Dominica. - Voc sabe muito bem que papai acha que o luxo exagerado desperta maus pensamentos.
      - A julgar pelo que comemos,  extraordinrio que ainda possamos pensar! Tenho certeza de que sofro de subnutrio.
      Dominica riu.
      - Pois no parece! O ltimo vestido que fiz para voc precisa de mais dois centmetros e meio na cintura!
      - Isso  por causa do crescimento natural - respondeu F, com ar digno.
      Dominica ia falar, quando ouviu uma voz, chamando-a:
      - Dominica, venha c! Quero falar com voc! Era o pai, e ela olhou para as irms, consternada.
      - Pelo amor de Deus, v fazer mais sanduches! - pediu para F. - Voc, Caridade, procure algumas frutas. Encha a cestinha de vime. D boa impresso, mesmo 
que as frutas no sejam l grande coisa. Ontem acabamos de comer a nica papaia madura.
      Ainda dando suas instrues, abriu a porta do quarto e desceu a escada, correndo.
      - Voc me fez esperar, Dominica - disse o pai, em tom de censura.
      - Desculpe, papai, mas eu estava dizendo a F e a Caridade o que fazer, caso nosso visitante fique para o ch.
      - Para o ch? - perguntou o vigrio, como se nunca tivesse ouvido falar em semelhante refeio. - Sim, sim,  claro. Talvez seja correto oferecer-lhe uma xcara 
de ch.
      - Quer que v preparar, papai?
      - No, as outras podem fazer isso. Lorde Hawkston quer falar com voc.
      Dominica demonstrou surpresa, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o pai abriu a porta da sala e a fez entrar.
      Na igreja, de manh, tinha notado o estranho ao lado do governador. Mas tantas vezes havia censurado as irms por olharem com curiosidade para a congregao, 
que ela prpria se disciplinara pra no fazer isto; e, principalmente, para no olhar para o grupo da casa do governador.
      Apesar disto, reconheceu o homem que tinha visto no altar-mor e achou que era mais bonito do que lhe parecera na igreja. Era tambm, na opinio de Dominica, 
muito elegante.
      Nunca tinha falado com os jovens oficiais que despertavam o interesse de F, mas de vez em quando entrava em contato com os filhos dos funcionrios civis e 
com outros dignitrios ingleses que residiam no Ceilo.
      Quando isto acontecia, sempre tinha a impresso de que estavam constrangidos em seus melhores trajes e colarinhos altos, quase como se usassem fantasias com 
as quais no estavam habituados.
      Mas agora notou que as roupas de lorde Hawkston, embora muito elegantes, pareciam fazer parte dele. Usava-as com naturalidade, mas tinham uma elegncia que 
indicava que haviam sido feitas em Londres. Dominica percebeu que ele a observava com ateno. O vigrio, entrando depois dela, disse:
      - Esta  a minha filha Dominica, milorde.
      Lorde Hawkston inclinou-se, e a jovem fez uma profunda reverncia.
      Houve um momento de silncio. Dominica ficou imaginando por que nenhum dos dois homens falava. Tinha a impresso de que estavam procurando as palavras.
      Finalmente, limpando a garganta, o vigrio disse:
      - Dominica, lorde Hawkston veio fazer uma proposta inesperada e estranha, e pediu-me para que voc ouvisse o que ele tem a dizer.
      Ela ergueu os olhos cinzentos para o pai.
      - Sim, papai? Houve nova pausa. Depois, como se achasse a situao um tanto constrangedora, lorde Hawkston falou:
      - Senhor, espero que no ache incorreto eu lhe pedir para falar com sua filha a ss. Acho que gostaria de fazer minha proposta, conforme o senhor se expressou, 
a ela diretamente.
      O vigrio pareceu aliviado.
      - Claro, milorde. Acho que  melhor eu ir dizer s minhas outras filhas que preparem o ch.
      - Obrigado.
      O vigrio saiu, fechando a porta. Dominica olhou para o visitante, apreensiva. No podia imaginar que proposta poderia ele querer fazer.
      - No acha melhor sentarmos? - perguntou ele, fazendo com que a moa corasse.
      - Eu... desculpe, milorde. Devia t-lo convidado a sentar, mas fiquei to surpresa, que esqueci as boas maneiras.
      - Acho que o que vou dizer vai surpreend-la mais ainda, mas quero que me oua e que no decida nada precipitadamente.
      Sentou no sof duro, colocado contra a parede, e fez sinal a Dominica para que sentasse a seu lado. Foi o que ela fez, aps um minuto de hesitao, constrangida 
ao notar que ele a examinava de um jeito que ela no compreendia.
      Como lorde Hawkston supunha, a moa tinha cabelos de um louro-acinzentado, com reflexos prateados. Estavam puxados para trs, presos num coque muito grande, 
dando a impresso de que eram muito compridos e fartos.
      Os olhos eram cinzentos, com pestanas escuras; as sobrancelhas, arqueadas, tambm escuras. Mas a pele era muito clara e fresca, muito plida tambm. De modo 
que, quando ela corava, o rosto adquiria uma sbita beleza.
      Era muito magra. O vestido, de algodo grosseiro, era justo revelando a curva dos seios e a delicadeza da cintura que, na opinio de lorde Hawkston, caberia 
nas mos de um homem.
      Os dedos, que tinham tocado o rgo com tanta habilidade, eram compridos e elegantes. Ela colocou as mos no colo, como uma criana na escola, pronta para 
recitar uma poesia.
      - Creio que est imaginando por que vim procurar seu pai -
      disse ele, com sua voz grave.
      - Raramente temos visitas aos domingos.
      - Minha desculpa  a pressa que tinha em conhec-la e explicar a seu pai quais as minhas intenes a seu respeito.
      - A meu respeito?
      - Pode parecer um tanto brusco, mas vim perguntar a seu pai se voc estaria disposta a considerar a minha proposta, isto , casar com meu sobrinho Gerald Warren!
      Dominica ficou imvel, os olhos arregalados, fitando o visitante com ar incrdulo.
      Dali a um minuto, perguntou:
      - O senhor est... falando srio?
      - Muito srio! Mas deixe que explique melhor. Meu sobrinho, que trabalha em minha fazenda, perto de Kandy, est morando aqui h dois anos. Anteontem cheguei 
da Inglaterra em companhia de uma jovem de quem ele estava noivo. O casamento deveria se realizar assim que ela chegasse, mas, infelizmente, quando chegamos a Colombo, 
fiquei sabendo que a tal moa havia mudado de idia!
      - Por que ela no quis casar com ele?
      - Ficou conhecendo, a bordo, um rapaz de quem gostou. Seja como for, acho que ela no seria a esposa adequada para meu sobrinho.
      Dominica no disse nada, e ele continuou:
      - Meu sobrinho precisa de algum que tome conta dele, que lhe faa companhia e alivie a solido e o tdio que, como voc bem sabe, afligem os fazendeiros, 
quando ficam sozinhos durante meses a fio. Quando a vi na igreja, tocando rgo to bem, dando conta das travessuras dos meninos do coro e, ao mesmo tempo, dando 
ateno a seu pai, tive certeza de que era a pessoa que eu procurava.
      Dominica respirou fundo.
      - Como pode ter certeza disto, milorde? O visitante sorriu.
      - Digamos que tenho o instinto do que  certo. Sobrevivi  crise do caf porque tive a sorte de plantar ch em minha fazenda. Agora, estou tendo um bom lucro. 
Mas, se meu sobrinho no quiser morar definitivamente no Ceilo, tenho certeza de que daqui a alguns anos poder voltar para a Inglaterra.
      Houve uma pequena pausa. Dominica disse, ento:
      - Agora h pouco, o senhor falou que chegou na sexta-feira e que esperava que seu sobrinho casasse com a moa que veio da Inglaterra, assim que chegasse aqui. 
Ele no ficou perturbado, ao saber que a noiva tinha mudado de idia?
      Lorde Hawkston gostou de ver que ela percebera o significado do que havia acontecido e soube que acertara, ao pensar que ela era inteligente. Estava a a prova.
      - Tem razo de fazer essa pergunta, srta. Radford. Vou ser franco e lhe dizer que meu sobrinho no tem a mnima idia de que houve uma mudana nos planos. 
Acontece que est doente e no pde vir nos encontrar em Colombo. Recebi uma carta dele, dizendo que espera me ver em Kandy, dentro de poucos dias.
      - E vai dizer-lhe que, j que no pode ter a noiva que escolheu, o senhor escolheu outra para ele?
      A pergunta foi feita com suavidade, mas lorde Hawkston no pde deixar de pensar que, se tivesse sido feita em outro tom, teria sido sarcstica.
      - Acho que, quando perceber que escapou de um casamento infeliz, Gerald ficar satisfeito com o arranjo que fiz para vocs dois.
      Dominica virou o rosto e olhou para a luz que entrava pelas persianas semicerradas.
      Lorde Hawkston viu-lhe o perfil e achou que tinha traos bonitos e firmes. Vestida de um modo mais atraente e com um penteado menos severo, seria muito bonita.
      - Espera, realmente, milorde, que eu concorde em casar com um homem que nem conheo?
      - Espero que acredite em mim, se eu lhe disser que meu sobrinho  simptico. Para dizer a verdade, muitas mulheres o acham bonito. Tem quase um metro e oitenta 
de altura, distinguia-se nas caadas em Londres e parece que  tambm um bom danarino.
      - Suponhamos que ele... no goste de mim? - perguntou a jovem, baixinho.
      - Acho que, nas circunstncias em que vive atualmente, recebera de braos abertos a companhia de uma jovem atraente, que se interessar pelos negcios dele 
e tornar sua vida confortvel e agradvel.
      - Lorde Hawkston fez uma pausa e continuou: - Afinal de contas, suponhamos que voc o tivesse encontrado duas ou trs vezes. Suponhamos que tivesse danado 
com ele. Isto seria bastante para ele pedi-la em casamento e para voc aceit-lo. S o que lhe peo  que dispense essas formalidades e concorde em casar, confiando 
em que fiz uma descrio justa.
      Dominica no respondeu. Dali a pouco, ele insistiu:
      - Tenho certeza de que percebe que seu pai, tendo seis filhas, no achar fcil encontrar maridos adequados para todas. Se casar com meu sobrinho, pretendo 
dar-lhe um dote razovel, e haver muito mais, depois que eu morrer.
      Dominica olhou-o, vivamente.
      - Isso certamente no acontecer to cedo, milorde.
       Lorde Hawkston sorriu.
      - Estou me aproximando da meia-idade e garanto-lhe que no tenho inteno de casar. Vivo sozinho h tanto tempo e estou to habituado com a minha companhia, 
que me agrada continuar solteiro. Neste caso, Gerald herdar o ttulo e as propriedades da famlia, na Inglaterra, que so considerveis.
      Dominica desviou o olhar.
      - Mame sempre dizia que esperar pelos sapatos de um morto no d sorte.
      - Mas eu lhe prometi que viver com conforto, antes de eu morrer. - Ela continuou olhando para o outro lado. - Eu a escolhi, Dominica... e espero que permita 
cham-la pelo primeiro nome... porque, quando a observei na igreja, achei que era uma moa sensata. Espero que use esse bom senso, ao estudar minha proposta.
      Ficou observando-a, enquanto falava, e gostou de, sua expresso calma e sensvel.
      - Sei que isto  incomum, pouco convencional mesmo, mas no vejo razo para voc recusar. Permita que a leve para Kandy e para a minha fazenda. Quando ficar 
conhecendo meu sobrinho, tenho certeza de que ver que os dois tm muita coisa em comum.
      Dominica levantou-se e comeou a andar pela sala. Abriu uma das persianas e ficou olhando para o jardim.
      O sol entrou, e lorde Hawkston notou a encantadora silhueta da jovem.
      Ela olhava para fora com olhos que, achou ele, nada deviam ver.
      - O que a est preocupando? - perguntou lorde Hawkston, finalmente.
      - Estava pensando em mame e imaginando o que ela me aconselharia a fazer.
      - Sua me ia querer que casasse. Seu pai me disse que tem mais de vinte anos. Muitas moas, nesta idade, j esto pensando no vestido de noiva.
      - Mame tinha apenas dezoito anos, quando casou. Mas apaixonou-se por papai, assim que o conheceu.
      - Como tenho certeza de que voc se apaixonar por meu sobrinho. Deixe-me pedir-lhe mais uma vez que seja sensata a este respeito. Ouvi dizer que seu pai no 
permite que voc e suas irms freqentem reunies sociais. Como  que podero casar, se nunca ficam conhecendo rapazes, se no tm licena de ir a bailes e a festas? 
Pretende realmente passar a vida inteira nesta casa, tomando conta de suas irms e de seu pai, controlando os meninos do coro e ensinando na escola paroquial, como 
me disseram que faz, todos os domingos? Que espcie de vida seria?
      - Acho que mame gostaria que nos divertssemos um pouco. E tambm que ficssemos conhecendo mais gente do que agora, mas papai se zanga, quando fao esta 
sugesto. - De repente, virou-se para lorde Hawkston. - O senhor no gostaria que F casasse com seu sobrinho? Ela est louca para casar. Quer conhecer rapazes. 
Garanto que aceitaria, feliz, a sua proposta.
      Ele sacudiu a cabea.
      - Pelo que seu pai me disse, F s tem dezoito anos, e receio que no tenha o seu bom senso nem a sua inteligncia. Seja como for, estou decidido: quero que 
seja voc. Quero que concorde em ir contigo para Kandy, assim que tivermos comprado o seu enxoval.
      - Enxoval?!  preciso que compreenda, milorde, que no estou em condies de ter mais vestidos do que tenho agora, nem de comprar coisas novas. Papai nunca 
o permitiria; alm do mais, no temos dinheiro para isso. O senhor precisa compreender que somos muito Pobres.
      - Sei disso. E prometo-lhe, Dominica, que vai ter um enxoval lindo, o melhor que se puder arranjar em Colombo, e que no lhe custar um nquel!
      - Quer dizer que o senhor pagaria?
      - Mas. claro!
      - No creio que papai... - comeou, hesitante.
      - Deixe seu pai por minha conta. Como j lhe disse, Dominica, sempre consigo o que quero. Posso facilmente convencer seu pai de que, no tocante ao enxoval, 
meu plano  o melhor. - Fitando-a bem no rosto, continuou: - Meu plano  tambm o melhor no que diz respeito a voc. No quer deixar tudo nas minhas mos, Dominica? 
Tenho certeza de que no se arrepender.
      - Como pode ter certeza?
      - J lhe disse qual a alternativa. No acha melhor ser a esposa de um rapaz encantador, com algum dinheiro e perspectiva de vir a ter muito mais, do que suportar 
um futuro no qual ser uma solteirona frustrada, matando-se para equilibrar o oramento da famlia e raramente vendo seus esforos reconhecidos?
      Este argumento foi muito astuto e ele sabia que ia causar efeito. Depois da conversa com o vigrio, lorde Hawkston deduziu que o pai no reconhecia os esforos 
da filha e que no estava nada agradecido por ela conseguir fazer a casa andar, depois da morte da me.
      Percebeu a indeciso de Dominica e soube, embora ela no o demonstrasse, que seus argumentos a haviam perturbado enormemente e que no conseguia pensar com 
clareza.
      Habituado a liderar e a conseguir o que queria dos homens, aplicou a mesma tcnica com Dominica.
      - Vamos l, voc tem tudo a ganhar e nada a perder - disse, em tom bondoso. - D-me sua mo e diga que a resposta  "sim".
      Estendeu a mo. De um modo hesitante, porque era isto o que ele esperava dela, Dominica colocou a mo na dele.
      Lorde Hawkston percebeu que os dedos da jovem estavam frios e trmulos.
      - A resposta  "sim", no ? - insistiu.
      - Sim... milorde - respondeu, num tom de voz que no passava de um murmrio.



CAPTULO III
      
      
      
      Lorde Hawkston no esperou pelo ch preparado pra ele com tanto trabalho. Aprendera, no mundo dos negcios, que, tendo concludo uma transao difcil, era 
sempre bom ir embora antes que a outra parte comeasse a se arrepender.
      - No precisa incomodar seu pai - disse ele. - Volto amanh de manh, a fim de lev-la para comprar o enxoval.
      Dominica no respondeu e ele teve a impresso de que ela no conseguia falar.
      - Fico-lhe muito grato por ter concordado em casar com meu sobrinho.
      Inclinou-se diante da moa e ela abriu a porta da frente.
      A carruagem do governador, com o braso do Consulado Britnico e belos cavalos ricamente ajaezados, parecia resplandecente, diante da aparncia pobre da casa 
do vigrio.
      Dominica no pde deixar de pensar que os lacaios, com suas magnficas libres, deviam achar desprezvel aquele ambiente.
      Um lacaio abriu a porta da carruagem descoberta, e lorde Hawkston entrou. Depois de colocar uma manta leve nos joelhos do amo, o lacaio pulou para a bolia 
e a carruagem partiu.
      Lorde Hawkston tirou a cartola, em despedida, e Dominica fez uma nova reverncia.
      Ficou olhando, at a carruagem partir, no sabendo que o visitante de seu pai tinha apreciado o modo como ficara ali imvel, a cabea erguida um tanto desafiadoramente, 
enquanto procurava ganhar coragem.
      Uma jovem muito sensata!, pensou ele, enquanto a carruagem seguia em frente. Seria a salvao de Gerald e provavelmente se dariam muito bem.
      Depois que a carruagem desapareceu, Dominica entrou em casa, fechou a porta e ficou encostada nela, como se precisasse de um apoio para a sbita fraqueza que 
sentia.
      Depois, correu para a cozinha, nos fundos da casa, onde sabia que ia encontrar as irms.
      Estavam todas l. F preparava sanduches e Caridade e Esperana arranjavam as frutas numa cesta de vime. Conversavam animadamente, mas, assim que Dominica 
entrou, ficaram em silncio, virando-se para ela com olhares interrogativos.
      - O que ele queria? - perguntou Caridade. Largando a faca de manteiga, F disse:
      - No diga que ele foi embora sem esperar pelo ch que estamos tendo tanto trabalho para preparar! Como  que deixou que sasse, Dominica, sabendo que todas 
ns queramos conhec-lo?
      - Ele foi embora - respondeu Dominica, em voz estranha, indo at a mesa e sentando em uma das cadeiras duras.
      - O que queria? - insistiu Esperana.
      No era to bonita como F, mas tinha os mesmos olhos azuis e cabelos louros. Mas, aos dezesseis anos, estava na idade da molecagem, e vivia despenteada e 
de unhas sujas.
      - Sim, que foi que ele disse? - perguntou Caridade, impaciente.
      - Veio me pedir para casar com o sobrinho dele!
      Dominica sabia que, no princpio, elas no acreditariam. Depois, como se a seriedade da irm mais velha as tivesse convencido, fitaram-na de olhos arregalados, 
com um espanto que pareceria ridculo, se Dominica no sentisse a mesma coisa.
      - Ele pediu o qu? - perguntou F finalmente.
      - Que case com o sobrinho dele.  um plantador de ch, e a moa que lorde Hawkston trouxe para casar com ele, da Inglaterra...
      A exclamao de Caridade a interrompeu.
      - Lorde Hawkston? Quer dizer que  um lorde?
      - Um lorde! - disse F. - E veio aqui em casa! Oh! Dominica, como  que deixou que fosse embora?
      - Vai voltar amanh, para comprar meu enxoval.
      Houve uma balbrdia. Ningum entendida nada! As palavras "enxoval", "lorde", "casamento" eram repetidas inmeras vezes, at que Dominica ps as mos nos ouvidos 
e gritou:
      - Parem! Preciso pensar! Preciso ter certeza de que fiz o que ... certo.
      - Se quer dizer que vai casar com o sobrinho de um lorde, no sei o que precisa pensar - disse F. -  a coisa mais emocionante, mais excitante que jamais 
ouvi na vida!
      - Claro que ! - concordou Esperana. - Ns todas podemos ir passar uns tempos com voc. Acha que ele me emprestaria um cavalo? E h boas pescarias nas montanhas! 
Eu no daria trabalho. Voc vai me convidar, Dominica?
      Como a outra nada dissesse, F respondeu:
      - Ela vai convidar todas ns, mas agora vamos deix-la em paz. Caridade, d-lhe uma xcara de ch. Dominica, coma um sanduche. So muito bons e voc no comeu 
quase nada no almoo.
      - No havia muito para comer! - disse Graa.
      Era pequena, gorda e gulosa, e sempre se queixava de que no havia comida suficiente.
      - Pois bem, voc, pelo menos, no passa fome - replicou Esperana, secamente. - Nunca passa fome.
      - Parem de discutir, vocs duas - ordenou F. - No vem que Dominica est preocupada?
      Ps dois sanduches num prato e colocou o prato na frente de Dominica. Caridade ps uma xcara de ch ao lado do prato.
      - Beba - disse, com ar encorajador. - Depois, voc nos conta tudo.
      Prudncia, a caula, que s tinha nove anos, foi para perto da irm mais velha.
      - No v embora, Dominica - disse, em tom splice. - No podemos viver sem voc.
      A moa abraou a irmzinha.
      -  disto que tenho medo! Oh, meninas, ser que tomei a deciso certa? Quando disse a lorde Hawkston que aceitava o pedido de casamento, pensei que pudesse 
ajudar a todas vocs!
      - Podemos ir passar uns tempos l - disse Esperana.
      - E voc pode nos mandar suas roupas usadas - sugeriu F.
      - Com certeza, ele tem montes de dinheiro - observou Caridade. - Os lordes, em geral, so muito ricos.
      Dominica tomou um gole de ch, como se isto a sustentasse, e disse:
      - Lorde Hawkston falou que, se eu casar com seu sobrinho, ele nos dar dinheiro para termos conforto. Poderei ajudar vocs e preciso dar um jeito de convencer 
papai a fazer com que Mallika venha trabalhar aqui todos os dias, em vez de s uma vez por semana, como agora.
      - Ela vai ter que ajudar na cozinha - disse F, vivamente. - Voc sabe como sou ruim nisso! Nem mesmo consigo acender o fogo!
      - Ser que papai vai concordar? - perguntou Dominica. - Eu devia ter recusado! Alm do mais,  errado casar com um homem que a gente nunca viu!
      - Com certeza, ele  alto e bonito como o tio - disse Caridade. E, quando ele a vir, Dominica,  vai ficar loucamente apaixonado por voc e voc por ele. Como 
num conto de fadas!
      Dominica levantou-se.
      - No acredito que seja verdade! Ser que lorde Hawkston veio mesmo aqui, ou apenas sonhei. Caridade?
      -  verdade!  verdade! Fui eu que o recebi! Eu que fui chamar papai! Pense, Dominica, como vai ser emocionante haver um casamento na famlia!  papai quem 
vai celebrar o casamento?
      Dominica fitou a irm, perturbada.
      - No creio. Acho que lorde Hawkston pretende me levar para Kandy, e o casamento ser realizado l.
      - Ento, no podemos ser damas de honra - disse F, decepcionada. - Oh, Dominica, eu gostaria tanto de ser sua dama!
      - Por que  que o rapaz, seja qual for o nome, no veio esperar o tio em Colombo? - perguntou Esperana.
      - Porque est doente. E seu nome  Gerald Warren.
      - Acho Gerald um nome romntico - murmurou Caridade.
      - Mas Warren  sem graa - comentou F. - Sra. Warren...
      Bom, no  assim to mau!  uma pena que no seja um lorde.
      - Vai ser, um dia, se o tio no casar - disse Dominica, em voz baixa. - E o tio disse que pretende ficar solteiro.
      As trs irms mais velhas soltaram uma exclamao excitada. Caridade disse:
      - E voc vai ser uma lady! Pense nisso, Dominica! Vai ser uma lady e sentar  direita do governador, quando for jantar no Palcio do Governo.
      Dominica sorriu pela primeira vez.
      - Esta possibilidade  muito remota. Afinal de contas, lorde Hawkston no  velho.
      - Hoje, na igreja, achei que deve ter uns trinta e cinco ou trinta e seis - disse F. - Sou boa para calcular a idade das pessoas.
      - Pois achei que tem muito mais do que isso - observou Caridade. - Mas  muito distinto. Gostaria de v-lo com uma coroa na cabea.
      - No creio que ele viaje carregando uma coroa - observou Dominica, sorrindo.
      - Que mais ele disse... ? - comeou F, mas foi interrompida pelo som estridente da campainha da parede. - Papai! Caridade, v ver o que ele quer.
      - No. Vou eu - disse Dominica. - Tenho certeza de que  comigo que quer falar.
      Ningum protestou. Todas elas, com exceo de Dominica, tinham medo do pai e s a lembrana dele foi suficiente para que mudassem de assunto e de tom de voz.
      Dominica pegou a xcara de ch e tomou o que restava, como que para criar foras. Depois, saiu da cozinha, sem nada mais dizer.
      Seguiu pelo corredor estreito que levava  parte da frente.
      A casa paroquial tinha sido construda cinqenta anos antes, no grandioso estilo colonial, dando ao primeiro vigrio que ali residira um ambiente de pompa 
e de importncia.
      Ele era um homem rico, mas os que o sucederam eram pobres, sem fortuna pessoal para complementar a modesta remunerao que lhes era permitida pelos chefes 
da Igreja, na Inglaterra.
      Somente Dominica, assim como a me, antes dela, sabia como era duro manter limpa uma casa grande, mas aceitava o trabalho como parte de sua vida diria e no 
se queixava.
      O escritrio do vigrio era enorme, dando para o jardim. Embora as melhores peas de moblia estivessem ali, mesmo assim eram poucas e inadequadas.
      O vigrio estava sentado  escrivaninha. Quando Dominica entrou e fechou a porta, ele disse, secamente:
      - Por que no me chamou para me despedir de lorde Hawkston?
      - Ele no quis ficar para o ch, papai, e vai voltar amanh.
      - Ele lhe disse qual a sua proposta?
      - Sim, papai.
      - Aceitei-a, Dominica, porque achei que era o melhor para voc. Afinal de contas, como lorde Hawkston disse, tenho seis filhas, que um dia vo precisar de 
marido.
      - Sim, papai.
      - Eu gostaria de conhecer o rapaz, antes. Mas lorde Hawkston elogiou o sobrinho e tenho certeza de que sua me, Dominica, teria ficado contente por voc casar 
com um ingls que no foi corrompido pelo pecado e pela depravao que encontro tantas vezes neste pas.
      - Sim, papai.
      - Lorde Hawkston lhe falou de seus planos? Que deseja lev-la para Kandy e que o casamento se realizar l?
      - Eu gostaria que meu casamento fosse feito por voc, papai.
      - Foi o que sempre esperei, mas sabe to bem como eu que no disponho de tempo. E, mais ainda, no estou em condies de gastar.
      - No, claro que no, papai.
      - Eu lhe darei minha bno, antes de voc partir. E agora, Dominica, acho que devemos rezar para que Deus lhe d foras para suportar sua nova vida e para 
que no esquea os ideais e os padres de moral que lhe ensinei desde criana.
      Ao dizer isto, o vigrio caiu de joelhos ao lado da escrivaninha.
      Dominica ajoelhou-se tambm.
      Estavam habituadas a ver o pai rezar a qualquer hora do dia, quando isso lhe ocorria, alm de todas tomarem parte nos longos servios religiosos que ele conduzia 
todas as manhs e todas as tardes.
      Dominica no se sentiu absolutamente constrangida. Ajoelhou-se sem se apoiar em nada, cruzou as mos e fechou os olhos.
      Enquanto o pai fazia uma longa exortao ao Todo-Poderoso, para preserv-la do pecado e da tentao, ela fazia suas oraes particulares, muito simples e mais 
reconfortantes:
      - Ajudai-me,  Deus, a ter certeza de que fiz o que devia e o que mame teria aprovado! Parece estranho e at mesmo errado casar com um homem que nem conheo, 
mas vou poder fazer alguma coisa por minhas irms! Por favor, fazei com que papai compreenda que elas podero cuidar da casa sem que Mallika venha todos os dias. 
E fazei com que F seja capaz de tomar conta de Graa e de Prudncia.
      Estava to concentrada, que no percebeu que o pai tinha terminado sua exortao e esperava que ela respondesse.
      - Amm! - disse a jovem, vivamente.
      - A resposta devia ser "mas livrai-nos do mal" - observou o pai, irritado.
      - Desculpe, papai. Mas livrai-nos do mal.
      - Amm!
      O vigrio levantou-se.
      - Vamos fazer uma orao maior, quando estivermos todos juntos, hoje  noite. Sinto que nossas oraes sero como uma couraa para proteg-la das dificuldades 
e das tentaes que talvez a esperem.
      - Obrigada, papai.
      Dominica saiu e, em vez de ir para a cozinha, foi para o quarto. Havia ali um retrato de sua me. Tinha sido desenhado por um artista amador, que insistira 
em retratar a sra. Radford, logo depois de seu casamento.
      A especialidade do pintor eram as aquarelas, mas fora suficientemente hbil em reproduzir a beleza do modelo, e Dominica podia lembrar do que ele no havia 
desenhado.
      A sra. Radford era uma mulher bonita. Tinha os olhos azuis e os cabelos louros de F, mas Dominica herdara seu nariz pequeno e reto, assim como o formato dos 
lbios.
      Dominica tinha o mesmo rosto oval e suas sobrancelhas arqueadas, que lhe davam o ar de equilbrio que lorde Hawkston tinha considerado "sensato".
      A jovem olhou para o retrato.
      - O que voc me aconselharia, mame?
      Ficou imvel, como se esperasse uma resposta, mas ouviu apenas o zumbido das abelhas nas roseiras trepadeiras que chegavam at o peitoril da janela do quarto.
      - Digamos que, ao conhec-lo, eu o odeie - murmurou - Suponhamos que ele no goste de mim.
      Depois, como se tivesse obtido uma resposta, refletiu que, caso isto acontecesse, ela poderia voltar para casa.
      Iria para Kandy e, se ela e o rapaz antipatizassem um com o outro, tinha certeza de que lorde Hawkston compreenderia que o projeto era invivel e pagaria sua 
passagem de volta a Colombo.
      - Neste caso, nada tenho a perder. E, se eu gostar dele, as coisas sero muito diferentes - disse a si mesma.
      O importante era que pudesse ajudar as irms. Estava cada vez mais difcil conviver com o pai. Desde a morte da me, ele tinha tornado as coisas quase insuportveis 
para as filhas.
      Em primeiro lugar, chorava cada nquel gasto com comida. A Quaresma seria no ms seguinte, e Dominica sabia que ele ia insistir para que jejuassem duas vezes 
por semana. At mesmo fora da Quaresma, jejuavam uma vez por semana e o dinheiro economizado era dado aos pobres de Colombo, muitos dos quais, na opinio de Dominica, 
passavam melhor do que os da famlia do vigrio.
      Graa estava sempre com fome e Prudncia precisava que a obrigassem a comer. Dominica tinha certeza de que ficaria fraca, se passasse um dia inteiro s tomando 
gua!
      - Por que Prudncia est comendo ovo? - perguntava Graa. - Pensei que fosse dia de abstinncia!
      - No que diz respeito a Prudncia,  remdio - era a resposta invarivel de Dominica. - Papai gastaria muito mais, se tivssemos que chamar o mdico. Tenho 
certeza de que ela est anmica.
      - Tambm estou anmica - protestava Graa.
      - Voc  gulosa, isto sim! - dizia F.
      - No vejo razo para ficarmos sem comer, s para agradar a papai.
      - No  para agradar a papai, e sim, para nos disciplinarmos, como boas crists - dizia Dominica maquinalmente.
      - Pois bem, eu preferia ser uma m crist a sentir fome! - dizia F. - Em todo caso. h algumas bananas no jardim e, mesmo que meia dzia de anjos com espadas 
chamejantes as protejam, preciso comer uma. Pelo menos, meu estmago vai parar de roncar!
      Dominica muitas vezes ficava imaginando o que seria delas, se no houvesse frutas no jardim, bananas, papaias, mangas e muitas outras frutas e verduras naturais 
do Ceilo.
      O vigrio, naturalmente, seguia o jejum  risca e, depois de um dia de abstinncia, parecia ainda mais rspido e agressivo ao condenar o mal e os pecados da 
sociedade.
      - Depois que casar, vou levar as meninas para minha casa e procurar arranjar um bom marido para F - disse Dominica a si mesma. - As outras levaro uma vida 
normal, numa casa onde no seja preciso rezar para agradecer cada migalha de po e onde no se tenha uma conscincia permanente dos pecados da humanidade.
      Sentiu remorso por estes pensamentos rebeldes, mas sabia que as irms mais velhas no tinham pacincia com o fanatismo do pai e que nenhuma delas sentia uma 
verdadeira afeio por ele.
      - Procurei tomar conta delas, como voc, mame - disse ela, olhando para o retrato. - Mas tem sido difcil, muito difcil!
      Sabia que seria pior para as irms, depois que ela partisse. Mas, por outro lado, poderia fazer com que, cedo ou tarde, escapassem s restries impostas pelo 
pai.
      Que pena lorde Hawkston no aceitar sua sugesto de levar F para casar com o sobrinho! Seria uma noiva muito mais satisfeita do que ela.
      Uma noiva!
      Teve uma sensao estranha, assustadora, ao pensar que seria a noiva de um homem que nunca vira e de quem no ouvira falar at uma hora antes.
      
      
      
      No dia seguinte, lorde Hawkston chegou antes da hora em que Dominica o esperava.
      Ela achou que no chegaria antes das dez e meia ou onze horas. Ele entrou sem tocar a campainha, encontrando-a de joelhos, esfregando o cho da cozinha.
      A jovem deu um gritinho, quando viu as botas luzidias caminhando em sua direo. Sentou nos calcanhares e olhou para ele, corando violentamente.
      - No estava  minha espera?
      - No... milorde. No deve passar das nove e meia, e pensei que viesse mais tarde.
      - Sou madrugador Dominica, e temos muito que fazer. Quanto mais cedo comearmos, melhor.
      - Vou me aprontar, milorde - disse, baixinho.
      No podia deixar de ter conscincia da escova em sua mo, dos pedaos de sabo grosseiro no cho, do balde de gua quente a seu lado e do avental marrom, de 
saco, sobre o vestido de algodo.
      Pegou o sabo e ia levantar-se, quando lorde Hawkston perguntou:
      - Voc precisa fazer isso?
      - Papai s pode pagar uma faxineira uma vez por semana. E a cozinha se suja facilmente.
      - Sim, compreendo. O que vai acontecer, quando no estiver mais aqui?
      Dominica estava agora de p. Colocou o sabo na beirada da mesa, antes de responder.
      - Prometi a F, que detesta trabalhos domsticos, que vou tentar convencer papai a fazer com que Mallika, nossa faxineira, venha todos os dias, em vez de s 
uma vez por semana. Mas no sei se ele vai concordar.
      Dominica tinha um ar preocupado. Comeou a tirar o avental grosseiro.
      - Estou vendo que sua ausncia causar uma srie de problemas, que eu no tinha previsto - declarou lorde Hawkston. - Acha que as coisas ficariam mais fceis, 
se eu prometesse pagar o ordenado de Mallika? Afinal de contas, devo alguma coisa a seu pai, por tirar-lhe, no s a filha, como tambm a "empregada para todos os 
servios"!
      Disse isto com certa ironia. Sabia que em nenhuma outra casa, em Colombo, a dona da casa lavava o cho. Dominica corou novamente.
      - Creio que papai  orgulhoso demais para permitir que o senhor pague pelos servios de uma empregada dele - disse, com ligeira hesitao. Depois acrescentou: 
- No, isto no  verdade. O que penso realmente  que, se o senhor lhe desse o dinheiro para pagar Mallika, ele daria a alguma famlia que achasse mais necessitada 
do que a nossa. Neste caso, F ainda teria que limpar a casa, ou deix-la suja.
      Lorde Hawkston sorriu.
      - Vejo que tenho que encontrar outra soluo. Voc pagar Mallika com o dinheiro que eu lhe der.  mais satisfatrio?
      - Sim, ! Mas o senhor... est em condies de... fazer isso?
      - Estou. Acontece, Dominica, que sou um homem rico, de modo que no precisa ter escrpulos de aceitar, no apenas o dinheiro do ordenado de Mallika. como tambm 
o do seu enxoval, que vamos comprar agora.
      Ela respirou fundo. Ia dizer qualquer coisa, mas mudou de idia.
      - Vou trocar de roupa. No quero deix-lo esperar. Saiu da cozinha, antes que ele pudesse responder.
      Lorde Hawkston olhou ao redor, notando o fogo primitivo, o cho nu, as cadeiras duras, a loua barata, empilhada no armrio. Depois, foi para a sala, onde, 
na vspera, tinha conversado com o vigrio e com Dominica.
      No precisou esperar muito tempo. Ouviu os passos da jovem na escada sem passadeira e logo Dominica entrou. Estava com o mesmo vestido que tinha usado na igreja, 
o mesmo feio chapu preto e luvas de algodo pretas.
      - Desculpe-me por no estar pronta quando chegou, milorde.
      - Onde est o resto da famlia?
      - Minhas irms esto com as professoras, com exceo de F, que acompanhou papai, porque vou sair com o senhor. Quer dizer que ela no pde ter uma lio de 
francs. - Notou o ar de surpresa dele e explicou: - Mame sempre fez questo de que, por mais pobres que fssemos, tivssemos uma boa educao. s vezes, papai 
reclama da despesa. At quis que F parasse com as lies, assim que completou dezoito anos. Mas consegui convenc-lo a deixar que ela continuasse at o fim do ano.
      - Parece que voc sente falta das suas aulas - observou lorde Hawkston.
      - Mais do que eu possa dizer! Era como entrar num outro mundo. - Deu um suspirozinho. - Se ao menos eu conseguisse mais livros! - Ocorreu-lhe de repente uma 
idia, e seus olhos se iluminaram. - H livros na sua fazenda?
      - Havia muitos, quando fui para a Inglaterra. Mas os que voc no encontrar nas minhas estantes podem ser encomendados. Sei que h uma livraria em Kandy e 
vrias em Colombo. Precisa me dizer mais as suas preferncias, Dominica. Eu gostaria de saber.
      Conversando, dirigiram-se para a porta da frente, que estava aberta, e a jovem viu a carruagem que o esperava l fora.
      Dominica no pde deixar de ficar emocionada, quando sentou na vitria acolchoada e o lacaio colocou uma manta em seus joelhos.
      Lorde Hawkston sentou ao lado dela.
      - De que tipo de leitura voc gosta?
      - De tudo. Mas, principalmente, a histria de outros pases e, mais ainda, a da Inglaterra.
      - Nunca esteve l?
      - No. Mame costumava nos contar o que fazia em menina e tambm nos falava da manso, em Gloucester.
      - Voc gosta do Ceilo?
      - Claro. Foi sempre o meu lar, e gosto de Colombo, do povo, das flores, do mar. Mame sempre dizia que, se fssemos para a Inglaterra, amos sentir falta do 
sol, mas que haveria outras compensaes.
      - E quais eram, na opinio dela? - perguntou lorde Hawkston, com ar ctico.
      - Creio que minha me achava que suas razes estavam na Inglaterra e que, portanto, esse pas fazia parte dela. Tenho certeza de que tinha razo e que a nacionalidade 
 algo muito mais profundo e mais fundamental do que ter um determinado passaporte.
      Olhou-a. No era esse o tipo de comentrio que se esperava de uma jovem.
      - Ento, gostaria de viajar?
      - Tanto quanto tenho viajado com minha mente - respondeu ela. - Mas, naturalmente, o ltimo mtodo  mais barato!
      Riu, ao dizer isto, e lorde Hawkston percebeu que o rosto dela se iluminava.
      Ficaram durante algum tempo em silncio. A carruagem passou pelo hipdromo e, quando chegaram diante do mar, Dominica perguntou:
      - Tendo vivido tanto tempo no Ceilo, a que pas o senhor acha que pertence?
      -  uma pergunta que fiz muitas vezes a mim mesmo. Quando sa do Ceilo, h dois anos, achei que estava deixando tudo o que me era familiar, tudo o que considerava 
um lar. Apesar disto, quando me vi na Inglaterra, percebi que havia l muita coisa que me importava, porque fazia parte da minha infncia, da minha adolescncia 
e do tempo em que, pela primeira vez, me considerei adulto.
      - E, ento, gostou de l tanto quanto gostava do Ceilo!
      - Sim, creio que  verdade - disse ele, quase com surpresa, como se no tivesse pensado nisso antes.
      Tinham chegado s ruas mais movimentadas, cheias de pessoas de vrias raas e com trajes orientais. Havia cingaleses, tanto os homens quanto as mulheres com 
os cabelos presos atrs, as mulheres com grampos enfeitados. Havia tambm indianos. Hindus de todas as castas acotovelavam-se com mouros de sangue rabe que tinham 
introduzido o caf no Ceilo. Havia negociantes afegs, policiais malaios, persas de nariz comprido, chineses de olhos enviesados, assim como eurasianos descendentes 
de holandeses, portugueses ou ingleses.
      Era um caleidoscpio de cores, movimentos, rudos e confuso.
      - Para onde est me levando? - perguntou Dominica.
      - O eficiente secretrio do governador me informou de que a costureira mais elegante e mais importante do Ceilo  madame Fernando.
      Dominica fitou-o, de olhos arregalados.
      - E  mesmo, mas previno-o, milorde, de que  tambm muito careira.
      - J lhe disse, Dominica, que vai ter o enxoval mais bonito que uma jovem pode desejar. Vou, portanto, apresent-la a madame Fernando, dizer que as contas 
me devem ser enviadas e depois vou deix-la sozinha para que escolha o que desejar.
      Dominica ficou de respirao suspensa.
      Lorde Hawkston tinha certeza de que estava imaginando, excitada, o que iria comprar. Que moa, vestida pobremente como estava vestida, com uma roupa de tecido 
barato e provavelmente feita por ela mesma, resistiria  tentao de vestidos iguais aos usados pelas senhoras mais elegantes de Colombo?
      Chegaram  loja de madame Fernando, que nada mais exibia na vitrina, alm de um chapu elegante, enfeitado de plumas de avestruz.
      Era, evidentemente, mais decorativo do que apropriado para o uso de uma dama elegante, mas Dominica olhou-o com um olhar avaliador que fez com que lorde Hawkston 
imaginasse se seria sensato confiar no gosto dela.
      Quando o lacaio pulou da bolia para abrir a porta, a moa falou, impulsivamente:
      - Por favor, milorde, no quer escolher para mim? Garanto que vou cometer erros e o senhor ter vergonha de mim.
      Lorde Hawkston ficou admirado. Tinha planejado o que faria, depois que a deixasse na loja. Nunca lhe ocorrera a idia de ficar sentado na sala de uma costureira, 
escolhendo vestidos para uma jovem, nem que fosse fazer outra coisa em relao ao enxoval, a no ser assinar os cheques.
      Com um leve sorriso, tomou uma deciso.
      - Por que no? - disse, mais para si mesmo do que para Dominica. - Afinal de contas, sempre achei que, se uma pessoa quer uma coisa bem feita, ela mesma deve 
faz-la. Mas no se culpe, se tivermos idias divergentes sobre o que deve usar.
      Notou a expresso agradecida do olhar dela e compreendeu que Dominica estava no apenas preocupada com possveis erros, mas tambm intimidada por ficar sozinha 
numa loja to elegante.
      Madame Fernando parecia uma criatura dominadora, e lorde Hawkston logo percebeu que, se Dominica estivesse sozinha, pouca opinio poderia ter dado na escolha 
de seu enxoval.
      Francesa de nascimento, madame tinha vindo para Colombo pouco depois de casar com um plantador portugus. Mas logo se cansou da vida da fazenda e comeou a 
fazer roupas de baixo, bordadas com arte, para as senhoras da cidade. Teve a sorte de agradar  mulher do governador e, dali por diante, seu sucesso foi garantido.
      A princpio, trabalhava noite e dia para entregar suas encomendas; depois, arranjou ajudantes cingaleses, a quem ensinou a bordar. Em dez anos, estava estabelecida 
como costureira, com uma loja, vrias ajudantes e uma conta bancria que aumentava a cada ano.
      Para o marido, foi uma sorte ela ter dinheiro, quando a ferrugem do caf destruiu sua plantao da noite para o dia. Desiludido, ele quis voltar para a Europa, 
mas a esposa se recusou a acompanh-lo. Sentia-se feliz no Ceilo e tinha vrios admiradores que no pretendia abandonar.
      Finalmente, o sr. Fernando partiu sozinho.
      No pensaram em divrcio, porque ambos eram catlicos, e madame achava que ele encontraria em Portugal muitas mulheres encantadoras para consol-lo.
      Examinou a aparncia de lorde Hawkston, tendo sido informada por uma de suas recepcionistas de que ele tinha vindo numa das carruagens do governador.
      - Em que posso servi-lo, monsieur? - perguntou, com um sotaque que nunca chegou a perder.
      - Sou lorde Hawkston e preciso de sua ajuda, madame. A mulher fez uma reverncia.
      - Estou s suas ordens, milorde.
      - Esta moa, srta. Dominica Radford, vai casar com meu sobrinho, o sr. Gerald Warren. Precisa de um enxoval completo.
      Os olhos de madame Fernando brilharam de excitao.
      - Ser um prazer vestir uma pessoa to encantadora como mademoiselle!
      Ao dizer isto, olhou para o vestido de Dominica, desviando depois o olhar, como se o tecido e o modelo lhe causassem horror.
      - H um problema - disse lorde Hawkston. Madame Fernando esperou, apreensiva.
      -  que queremos partir no mximo at quinta-feira, para Kandy, o que significa que a srta. Dominica precisa ter vrios vestidos prontos, at l. O resto pode 
ser mandado depois.
      Madame deu um suspiro de alvio. Tivera medo de que ele dissesse que no podia pagar logo todas as roupas que encomendasse. A pressa, entretanto, ia custar-lhe 
mais, porque as costureiras teriam que trabalhar  noite, para entregar a encomenda.
      Mas isto no tinha importncia.
      - Tenho alguns vestidos prontos ou semiconfeccionados que, tenho certeza, ficaro muito bem em mademoiselle. Quer que ela os vista, para que o senhor os aprove?
      - Estamos em suas mos, madame - respondeu ele, com um ar que a modista achou muito atraente.
      Ela disse isto a Dominica, no provador, depois de ter dado uma dzia de ordens para que trouxessem o que era preciso.
      - Seu futuro tio por afinidade, mademoiselle, tem uma aparncia trs distingue. Ele , como dizem na Inglaterra, um verdadeiro gentleman!
      -  muito bondoso, mas no quero escolher sempre as roupas mais caras, madame.
      - No esquente a cabea com essas coisas. O custo fica entre mim e monsieur. Mas, primeiro, para que seus vestidos possam ser apreciados devidamente, precisamos 
daquilo que chamo de "base".
      Ajudou a moa a se despir e soltou uma exclamao de horror, quando viu sua roupa de baixo, de algodo.
      Pela primeira vez na vida, Dominica viu-se metida num espartilho que deu a seu corpo uma elegncia que ela jamais pensara que teria.
      - Voc  magra. Isto  bom, mas a forma tem que ser perfeita. Cintura fina, busto delineado levemente e quadris bem modelados.
      Enquanto isso, ia cuidando de Dominica at que, finalmente, quando a "base" estava pronta, a moa mal pde acreditar que a seda desse uma sensao to agradvel 
e que as meias de seda modificassem tanto a aparncia de suas pernas.
      Finalmente lhe enfiaram um vestido pela cabea e ela teve uma exclamao de espanto. De seda cor-de-rosa, parecia acentuar o brilho de seus cabelos e a pureza 
da pele.
      -  muito rico!  rico demais! - protestou, impressionada com os babados e os apanhados, as anquinhas e a cauda pequena e elegante. - Nunca vou ter ocasio 
de usar um vestido to elegante.
      - Vamos primeiro mostr-lo a milorde - sugeriu a costureira. - H muitos outros, se ele no gostar deste.
      Dominica foi para o salo, bastante constrangida.
      Quando viu lorde Hawkston sentado numa poltrona de damasco, muito  vontade, achou que tinha sido ousada em pedir-lhe que ficasse. Mas, ao mesmo tempo, sabia 
que nunca poderia ter decidido nada, sozinha. Madame Fernando a aterrorizava, e tinha certeza de que lorde Hawkston jamais saberia que vestidos ela havia sido obrigada 
a comprar, a no ser que estivesse presente.
      Esperou o veredicto, olhando-o atentamente.
      - Encantador! Vai-lhe muito bem, Dominica. Voc gosta?
      - Nunca terei ocasio de usar este tipo de vestido.
      - Eu lhe disse que meu sobrinho  muito socivel. Tenho certeza de que vai querer lev-la a Kandy. E ver que ele tem muitos amigos na vizinhana. - Virou-se 
para madame. Este vestido deve ser includo no enxoval. Que mais a senhora tem para me mostrar?
      Dominica experimentou mais seis vestidos, todos aprovados por lorde Hawkston. Finalmente, madame Fernando apresentou sua pice de resistence: um vestido de 
noiva de renda branca, to belo, to fascinante, que, quando Dominica se olhou no espelho, mal pde acreditar que era sua imagem refletida.
      Havia tambm um vu e uma grinalda de flores de laranjeira.
      - Temos que mudar seu penteado, mademoiselle.  severo demais para uma jovem da sua idade. Vou lhe mandar um cabeleireiro. Ele lhe mostrar qual o penteado 
da moda.
      - No... No o mande, at eu estar pronta para receb-lo. No pde deixar de pensar que seu pai ficaria horrorizado, se visse um cabeleireiro na casa paroquial. 
Ao mesmo tempo, sabia que madame Fernando tinha razo e que o penteado que usava no combinava com a elegncia dos vestidos novos.
      Para agradar  costureira, que se mostrava insistente, Dominica afrouxou os cabelos sobre as orelhas, prendendo-os na nuca, com um coque.
      - Assim est melhor! Mas vai precisar de uns cachos na testa, mademoiselle, principalmente  noite. Enfeitam muito!
      - Vou pensar nisso - disse Dominica, timidamente.
      Sabia que lorde Hawkston concordaria com madame. Percebia que ele no estava comprando vestidos to bonitos s para satisfaz-la. Queria que ficasse to atraente 
como a jovem que havia abandonado seu sobrinho.
      Com certeza,  muito bonita, pensou Dominica.
      Desejou conhecer a moa, para ver em que modelos ela, Dominica, deveria se inspirar. Depois, achou que seria um erro ser apenas a cpia de uma mulher que no 
cumprira a palavra e que falhara, no somente a Gerald, como tambm a seu tio.
      Alm disso, talvez lorde Hawkston ficasse aborrecido, achando-a igualmente frvola e indigna de confiana.
      Vou ser eu mesma, pensou. Sou filha de minha me, e ela sempre disse que cada pessoa tem a prpria personalidade, carter e padres. Tentarei fazer o melhor 
possvel, mas sem imitar ningum.
      Entrou no salo vestida de noiva, parecendo ter sado de um conto de fadas.
      Lorde Hawkston fitou-a um longo momento e, depois, disse:
      - Parece que foi feito para voc!
      - Tem a sua aprovao, milorde? - perguntou madame Fernando.
      - Pode incluir este na coleo.
      - Obrigada, milorde.
      A modista virou-se para dar uma ordem, e Dominica aproximou-se do futuro tio.
      - Tem certeza de que devemos comprar este vestido? No acha que pode... dar azar... agirmos como se fosse certo seu sobrinho me aceitar como... esposa?
      - Neste momento, no posso acreditar que um homem no a aceite prazerosamente. Olhe-se no espelho. Pode ver por si mesma como est atraente e encantadora.
      Ela lhe deu um leve sorriso, mas seu olhar estava preocupado.
      - J basta por uma manh - disse ele. - Ponha um dos vestidos novos, que vou lev-la para almoar no Galleface Hotel.
      Dominica ficou surpreendida. Quando disse a madame Fernando aonde ia, a modista escolheu para a ocasio um vestido simples, mas encantador, de musseline florida, 
enfeitado com fitas cor-de-rosa. Havia sapatos novos combinando com os vestidos, alm de luvas e bolsas para a maior parte deles. Para o vestido que Dominica ia 
usar, trouxeram-lhe um chapeuzinho enfeitado com flores de seda cor-de-rosa e fitas de um tom mais suave para amarrar sob o queixo.
      - Quer que joguemos fora as roupas que vestia? - perguntou madame Fernando.
      A moa ficou horrorizada.
      - No, claro que no! Ainda podem durar muito e, tenho cinco irms mais moas.
      - Vai ter, sem dvida, roupas muito mais bonitas para dar a elas, futuramente - disse madame, com um sorriso.
      -  tambm o que acho. Mas, por enquanto...
      Calou-se. No podia explicar que seu pai ficaria horrorizado com os trajes que estava usando agora. Imaginou como poderia trocar depressa de roupa, assim que 
chegasse em casa.
      Inmeras vezes, o vigrio tinha acusado de pecadoras as mulheres que se vestiam de modo extravagante. Estava certo de que a frivolidade era um pecado e que 
os trajes bonitos corrompiam a quem os usava.
      - Faa o favor de mandar empacotar as roupas com que vim vestida, para eu lev-las.
      - Os vestidos que j esto prontos sero mandados para sua casa hoje  tarde, mademoiselle. As outras coisas sero enviadas, assim que ficarem prontas, at 
quinta de manh. O resto ser despachado para Kandy. Vou falar sobre isto a milorde.
      Quando saiu do provador, Dominica viu que lorde Hawkston estava assinando um cheque. Sabia que era uma soma enorme e teve remorso por gastar tanto dinheiro 
em roupas, quando poderia servir para matar a fome de muita gente. Mas era impossvel no ficar excitada com sua aparncia e por possuir tantas coisas bonitas. Tantas, 
que tinha perdido a conta.
      Lorde Hawkston entregou o cheque  modista e sorriu para Dominica. Esta fitou-o, e ele percebeu que os olhos da jovem tinham uma expresso splice.
      - Que houve?
      - Eu queria lhe pedir uma coisa. O senhor pode recusar, mas preciso... pedir.
      - Diga-me o que .
      Dominica e ele se afastaram um pouco, para que madame Fernando no os ouvisse.
      -  que o senhor me deu tanta coisa, muito mais do que eu esperava, com o que jamais sonhei. Ser que podamos devolver um dos vestidos e comprar chapus novos 
para minhas irms? Estamos usando preto desde que mame morreu e elas tero que continuar usando luto durante anos! Todas ns detestamos o preto!
      A voz de Dominica se quebrou com um pequeno soluo e seus olhos pediam compreenso.
      - S um vestido, o senhor no precisa gastar mais. Lorde Hawkston sorriu e virou-se depois para a modista.
      - Madame, tenho outra encomenda para lhe fazer.
      - Mas, claro, milorde.
      - H mais cinco moas na famlia Radford, de vrias idades. Gostaria que a senhora fizesse, para cada uma delas, um vestido domingueiro, simples, como o que 
Dominica est usando agora. Tambm vo precisar de chapus combinando com os vestidos, todos de modelos diferentes, de acordo com a idade de cada uma. Acho que seria 
bom a senhora mandar algum, hoje  noite,  casa paroquial, para tomar as medidas.
      - Ser um prazer, milorde.
      Madame acompanhou os dois at a porta, com muitos agradecimentos.
      Quando finalmente a carruagem partiu, Dominica virou-se para lorde Hawkston.
      - Nunca pensei que algum pudesse ser to bom, to maravilhoso! Obrigada, obrigada de todo o corao!
      - Foi um prazer, Dominica. - E estava sendo sincero.



CAPTULO IV
      
      
      
      Atravessando pntanos e arrozais, o trem seguia com grande velocidade, na opinio de Dominica.
      Ela olhava para fora, sentindo, como sentira desde o momento em que conhecera lorde Hawkston, que estava vivendo num sonho, que nada tinha realidade nem substncia.
      At o ltimo momento, no acreditou que ia mesmo deixar para sempre a casa paroquial e se separar das irms.
      Elas estavam excitadas demais com os vestidos e os chapus que tinham ganhado de presente, para se preocupar com a idia de que a irm ia deix-las.
      Quando Dominica lhes contou o que havia encomendado na loja de madame Fernando, mal puderam acreditar.
      - Ser que papai vai deixar que usemos essas roupas? - perguntou F. - Que ser que ele vai dizer, quando vir coisas to ricas?
      Imitando a voz do pai, Caridade respondeu:
      - Ele vai dizer: "A vaidade da mulher e seu desejo de trajes luxuosos so uma abominao aos olhos do Senhor!"
      - Garanto que vai nos obrigar a continuar usando aqueles vestidos horrveis e os chapus detestveis! - comentou F, com ar de desespero.
      - Tambm pensei nisso, quando vinha para casa - disse Dominica. ? Embora eu esteja errada, vou dizer o que podem fazer.
      - O qu? - perguntaram as meninas, em coro.
      - Quando as roupas novas chegarem, queimem as velhas!
      - Queimar?!
      - Sabem muito bem que papai nunca permitiria que comprassem um chapu novo, se o velho ainda estivesse em condies de ser usado. E vocs no podem ir  igreja 
de cabea descoberta!
      F abraou a irm.
      - Voc  um gnio!  exatamente o que vamos fazer.
      - Talvez isto seja tapear - disse Dominica, hesitante -, mas garanto que os vestidos sero lindos, tanto quanto os meus. E lorde Hawkston disse a madame Fernando 
que devem ser todos diferentes.
      -  o homem mais maravilhoso do mundo! - exclamou F, exultante.
      - Tenham cuidado para no lhe agradecer diante de papai - recomendou Dominica.
      Elas se lembraram do aviso, achando difcil nada dizer, at o momento em que se viram a ss com ele. A, ento, os agradecimentos foram efusivos.
      - Como o senhor foi amvel!  uma maravilha! Mal podemos acreditar que est nos dando um presente maravilhoso!
      - Espero ansioso pelo momento de v-las vestidas como deveriam estar - disse ele. Dominica julgou ver um brilho malicioso em seu olhar.  
      Prudncia, que quase no havia falado, aproximou-se do visitante.
      - Acho o senhor muito amvel. Vou casar com o senhor, quando crescer!
      Lorde Hawkston ficou ligeiramente sobressaltado. Depois, disse:
      - Sinto-me honrado por receber o primeiro pedido de casamento que uma dama jamais me fez!
      - Vai esperar por mim?
      Ele fitou-a e achou que era uma rplica em miniatura de Dominica. Tinha os mesmos cabelos acinzentados, olhos cinzentos e nariz reto. Parecia frgil, e achou 
que era a mais fraca da famlia.
      - O senhor me espera? - insistiu Prudncia.
      - Vou-lhe fazer uma promessa - disse lorde Hawkston, aps um momento de reflexo. - Quando estiver com dezoito anos, darei um baile, onde poder ficar conhecendo 
os rapazes mais bonitos, mais encantadores e os melhores partidos, entre todos os que conheo. Os olhos da menina se iluminaram.
      - Preciso aprender a danar!
      - Precisa tambm ser forte e comer bem - disse Dominica. ? Do contrrio, no ter foras para danar a noite toda. No  verdade, milorde?
      - , sim - respondeu ele, em tom srio. - Danar muito cansa, e seria uma pena se, assim como Cinderela. voc tivesse que sair do baile  meia-noite!
      - Vou comer - prometeu Prudncia.
      Ele foi muito inteligente, dando esse incentivo a uma criana, pensou agora Dominica, olhando pela janela do trem. Sempre tinha dificuldade em fazer com que 
a irmzinha se alimentasse direito. A menina era inapetente e, alm do mais, a comida da casa do pai era parca e pouco convidativa.
      Os arrozais se alternavam com moitas que pareciam ilhotas cercadas pelo verde-esmeralda do arroz novo. Dominica viu os bfalos atrelados aos arados, afundados 
at os joelhos na terra encharcada.
      De Rambukana em diante, o terreno subia muito e uma nova locomotiva foi acrescentada ao trem.
      Num ponto chamado Rocha Sensao, a linha frrea atravessava a encosta ngreme e a vista era fantstica. Havia um precipcio de uns duzentos metros abaixo 
deles e, l embaixo, outra descida de trezentos metros, at os arrozais.
      Os morros perto da estrada de ferro estavam cobertos de ps de ch crescendo no meio dos tocos dos ps de caf mortos, mas a maior parte do tempo atravessavam 
florestas.
      Lorde Hawkston estava sentado de frente para Dominica, mas, achando que ele no queria conversar por causa do barulho da mquina, ela ficou olhando a paisagem, 
imersa em seus pensamentos.
      Sabia que seu vestido de viagem era muito elegante e que o casaco a seu lado, no banco, tinha um corte perfeito.
      Quando as irms a viram usando o chapu novo enfeitado de flores, tinham ficado mudas de espanto, at que F quebrou a tenso, perguntando:
      - Quantos anos voc vai ter que usar esse vestido, at eu poder herd-lo?
      - Vou mand-lo para voc, assim que eu ganhar outro - prometeu Dominica.
      Havia tantas coisas para providenciar no ltimo momento, tantas recomendaes para fazer a Mallika, que Dominica pouco tempo teve para pensar em seus sentimentos 
ou para se preocupar com o que a esperava.
      Somente na escurido da noite  que pensava, com medo, que Gerald Warren a aguardava, imaginando se estaria apreensivo a respeito dela, como Dominica estava 
a respeito dele.
      Pelo menos, achava que Gerald devia se parecer com tio e isso j era um consolo.
      Mas ele no podia fazer uma idia dela. Imaginou se estaria zangado e revoltado com a idia de casar com uma estranha.
      Sabia que lorde Hawkston tinha escrito para o sobrinho na segunda-feira e que, para ter certeza de que ele receberia a carta, a mandara por um portador.
      Lorde Hawkston no disse a Dominica se tinha recomendado ao portador que esperasse pela resposta. Ela achava que no; que estava certo de que o sobrinho obedeceria 
sem discutir. Ao mesmo tempo, era impossvel no ficar apreensiva quando o trem, aps uma viagem de quatro horas, entrou em Kandy, onde haveria uma baldeao, antes 
do trajeto final.
      Sempre tinha ouvido dizer que Kandy era muito bonita e o ltimo reduto dos reis cingaleses, com seu templo sagrado dando para um lago artificial. Mas no esperava 
um espetculo to belo.
      Tiveram que esperar duas horas at o trem de conexo entrar na Provncia Central. Desembarcariam, ento, a sete quilmetros e meio da fazenda.
      Sabendo que isso iria interess-la, lorde Hawkston alugou uma carruagem que atravessou a cidade e seguiu pela beira do lago.
      Em toda a parte havia jasmins, orqudeas, magnlias, alm de plantas exticas e perfumadas.
      - O senhor sabia que Krishna, o deus hindu do amor, coloca flores champee na ponta de suas flechas? - perguntou Dominica.
      - Isto as torna mais eficazes? - perguntou ele, com um sorriso.
      - Os brmanes acham que sim. - Depois, ousadamente, perguntou: - J esteve apaixonado, milorde?
      - No o suficiente para querer sacrificar minha liberdade.
      - Isto quer dizer que a resposta  "no". Tenho certeza de que, quando uma pessoa est realmente apaixonada, no h sacrifcio que no faa, nada a que no 
esteja disposta a renunciar.
      - Parece que andou lendo histrias muito romnticas - observou ele, em tom de censura.
      - Papai no permite que l em casa entrem romances. Mas sei que o amor, o verdadeiro amor,  irresistvel.
      Enquanto falava, percebeu que estava sendo indiscreta, j que ele a convencera a casar com o sobrinho sem amor e nem mesmo afeio. Mas toda aquela beleza 
 sua volta fazia com que pensasse imediatamente no amor.
      Como se quisesse mudar de assunto, lorde Hawkston contou a Dominica como os kandyanos tinham sido corajosos, sendo os ltimos habitantes do Ceilo a se renderem 
aos conquistadores britnicos. Falou da mais espetacular representao, Esala Perahera, que se realizava em Kandy havia dois mil anos.
      - Voc vai gostar. Os elefantes ricamente ajaezados, os tocadores de tambor e os danarinos, os chefes com seus trajes cheios de pedrarias, tudo isto faz com 
que seja o espetculo mais impressionante que j vi.
      - s vezes, fico pensando como, ou por que, o Ceilo possua o dente de Buda - observou Dominica, olhando as mulheres de saris coloridos subindo nos degraus 
do templo. Carregavam flores de champee para deposit-las no santurio.
      - Diz a lenda que a famosa relquia chegou aqui escondida nos cabelos de uma prisioneira que fugiu da ndia durante a guerra - explicou lorde Hawkston. Fez 
uma pausa e acrescentou, com um sorriso: - Com certeza, os cabelos dela eram bonitos e compridos como os seus, Dominica.
      A jovem corou.
      - Como sabe que meus cabelos so... assim?
      - Adivinhei que voc tem dificuldade em pente-los.
      Dominica pareceu preocupada.
      - Talvez eu pudesse fazer um penteado mais moderno, se os cortasse um pouco.
      - No vai fazer nada disso - disse ele, com firmeza. - A mulher deve ter cabelos compridos. Fazem parte de sua feminilidade e os seus so a coroao de sua 
beleza.
      Dominica corou de novo, mas, ao mesmo tempo, teve um estremecimento de prazer. Aquilo era um elogio!
      Tinha tantas coisas para perguntar a ele, tanta coisa que queria aprender, que achou que o tempo passara depressa demais, quando chegou a hora de voltar para 
a estao e tomar o trem para prosseguir viagem.
      Depois que o trem partiu, ele disse:
      - Isto agora  muito diferente dos tempos em que comprei minha fazenda, quando tinha que ir para Kandy a cavalo. Havia apenas uma estradinha, por onde transportvamos 
o caf, em carros de boi. - Sorriu e acrescentou: - Agora, mal posso imaginar os dias em que o governador North visitava a ilha com cento e sessenta palanquis, quatrocentos 
cules, dois elefantes e no sei mais o qu!
      - Deve ter sido muito difcil acomodar tanta gente - observou Dominica.
      Procurou falar com naturalidade, mas,  medida que o trem avanava, ficava mais nervosa e amedrontada. Sabia perfeitamente que lorde Hawkston esperava que 
se mostrasse calma e sensata. Por esta razo a havia escolhido para esposa do sobrinho. Se ela se mostrasse histrica, ele a desprezaria.
      Assim sendo, procuro me controlar, percebendo que ele procurava deix-la  vontade e fazer com que tudo parecesse natural.
      - Em minha carta a Gerald, disse que no viesse nos esperar em Kandy. Achei que seria difcil para vocs conversarem pela primeira vez num trem barulhento. 
Conhecer meu sobrinho na casa que eu mesmo constru e da qual me orgulho.
      - Deu muito trabalho?
      - Foi um trabalho que me causou grande prazer. A princpio, a casa era muito menor do que agora, e seus planos foram prejudicados, quando houve a crise do 
caf. Depois, quando o ch comeou a dar lucro, recomecei a construo. A casa e o jardim s ficaram prontos um ano antes de eu partir para a Inglaterra.
      Qualquer coisa na voz dele fez com que Dominica soubesse que era esse um dos motivos que tinham feito com que detestasse sair do Ceilo.
      - Talvez, como mulher, voc veja que muitas coisas me escaparam ,- disse ele, com um sorriso. - Mas, para mim, minha casa  perfeita. Quanto  localizao, 
no h mais nada no Ceilo que se compare!
      - Tenho certeza de que vou admir-la muito.
      Ao dizer isto, desejou tambm poder admirar o atual ocupante da casa.
      E se Gerald estivesse desolado por perder a noiva e no suportasse a idia de outra mulher tomar seu lugar?
      Preciso ser muito boa e compreensiva, pensou ela.
      Estava habituada a ser suave e compassiva. Depois da morte da esposa, o vigrio muitas vezes fazia questo de que Dominica o acompanhasse, quando ia visitar 
as famlias dos nativos, que ele considerava responsabilidade sua.
      Como se lesse os pensamentos dela, lorde Hawkston disse, inesperadamente:
      - O que fazia, quando acompanhava seu pai nas visitas s famlias dos nativos?
      - Papai estava sempre procurando converter os cingaleses ao cristianismo. Mame costumava dizer que ele devia ter sido missionrio. H vrias famlias que 
foram batizadas por ele, e meu pai nunca deixa que se esqueam de suas promessas. - Sorriu e continuou: - As vezes, quase os obriga a se tornarem cristos, quer 
queiram, quer no. A verdade  que  muito severo, caso no vo  igreja no domingo sem uma razo vlida.
      Lorde Hawkston tinha certeza de que os cingaleses, que eram despreocupados e de bom gnio, se deixavam levar facilmente pelo vigrio.
      - Voc no me contou o que fazia.
      - Eu tomava conta das crianas enquanto papai repreendia os pais, ou procurava confortar os velhos e os doentes. Acho que muitos ficavam contentes s de me 
ver, para terem com quem conversar.
      - Acredito - disse ele.
      Dominica olhou pela janela do trem. Caminhando ao longo da estrada que beirava a linha frrea, viu um sacerdote budista com trajes cor de aafro que indicavam 
quem era.
      - Nunca compreendi por que um budista havia de querer se converter ao cristianismo. O budismo  uma religio to feliz - disse, como falando consigo mesma.
      - Voc leu sobre isso?
      - Li. E conversei com muitos budistas. No que papai aprovasse, mas eu me interessava muito pela crena deles. Para dizer a verdade, muitas vezes desejei ser 
budista.
      - Talvez voc tenha sido, em outra encarnao. Dominica sorriu.
      - O senhor, assim como eles, acredita na reencarnao?
      - Digamos que a considero uma possibilidade.
      Os olhos de Dominica tiveram um brilho de interesse.
      - Parece a nica explicao justa... a explicao certa para todas as misrias do mundo - disse ela. - Os padres so to dedicados, mas, ao mesmo tempo, calmos 
e discretos. Nunca procuram impor suas convices.
      Lorde Hawkston achou que os estava comparando com o pai. Nos ltimos dias, comeou a compreender que Dominica era muito inteligente e bem mais ponderada do 
que se esperaria de uma moa da sua idade. De certo modo, achava que isto era devido  sua educao incomum e que, apesar do pouco conhecimento da vida social, ela 
possua uma mente que no podia ficar restrita e que atingiria grandes alturas.
      - Vou contar uma coisa que vai lhe causar prazer - disse ele, de repente.
      - O que ?
      - Escrevi para a livraria de Kandy, para mandarem para a fazenda os ltimos livros publicados.
      Pelo brilho do olhar dela, viu o quanto ficou satisfeita.
      - Quando Gerald estiver no campo, voc vai ter muito tempo para ler. Mas preciso lhe dizer uma coisa.
      - Sim? - perguntou, nervosa.
      - No deve fazer trabalhos domsticos.
      - Por que no?
      - Porque ter muitos empregados e, se fizer o trabalho deles, pode parecer um insulto e um sinal de que no os acha competentes.
      - E se fizerem coisas mal feitas?
      - Ento, pode explicar como devem ser feitas. Mas nada de esfregar o cho, lavar roupa ou tirar o p!
      - E quanto a cozinhar?
      - Meu cozinheiro  muito eficiente. Se por acaso ele tiver sado, o que acho altamente improvvel, ento, naturalmente, pode ensinar ao que o substituir. Mas 
voc no deve, de modo algum, cozinhar.
      Ela suspirou.
      - Vejo que o senhor est me transformando em uma grande dama. No  de admirar que tenha encomendado tantos livros para eu ler. O que posso fazer?
      - Pode, por exemplo, andar a cavalo. Tenho a impresso de que ficar bem, a cavalo.
      - Costumvamos andar num pnei, quando ramos crianas. Mas, depois que ele morreu, no pudemos comprar outro.
      - Vou ensin-la a andar a cavalo. - Depois, como se de repente a idia lhe ocorresse, acrescentou: - A no ser que Gerald queira fazer isto.
      Mais ou menos s trs e meia da tarde, o trem entrou na estao onde deviam desembarcar.
      Antes de chegar a Kandy, tinham comido um lanche delicioso, de uma cesta que lorde Hawkston havia trazido da casa do governador. Pratos deliciosos, que Dominica 
nunca tinha provado, e tambm um vinho maravilhoso.
      Agora, ao descer na estao, ela sentiu um pouco de enjo e ficou imaginando se seria por ter comido muito ou se era por medo.
      Uma carruagem os esperava. Lorde Hawkston dava ordens ao carregador, quando um homem se aproximou dele.
      - Ranjan! Que amabilidade vir nos. esperar! Apertou a mo do homem e virou-se para Dominica.
      - Este  Ranjan, meu capataz, que ficou encarregado da plantao, quando fui para a Inglaterra.  um prazer rev-lo.
      - O mesmo digo eu. Esperamos que tenha vindo para ficar.
      - Est tudo em ordem?
      - No, durai. Muita encrenca.
      - Ouvi dizer que houve alguns problemas, mas prometo-lhe que vou endireitar tudo.
      - O que aconteceu no pode ser endireitado - disse Ranjan, em voz baixa.
      Dominica afastou-se, por delicadeza, mas ainda podia ouvir o que os dois homens diziam.
      - Que aconteceu? - perguntou lorde Hawkston, secamente.
      - Seetha, a moa que sinna durai mandou embora, morreu. Encontramos o corpo no rio, hoje de manh.
      Dominica percebeu que lorde Hawkston se contraa. Ele ficou imvel, olhando para o capataz de sarongue colorido.
      - Ento, ela se matou?
      - Sim, durai. O pai dela, Lakshman, jurou vingana!
      - Voc precisa encontr-lo, Ranjan. V procur-lo imediatamente. Diga-lhe que lhe darei ampla compensao pelo que sofreu.
      - Vou tentar, durai. Mas ele est louco.  tarde demais para se resolver o assunto com dinheiro.
      - Precisa tentar, Ranjan. Diga que acabei de chegar. Diga que estou muito perturbado com o que aconteceu e pea-lhe que venha me ver imediatamente.
      - Vou fazer isto, durai - prometeu o homem. Mas Dominica achou que ele no estava muito confiante.
      - Mais tarde nos veremos - disse lorde Hawkston. Em outro tom de voz, dirigiu-se a Dominica:
      - Venha. Voc no deve ficar ao sol sem sua sombrinha.
      - No, claro que no. Obediente, ela abriu a sombrinha.
      Parte da bagagem foi empilhada na carruagem que os levaria para a fazenda. O resto iria com Ranjan, num carreta esquisita, feita de palha, e que Dominica calculou 
que servia para transportar verduras ou bambu, na fazenda.
      A carruagem partiu velozmente, mas logo o terreno comeou a subir e os cavalos diminuram o passo.
      Lorde Hawkston estava em silncio e, dali a alguns momentos, Dominica perguntou, nervosa:
      - Quem ... Seetha?
      - Voc ouviu o que o capataz me disse?
      - No pude deixar de ouvir.
      - Ele devia ter sido mais discreto.
      - O senhor disse que a moa... se matou. Por qu?
      Sabia que a pergunta no seria bem recebida, mas o instinto lhe dizia que o assunto era importante para ela. Aps uma pausa, lorde Hawkston respondeu:
      - Voc mora no Ceilo h muito tempo, Dominica, e deve ter percebido que, em geral, um fazendeiro leva uma vida solitria, isolada, nos morros. Fica l sozinho, 
com seus cules. Por isso, eu estava aflito para encontrar uma esposa adequada para meu sobrinho.
      - Seetha  cingalesa - disse Dominica.
      - Pelo nome,  bvio - respondeu ele, bruscamente. - Ela devia estar fora de si, para se atirar na correnteza.  uma queda de centenas de metros. Se caiu nas 
rochas, deve ter ficado inconsciente e se afogado.
      - Por que ela se matou?
      Lorde Hawkston no respondeu. Dali a pouco, ela perguntou, baixinho:
      - Foi porque o sr. Warren... a mandou embora? Foi a ele que o capataz se referiu, quando disse sinna durai, no foi?
      Lorde Hawkston pensou em mentir, mas achou que seria um insulto  inteligncia de Dominica. Uma pena, Ranjan ter contado a morte de Seetha na frente dela, 
mas no podia saber que o patro estava trazendo uma noiva para o sinna durai. Ranjan estava to aborrecido e to perturbado, que nem pensara em ser discreto na 
frente de uma pessoa estranha.
      Escolhendo cuidadosamente as palavras, lorde Hawkston disse:
      - Sempre h mulheres dispostas a fazer companhia a fazendeiros jovens e solitrios.
      Notou que Dominica se contraiu. Teve a impresso de que ela esperava por aquilo, mas que, dito assim, lhe causara um choque.
      - Quer dizer que o sr. Warren e Seetha... se amavam? - perguntou, hesitante.
      - No quero dizer nada disso. No  uma questo de amor, Dominica.  que o homem tem necessidade fsica da mulher e, quando uma mulher est disposta a satisfaz-lo, 
isto pode se tornar um arranjo amigvel, comercial, por assim dizer.
      Dominica ficou em silncio durante alguns minutos. Finalmente, disse:
      - Creio que  uma das tentaes contra as quais papai pregava com tanto ardor. Em Colombo, ele tentou fechar as casas onde os plantadores encontravam as cingalesas, 
porque achava que essas associaes eram... pecaminosas.
      - Seu pai tem um ponto de vista drstico a respeito, o que  compreensvel. Mas, afinal de contas, at sua me morrer, ele era um homem casado; portanto, no 
estava exposto  solido, nem s tentaes que, digo-lhe francamente, so reconhecidas nesta parte do mundo.
      - A moa que se matou... Por que seu sobrinho a mandou embora?
      - Quero que saiba que isso nada tem a ver com sua vinda para c, nem com a carta que, mandei a meu sobrinho, participando nossa chegada. Para dizer a verdade, 
aconteceu antes mesmo de eu chegar a Colombo.
      Achou que talvez suas explicaes melhorassem as coisas. Mas viu que Dominica estava muito plida e que havia em seu olhar uma expresso que ele no compreendia.
      Era natural que ficasse chocada, mas esperava que, se compreendesse que a situao nada tinha a ver com ela, pessoalmente, no ficasse perturbada demais.
      - Quero que me prometa uma coisa, Dominica.
      - O qu? - perguntou, baixinho.
      - Voc e eu ficamos amigos nos ltimos dias e gosto de pensar que confia em meu critrio. Quer confiar em mim um pouco mais, quando eu lhe pedir que esquea 
o que ouviu e afaste o incidente de seu pensamento? Deixe que eu resolva as coisas da melhor maneira possvel.
      - Sim... senhor.
      - Precisa lembrar que s ouvimos um lado da histria. Quando cheguei a Colombo, ouvi dizer que tinha havido uma complicao com essa mulher, mas ainda no 
ouvi o que Gerald tem a dizer. Sei que voc concorda em que devemos ser justos e ouvir a explicao dele, antes de o censurarmos pelo que pode ter sido apenas um 
infeliz acidente.
      Dominica no tinha o que responder. Lorde Hawkston continuou:
      - Como bem pode imaginar, os cules de uma fazenda, que no tm muito em que pensar, exageram as coisas dramaticamente. Fazem um drama de tudo! Acredito que, 
quando chegarmos ao fundo da questo, veremos que  muito diferente do que parece.  Ao dizer isto, desejou sentir o otimismo que procurava demonstrar. James Taylor 
lhe havia dito que Gerald tinha feito uma confuso na fazenda, mas isto agora era muito pior.
      Rapaz idiota!, disse, intimamente.
      Sabia muito bem que a notcia logo correria por todas as plantaes.
      Pior ainda, ia deixar os trabalhadores inquietos e prejudicar a fazenda. Isto nunca poderia perdoar.
      Tinha fama de ser um patro exigente, mas absolutamente justo. Alm do mais, pagava generosamente seus empregados. Apesar de exigir muito dos cules, estes 
o respeitavam e sempre tinham sido leais. No se lembrava de jamais ter visto um homem ir embora por achar que encontraria emprego melhor. Ou que se queixasse do 
tratamento recebido.
      Que teria feito Gerald durante os ltimos dois anos? E como pudera destruir a confiana e a boa vontade de um homem como Ranjan?
      A nica coisa boa, pensou lorde Hawkston, era que nem Seetha nem o pai eram empregados da fazenda. Isto teria sido o pior dos erros. Lorde Hawkston ficou grato 
por Gerald no ter feito a asneira de se envolver com uma de suas empregadas.
      Se Lakshman, o pai de Seetha, no viesse procur-lo, ele iria aonde o nativo estivesse. Tinha a impresso de que vivia em uma aldeia nos morros, no muito 
longe da fazenda.
       uma questo de dinheiro, disse a si mesmo, esperando no estar enganado.
      Os cingaleses eram tranqilos, suaves, mas lorde Hawkston tinha medo de que o pai da moa, devido  tristeza e  clera, tivesse enlouquecido. Isso j havia 
acontecido, e as conseqncias tinham sido muito desagradveis.
      Nesse meio tempo, tinha dois problemas: encontrar Lakshman e acalmar Dominica.
      Lorde Hawkston no era um homem insensvel. Compreendia que, para qualquer moa e principalmente para uma com o carter e  personalidade de Dominica, seria 
um choque saber que o homem com quem ia casar, no s tinha tido uma amante, como a levara ao suicdio.
      Tarde demais, percebeu que, assim que Ranjan comeara a falar de problemas, ele devia ter visto que se tratava de Gerald e chamado o capataz para um lado, 
longe da moa. Mas a verdade  que pensara que o homem se referia a algo relativo  colheita. Era a coisa mais presente em seu esprito, por causa do desastre do 
caf!
      Ainda agora, s vezes acordava de noite, transpirando, horrorizado, lembrando-se de como estendera a mo para pegar as folhas, esfregando as partes afetadas, 
tentando se convencer de que no era o fungo que tanto temia, mas sabendo, o tempo todo, que no havia esperana.
      Foi com um tremendo esforo que conseguiu falar despreocupada-mente e, assim esperava ele, normalmente.
      - Depois da prxima curva, voc j vai poder ver minha casa. A carruagem tinha subido o tempo todo. O ar, embora ainda quente. Tinha um frescor que Dominica 
no sabia que existia em Kandy. Quando iam fazer a curva, lorde Hawkston disse:
      - Feche os olhos!
      Dominica obedeceu; depois, ouviu-o dizer ao cocheiro que parasse.
      - Agora, olhe!
      L embaixo havia um vale profundo cercado por morros e, atrs deles, uma cordilheira de picos verdejantes. Bem  frente da carruagem via-se uma cascata que 
caa no lago.
      Ofuscada pelo sol, Dominica viu a casa grande, branca, baixa, com terraos largos nos dois andares. Os jardins eram um mosaico de cores flamejantes: amarelo, 
dourado, branco-rosado, vermelho e at mesmo azul, que ela sabia serem flores do nelu.
      Subindo do vale, at os jardins, viam-se os ps de ch, de um tom verde-escuro.
      Dominica ficou de respirao suspensa.
      - Agora sei por que Ado e Eva vieram para o Ceilo!
      - Acha que aqui  um outro den?
      - O primeiro no poderia ter sido mais belo!
      Notou que ele ficou satisfeito; no com essas palavras, mas com a sinceridade com que foram ditas.
      - Foi o que pensei, quando vi o vale pela primeira vez - confessou lord Hawkston.
      A vista era to linda e to inesperada, que Dominica continuou olhando-a, enfeitiada.
      - Gosta da casa que constru?
      -  linda! Linda!
      - Acha, mesmo?
      - Parece que faz parte de um conto de fadas. E garanto que o lago  encantado.
      - Voc precisa aprender a nadar.
      - Foi o que sempre desejei, mas papai no nos deixava tomar banho de mar. Dizia que  indecente.
      - Aqui ningum a ver. Principalmente se voc entrar na gua quando todo mundo estiver trabalhando.
      -  o que farei.
      Viu a moa olhar para a correnteza e soube que pensava em Seetha, que se suicidara ali. Apertou os lbios. Dissesse o que dissesse para acalmar Dominica, a 
tragdia da nativa sombreara sua chegada  fazenda.
      Fez um sinal ao cocheiro, e a carruagem seguiu pela estrada ao longo do morro, em direo  casa.
      Ele mesmo construra a estrada e orgulhava-se dela.
       medida que se aproximavam, notou que Dominica se comprimia contra o encosto do banco, como se sentisse uma sbita fraqueza.
      Ele sorriu.
      - No fique nervosa. H muitas coisas interessantes que quero lhe mostrar e que tenho certeza de que vai gostar.
      Dominica virou-se para ele, com um olhar ansioso.
      - Est tudo bem - disse lorde Hawkston. - Apenas, confie em mim.
      - Vou... tentar - murmurou a jovem.
      S depois que Dominica foi dormir  que lorde Hawkston pde conversar com o sobrinho.
      Gerald Warren recebera-os no hall. Adiantara-se com um sorriso que o tio achara forado, e lorde Hawkston levara seu segundo choque, naquele dia. Em dois anos, 
Gerald tinha mudado, a ponto de estar irreconhecvel.
      Havia engordado pelo menos uns vinte quilos, o rosto estava vermelho e balofo, e, mesmo antes de sentir seu hlito, lorde Hawkston soube qual a causa dessa 
transformao.
      Quando o vira pela ltima vez, Gerald era um rapaz esbelto, elegante, com um charme que fazia com que as mulheres se apaixonassem por ele facilmente, como 
tinha acontecido com Emily Ludgrove.
      A vida no Ceilo destrura sua elegncia, transformando-o a ponto de o tio mal acreditar que fosse o mesmo homem.
      Obviamente, estivera bebendo, antes da chegada dos dois, embora lorde Hawkston notasse que estava vestido formalmente, o mais apre-sentvel possvel.
      Via-se claramente que se sentia nervoso por encontrar tanto o tio quanto Dominica. Mas,  medida que a noite foi passando e ele consumiu uma grande quantidade 
de usque, ficou mais relaxado. Dava umas risadas roucas, entremeadas de longas queixas sobre as dificuldades da cultura do ch e o tdio por estar to longe da 
civilizao.
      Lorde Hawkston achou que Gerald ia procurar se esforar, mas se aquilo era o melhor que podia fazer, francamente, no era grande coisa.
      Esperava, entretanto, que, como no o tinha conhecido antes, Dominica no ficasse surpresa com sua aparncia. E que, sendo Gerald jovem, ela o achasse, pelo 
menos, uma companhia agradvel.
      Quanto a ele, ficava cada vez mais furioso por ver como aquele rapaz fracassara num cargo de confiana, no apreciando, a oportunidade que lhe davam.
      A culpa foi minha, pensou lorde Hawkston. Nunca devia t-lo mandado para c.
      Durante o jantar, conseguiu manter a conversa pelo menos passa-velmente interessante, esperando que Dominica no percebesse a quantidade de usque que Gerald 
consumia. Achou que ela estava cansada, e isso foi confirmado, quando a moa se levantou, assim que acabaram de tomar caf na sala de portas-janelas altas e largas 
que davam para o vale.
      - Se me der licena, milorde. vou me deitar. Foi um dia longo.
      - Foi mesmo. Boa noite, Dominica, espero que durma bem.
      - Tenho certeza que sim. Boa noite, milorde. Boa noite, sr. Warren.
      Fez uma reverncia para os dois homens e saiu da sala.
       Ao chegar, lorde Hawkston ficou aborrecido por ver que Gerald havia fechado a parte de cima, onde o dono sempre tinha dormido, sendo agora, os quartos no 
andar trreo.
      - Por que voc fez isso? - perguntou.
      - No posso me dar ao luxo de ter muitos criados. No havia razo para eles ficarem sentados, sem ter o que fazer. Como Dominica estava presente, lorde Hawkston 
conteve a resposta que queria dar. Tinha certeza de que, com o ordenado que pagava Gerald, este podia ter os criados que quisesse. Pelo que James Taylor lhe havia 
dito, calculou que todo o dinheiro do rapaz era gasto em farras e usque. Mas teve o cuidado de no mostrar sua raiva, esperou Dominica se retirar e ficar a ss 
com o sobrinho. A, ento, falou em voz calma, controlada, mas que feria como chicotadas.
      ? Ouvi falar da morte de Seetha. Como pde ser to tolo, to idiota, a ponto de despedir a moa sem lhe pagar o que  de costume? Qualquer um, aqui, poderia 
lhe dizer a quanto a moa tinha direito.
      - Eu sabia muito bem quanto ela esperava - respondeu Gerald, emburrado. - Mas no tinha esse dinheiro. Compreende? No tinha o dinheiro!
      - Voc podia ao menos prometer pagar depois que eu chegasse. Ou fazer um emprstimo no banco.
      - J fiz um.
      - De quanto?
      - De mil dlares. E eles no quiseram fazer outro.
      - Gastou mil dlares, alm do que lhe mandei? - perguntou lorde Hawkston, atnito.
      - H outras dvidas - disse Gerald, em tom de desafio. O tio caminhou pela sala, procurando se controlar.
      - Vejo agora que  tolo demais ou preguioso demais para dar conta deste servio. Mas acreditei em voc e julguei que tivesse as qualidades necessrias para 
continuar meu trabalho aqui. Enganei-me.
      - Gostaria de voltar para a Inglaterra.
      - E, quando chegar l. o que pretende fazer? Viver s custas de sua me? Ela tem muito pouco dinheiro, como bem sabe, e voc j esbanjou grande parte dele.
      - Pelo menos, estarei no meio de gente civilizada.
      - Escute aqui, Gerald, no vou permitir que se comporte como uma criana mimada e corra para sua me, s porque estragou tudo aqui. - Em tom mais spero, continuou: 
- Foi pena Emily ter mudado de idia sobre o casamento, mas acho que, se voc tivesse ido esper-la em Colombo, ela ficaria to chocada com sua aparncia, que desmancharia 
o noivado imediatamente.
      - Nunca pensei realmente que Emily casasse comigo. No, se soubesse que teria que morar neste fim do mundo.
      - Pois bem,  aqui que vai morar. Eu lhe trouxe uma esposa que vai tomar conta de voc e, assim o espero, o manter na linha. Vou fazer com que a fazenda volte 
a funcionar e, depois, quando eu voltar para a Inglaterra, voc assumir o cargo, at eu encontrar algum para substitu-lo. Estou sendo claro?
      - Qual a alternativa?
      - A alternativa  voc trabalhar a bordo para ganhar sua passagem! Nunca mais ver um nquel do meu dinheiro, e, quando eu voltar para a Inglaterra, tomarei 
providncias para que no veja tambm o dinheiro de sua me!
      Houve um momento de silncio. Depois, Gerald jogou a cabea para trs e riu. Foi uma risada feia, sarcstica.
      - Organizou tudo direitinho, no , tio Chilton? Estou amarrado e nada posso fazer a respeito. Pois bem, vou casar com a mulher que escolheu para mim.  muito 
bonitinha e talvez consiga fazer com que este lugar no parea um mausolu. Suponho que nos dar o suficiente para vivermos.
      - Vou pagar suas dvidas e lhe darei uma mesada que, no Ceilo, far com que parea relativamente rico. Contanto que pare de beber.
      - Completamente?
      - Voc vai assinar um compromisso!
      - Ora, tio Chilton... - comeou Gerald, em tom conciliador.
      - So essas as minhas condies.  pegar ou largar. Houve uma pausa.
      - Muito bem, com mil diabos! Aceito. - Olhou para o tio com animosidade e pegou a garrafa de usque. - Se vou assinar o compromisso amanh,  melhor me divertir 
hoje  noite. Obrigado, tio Chilton, por sua generosidade. Suponho que espere que eu fique profunda e humildemente grato. - Seu tom era sarcstico.
      E sua sada teria sido mais digna, se no tivesse cambaleado, esbarrando na porta, ao deixar a sala.
       


CAPTULO V
      
      
      
      Dominica ficou acordada, pensando no que tinha acontecido durante o dia.
      Quando foi para a cama, estava cansada, mas no pde dormir.
      Evitou pensar em Gerald e, embora no fundo do corao soubesse que no podia casar com ele, no ousava dizer isto claramente a si mesma.
      A dificuldade estava em explicar a situao a lorde Hawkston.
      Tinha acreditado que o sobrinho seria parecido com o tio e inmeras vezes pensara na descrio que lorde Hawkston fizera de Gerald: "alto e simptico". Quando 
viu o homem gordo, de rosto vermelho, que os esperava no hall, no compreendeu logo que era o noivo a quem prometera a mo, mesmo sem conhec-lo.
      Era bastante esperta para perceber o quanto Gerald bebia. Disse a si mesma que as crticas que o pai fazia a qualquer tipo de bebida eram uma obsesso e que 
cavalheiros como lorde Hawkston tomavam vinho s refeies com a maior naturalidade. Mas Gerald cheirava a lcool. Quando viu seu copo sendo constantemente enchido 
de usque pelos criados, Dominica soube que ele estava bebendo demais, e isso devia ser a causa de sua aparncia.
      Alm disso, o horror da morte de Seetha a dominava, a ponto de ser difcil pensar em outra coisa. Dominica gostava das cingalesas por sua suavidade, doura 
e pela confiana quase infantil que depositavam nas pessoas a quem serviam. Tinha amigas entre essas mulheres que freqentavam a igreja do pai, sendo que muitas 
a procuravam com seus problemas. Podia compreender que Seetha tivesse ficado impressionada por Gerald devido  sua posio,  casa onde morava, que, para a nativa, 
devia ter parecido um sonho maravilhoso. Talvez a moa o tivesse amado, apesar do que lorde Hawkston dissera.
      Conhecendo bem as criaturas, Dominica sabia que um campons cingals que morava nos lugares montanhosos era um homem com uma filosofia de vida que no trocava 
por uma prosperidade material. Quando a fome o obrigava a trabalhar, ele o fazia bem, porque era habilidoso e inteligente. Mas preferia ser pobre e dono de sua vida 
a ser rico e sujeito a outras pessoas.
      Dominica tinha conversado com as mulheres de outras provncias cujos maridos foram para Colombo e sabia que os cingaleses nunca tinham se conformado em ver 
seus belos morros entregues  necessidade de uma cultura estranha. Procuravam ficar afastados das plantaes de caf e de ch, e, a no ser quando estavam com fome, 
raramente trabalhavam no campo de um modo regular.
      Por este motivo, desde o princpio, os fazendeiros perceberam que era essencial contar com o trabalho dos nativos da tribo tmil, que vinham principalmente 
da costa Coramandel e do sul da ndia. Foram eles que limparam o terreno, preparando-o para o plantio de caf e depois, do ch.
      O emprego deles tornou a vida dos plantadores mais difcil, porque tiveram que aprender uma nova lngua para poder se comunicar com os trabalhadores, que no 
tinham tanta facilidade quanto os cingaleses para aprender ingls. Eram, em geral, pessoas felizes, descontradas, corteses, e Dominica ficou imaginando por que 
agonia Seetha no teria passado, para atentar contra a prpria vida. Estaria realmente- to infeliz por ser repudiada por Gerald Warren? Por que no procurara o 
conforto de sua gente? E por que o pai, se realmente gostava tanto dela, no tentara evitar o suicdio?
      Todas essas perguntas intrigavam Dominica, mas achava que nunca saberia as respostas, porque era um assunto que nem lorde Hawkston nem Gerald discutiriam com 
ela.
      Inquieta, levantou-se da cama, sabendo que j era madrugada, porque uma luz fraca se filtrava pelas cortinas. Abriu-as e ficou olhando a vista que a tinha 
encantado na vspera.
      Seu quarto ficava na extremidade da casa e tinha uma porta-janela larga que dava para o vale e outra para o jardim e o lago.
      A nvoa matutina ainda cobria o fundo do vale, mas j se via uma luz fraca atrs dos morros distantes. As estrelas comeavam a se apagar.
      Foi para a outra porta-janela e viu os primeiros raios de sol iluminarem a cascata que descia do morro para o lago. Podia ouvir o rugido da torrente caindo 
at o vale enevoado.
      Tudo era de grande beleza, acrescida pelo colorido das flores do jardim,  medida que o dia clareava, distinguiu mais nitidamente as rosas, os gernios, as 
campnulas, as magnlias e os oleandros. Havia tambm leves bambus, orqudeas e musgo, e inmeras outras flores que reconheceu como inglesas, como as dedaleiras, 
as loblias e vrias espcies de rosas.
      Percebeu que o jardim, que devia ter sido feito com grande cuidado por lorde Hawkston, estava abandonado, tornando-se desordenado. Vrios tipos de mato e pragas 
j se haviam insinuado, e as ervas daninhas ganhavam terreno, sufocando algumas plantas.
      Dominica refletiu que, se isso tivesse acontecido com ela, teria ficado muito triste, ao ver um jardim plantado com amor e carinho arruinado deste jeito por 
falta de cuidados.
      Na noite anterior, percebera que lorde Hawkston estava muito zangado e que s as boas maneiras e o autodomnio o impediram de explodir. J tinha sido ruim 
ela ficar constrangida na presena de Gerald, mas o que no devia o dono da casa ter sentido, ao ver tudo desorganizado, seus criados despedidos, seu jardim maltratado?
      Ele demonstrou muita coragem, pensou a moa. E ficou imaginando se, depois de ela ir para a cama, ele teria falado com o sobrinho com a raiva que estava sentindo.
      Ele ama esta casa e tudo o que h nela, disse a si mesma.
      Ento, como se seus pensamentos o atrassem, ela o viu. Lorde Hawkston saiu dos fundos da casa e seguiu, a cavalo, ao longo da margem do lago. Usava uma camisa 
branca aberta no peito, com as mangas enroladas at os cotovelos. Estava de cabea descoberta e em traje de montaria, parecia muito moo, esbelto e atltico muito 
diferente do sobrinho!
      Dominica soube que tambm ele no tinha podido dormir e que saa a cavalo, sozinho, para examinar a plantao ou procurar Lakshman.
      Ao pensar em Seetha e em sua tragdia, ela estremeceu.
      Era difcil imaginar o que a nativa sentira antes de se atirar na correnteza para morrer, batendo nas pedras que deviam estar cobertas pelo nevoeiro, como 
estavam agora.
      Achando tais pensamentos mrbidos, Dominica pegou o robe que madame Fernando inclura em seu enxoval, vestiu-o e amarrou a faixa na cintura. Era de musselina, 
enfeitado de rendas e de laos de fita azul-turquesa. To bonito e to feminino, com laos e franzidos na barra, que o achou elegante demais para ser usado no quarto.
      Depois, olhou em volta e percebeu que estava em perfeita harmonia com o ambiente.
      Na vspera, intimidada pela presena de Gerald, ela no pudera examinar bem a casa, mas notou que tudo era de muito bom gosto, o que no se esperaria de um 
homem, em matria de decorao. Lembrou agora, confusamente, peas de moblia feitas de bano, uma das madeiras mais apreciadas pelos marceneiros cingaleses, alm 
de outras madeiras das rvores encontradas na ilha.
      No quarto de Dominica havia uma arca de calamanda, mais forte e melhor do que o paurosa, e outra de nedun, muito apreciado pelos artesos locais.
      O quarto era bonito. Quando chegou, ela soube que todos tinham nomes de flores.
      - Onde  que Dominica vai dormir? - perguntou lorde Hawkston, ao sobrinho.
      - Eu disse aos criados que lhe desse o quarto dos ltus brancos. E o senhor est no quarto pegado, o quarto dos ltus vermelhos.
      Falou com expresso de desprezo, como se achasse os nomes ridculos. Mas Dominica compreendia.
      O ltus-gigante, vermelho ou branco, era uma flor magnfica, reverenciada pelo povo do Oriente. Um botnico tinha dito a Dominica que os hindus acreditavam 
que o ltus existia antes da Criao e que dele emanavam todas as perfeies. Mostrou-lhe o ltus-gigante, o vermelho era como uma rosa rubra repousando numa plataforma 
de folhas verdes.
      - Vi muitos lagos nas plancies, onde nenhum homem jamais esteve - disse o botnico. - Esto cobertos de ltus vermelhos e brancos. So as flores de Buda, 
nas quais muitas de suas esttuas repousam.
      Dominica tinha agora certeza de que lorde Hawkston sabia disso, quando desenhara o quarto onde ela dormia.
      O tapete era de um verde profundo e a cabeceira da cama, entalhada com ptalas de ltus pintadas de branco, com leves toques de cor-de-rosa. As paredes brancas 
tambm tinham um suave tom rosado quando se encontravam com o teto. As cortinas tecidas  mo reproduziam ltus.
      Tudo muito bonito, assim como o nico quadro na parede, representando Buda cercado por botes de ltus apenas entreabertos. Era pintado com arte e, ao v-lo, 
Dominica sentiu a mesma emoo que sentia ao ouvir msica.
      Aproximou-se de novo da janela, olhando para o jardim e imaginando se veria lorde Hawkston novamente. Mas l fora havia apenas o sol brilhando na cascata e 
tornando as flores ainda mais vividas.
      Parece que a gente as v desabrochando ao sol, pensou.
      Continuou olhando para as flores e depois para o vale, onde o nevoeiro se dissipava, at que percebeu que o tempo estava passando e que precisava se vestir.
      Havia um banheiro anexo ao quarto. Depois de se lavar, colocou um vestido bonito de musselina, um dos que madame Fernando tinha chamado de "vestidos simples".
      No eram simples aos olhos de Dominica, mas eram bonitos. Querendo se apresentar bem, fez um penteado novo, os cabelos caindo dos lados do rosto e depois puxados 
para trs, terminando numa trana grossa que prendeu no alto da cabea.
      Era uma maneira fcil de dispor de tanto cabelo. Ao mesmo tempo, a fazia parecer mais alta e a enfeitava.
      Tinha acabado de se vestir, quando bateram  porta. - Entre!
      Entrou uma criada, trazendo uma bandeja onde havia um bulezinho de ch, uma xcara e uma leiteira.
      - Bom dia, nona - disse a mulher, usando a palavra que Dominica sabia ser usada em lugar de senhora.
      - Bom dia.
      - Levantou-se cedo, nona. Trouxe-lhe ch, mas o desjejum est pronto no terrao.
      - Ento vou tom-lo l.
      A empregada levou-a para o terrao largo da sala de jantar, onde estava posta uma mesa coberta com uma toalha de linho branco. No havia sinal de Gerald ou 
do tio, e a jovem ficou imaginando se devia esperar por eles. Mas os criados tinham outras idias. Serviram o ch e trouxeram uma papaia.
      Dominica comeou a comer, percebendo que era o que esperavam dela, mas comeu devagar, achando que talvez lorde Hawkston aparecesse.
      Dali a pouco Gerald chegou, vindo do lado do lago. Tinha ido nadar e estava apenas de calo, nu at a cintura.
      Dominica corou.
      Nunca tinha visto um homem branco seminu e no pde deixar de achar que era muito pouco atraente.
      Os cabelos molhados caam-lhe na testa e o corpo gordo, peludo, com uma barriga pronunciada, estava queimado de sol em vrios lugares.
      Ele segurava uma toalha branca, grande, e Dominica ficou imaginando porque no se cobria com ela.
      - Bom dia - disse Gerald, em voz alta, aproximando-se. - Levantou-se cedo! Pensei que estivesse cansada.
      Dominica ergueu-se nervosa.
      - Estou habituada a levantar-me cedo.
      - Sente e continue a comer. Vou vestir um roupo e volto logo para lhe fazer companhia.
      Entrou em casa pela porta-janela e a moa sentou. No pde deixar de notar que os olhos dele estavam vermelhos e que o rosto parecia ainda mais inchado do 
que na vspera.
      Tomou uns goles de ch, mas no sentia mais fome.
      Gerald voltou, tendo vestido um roupo comprido de atoalhado, fechado no peito. Mas o pescoo aparecia e, embora ele tivesse penteado os cabelos, ainda tinha 
uma aparncia desagradvel.
      Dominica achou que seu pai ficaria escandalizado por ela tomar o desjejum em companhia de um homem usando apenas um roupo, mas no podia negar que cobria 
o corpo dele. Alm do mais, seria errado criticar uma pessoa que vivia naquele fim de mundo por mostrar-se natural e despreocupada.
      - Caf, sinna durai? - perguntou um dos criados, ao lado de Gerald.
      O rapaz hesitou.
      - Onde est o juggernaut?
       Dominica fitou-o, admirada.
      -  uma boa descrio de meu tio - explicou ele. - Mas, se voc prefere, onde est o chefo?
      - Vi-o sair a cavalo, h algum tempo - respondeu Dominica. Achou que era de muito mau gosto Gerald referir-se ao tio daquele modo, na frente dos criados.
      - Neste caso, quero um usque - disse ele ao criado. - E depressa!
      Dominica encarou-o, surpresa. Nunca havia imaginado que algum pudesse tomar usque no caf da manh.
      Percebendo o ar atnito da moa, Gerald disse:
      -  melhor eu aproveitar, enquanto posso. Sabe o que meu tio me props ontem  noite?
      - No tenho a... mnima idia - respondeu, baixinho.
      - Disse que tenho que assinar um compromisso! Pois bem, digo-lhe que se eu fizer isto, ser cruzando os dedos de modo que meu juramento, seja ele qual for, 
no ter valor!
      - Quer dizer que... vai mentir para ele?
      - No comece voc tambm! J estou farto de sermes.
      O usque foi colocado  sua frente e ele bebeu a metade da dose, de uma s vez.
      - Assim  melhor! - disse, com um suspiro. - Agora, voc e eu podemos conversar.
      Dominica fitou-o, apreensiva. Achou que no era o momento apropriado para conversarem, na frente de dois criados. Mas Gerald agia como se eles no estivessem 
presentes, recusando a papaia com um gesto desdenhoso e olhando com apetite para o prato de ovos com toucinho que foi colocado  sua frente.
      - Se temos que viver neste buraco,  melhor que voc e eu procuremos gozar um pouco a vida - disse, dali a um momento. - Se meu tio po-duro nos der dinheiro 
suficiente, poderemos nos divertir em Kandy. No  to divertido como Colombo,  bom que saiba, mas no ano passado abriram l um clube razovel e h algumas pessoas 
agradveis.
      - Voc no vai ter que trabalhar... na fazenda? - perguntou Dominica, hesitante.
      - No, se puder evitar! - Deu uma risada rouca. - Claro que vou fingir que me interesso, at o chefo ir para a Inglaterra. Mas. depois de nosso casamento, 
no creio que ele demore muito aqui. Pelo menos, espero que no!
      Dominica apertou as mos no colo. No era apenas o que Gerald dizia que a desolava, mas tambm sua maneira de falar. Havia qualquer coisa de spero e de desprezvel 
em seu tom, algo que indicava que odiava o tio, assim como odiava aquela bela casa e o vale encantado.
      O que ele queria dizer com "gozar um pouco a vida"? No tinha certeza, mas soube, instintivamente, que era tudo que ela detestava.
      Achando que devia dizer alguma coisa, perguntou, baixinho:
      - H concertos em Kandy? Algum se interessa por msica?
      - Creio que no. A no ser que voc se refira  msica dos bailes. H um, todos os sbados  noite. Embora os rapazes se mostrem um tanto turbulentos, as moas 
se divertem a valer! H muitas oportunidades para abraos e beijos no jardim do clube, ao luar. Voc vai gostar.
      Dominica prendeu a respirao. No havia o que pudesse dizer, e teve a impresso de que sua mente estava vazia.
      Gerald tomou outro gole, esvaziando o copo. Estalou os dedos, e um criado serviu outra dose.
      Ele bebeu e olhou para Dominica.
      - Acho que preciso lhe ensinar muitas coisas. Mas voc vai aprender. As mulheres aprendem depressa. Tenho a impresso de que vamos nos divertir, voc e eu!
      Qualquer coisa na maneira de Gerald falar e em sua expresso fez com que Dominica sentisse como se uma cobra tivesse aparecido a seu lado. Era repulsa! Desejava 
fugir, mas no tinha coragem de se mover. Ento, ouviu passos, e lorde Hawkston apareceu.
      Aliviada, percebeu que Gerald acabou o usque de um s gole. entregando O copo ao criado, que o levou embora, disfaradamente.
      Dominica achou degradante que enganassem o dono da casa daquela maneira.
      Lorde Hawkston no demonstrou ter visto o ocorrido.
      Dominica percebeu que tinha trocado a camisa, depois do passeio a cavalo, e que estava de gravata. No usava palet, mas nos punhos havia abotoaduras de ouro.
      - Bom dia, Dominica - disse com uma voz grave, fazendo com que a sensao de pnico da jovem desaparecesse. - Bom dia, Gerald! Vejo que esteve nadando.
      - Claro!  bom para a silhueta!
      - Acho que um exerccio melhor seria andar a cavalo. Os animais tambm esto precisando se exercitar.
      Gerald no respondeu, ficando com ar emburrado. Um criado trouxe ch para o patro. Enquanto o tomava, ele disse a Dominica:
      - Sempre sinto um grande prazer, quando tomo meu prprio ch. sentado no meu terrao, olhando para o meu vale.
      - Compreendo isso - ela comentou, sorrindo. - E o fato de tomar o ch da sua fazenda  o mais importante de tudo, no?
      - , sem dvida, a pedra fundamental. Voc dormiu bem? Dominica no queria dizer a verdade, mas o hbito de uma existncia a impediu de mentir.
      - Eu tinha muito em que... pensar - disse, com ar de desculpa. - E, naturalmente, achei excitante estar aqui. - Julgou que isto era inadequado e continuou: 
- O jardim  lindo! Nunca vi flores to bonitas!
      - Era lindo - corrigiu lorde Hawkston. Olhou para Gerald. - Posso perguntar o que aconteceu com os jardineiros que treinei com tanto cuidado?
      - Eu no estava em condies de mant-los! Alm do mais, quem  que quer um jardim?
      - Eu quero!
      - Vejo que trouxe para c muitas flores de outros pases - disse Dominica, para aliviar o mal-estar. - Mas creio que, por ter vivido sempre no Ceilo, gosto 
mais de nossas flores.
      - As orqudeas e as magnlias - disse lorde Hawkston, sorrindo.
      - E, naturalmente, os ltus.
      - Eles crescem, ou cresciam, num tanque que mandei fazer no outro lado da casa. Vou mostrar o tanque a voc, mas ser uma pena se os ltus no estiverem mais 
l.
      -  verdade. E o meu quarto  lindo!
      - O quarto dos ltus brancos - disse o dono da casa, como que para si mesmo. - Tive sorte em encontrar bons entalhadores. Preciso lhe mostrar os quartos do 
andar de cima. O das palmeiras, onde copiaram as palmeiras arecas,  incomparvel, na minha opinio.
      - Gostaria de v-lo.
      - Acho que antes de mais nada, devemos visitar a fazenda - sugeriu lorde Hawkston, olhando para o sobrinho. - Quero que me mostre, Gerald, o trabalho que foi 
feito e as inovaes que introduziu nos ltimos dois anos.
      - Acho que vai encontrar tudo como deixou.
      - Espero que sim. Se voc for se vestir, mandarei que tragam os cavalos. Dominica pode ir conosco. Ela j montou, em criana, e no vai achar o cavalo que 
montei hoje nada fogoso.
      A moa olhou-o, com ar ansioso.
      - No quero atrapalhar.
      - No vai atrapalhar. V vestir seu traje de montaria. Madame Fernando lhe entregou um e agora chegou o momento de us-lo.
      Dominica dirigiu-lhe um sorriso e foi para o quarto.
      Quando ele falou sobre a visita  plantao, ela teve medo de ser deixada de lado, mas agora que tinha sido convidada, seu corao saltava de alegria, ao pensar 
que ia conhecer a fazenda que tanto significava para ele.
      Levou poucos minutos para tirar o vestido de musselina e envergar a roupa de montaria de algodo cor-de-rosa, enfeitada com trancas brancas. Havia um chapu 
de palha para combinar. Quando foi para o hall e encontrou o dono da casa, ficou contente por ele ter se aprontado antes de Gerald.
      - No vai ter medo? - perguntou lorde Hawkston. - Garanto-lhe que o cavalo que montar  muito manso.
      - Creio que no me esqueci de andar a cavalo, embora tenha montado pela ltima vez h cinco anos.
      - Acho que  uma coisa que a gente no esquece.
      Saram. Os animais j estavam  espera e lorde Hawkston ajudou a moa a montar.
      Quando colocou a mo na cintura dela, Dominica teve uma sensao que no soube explicar.
      Pegou as rdeas, e ele sorriu encorajador.
      - Vejo que no esqueceu.
      - Espero no envergonh-lo.
      - Voc nunca poderia fazer isso.
      Percebeu, talvez pela primeira vez, que os olhos dele eram de um azul profundo. Pareciam ainda mais azuis, porque estava queimado de sol.
      - Tem certeza de que a espora est de comprimento exato? Dominica demorou a entender o que ele queria dizer.
      - Sim, sim... Est bem.
      Lorde Hawkston montou outro cavalo.
      - Acho melhor irmos. Gerald nos alcana depois.
      - Creio que sim.
      Tomaram o caminho que serpenteava pela encosta, at o vale, l embaixo.
      Lorde Hawkston guiou o cavalo lentamente. Dominica comeou a adquirir confiana, mas um cavalo grande era muito diferente do pnei que tinha montado em criana.
      Lembrou quanto tinha desejado tomar parte na gincana que era um dos divertimentos anuais das crianas de Colombo, mas o pai nunca o permitira, apesar dos pedidos 
da me.
      - Vocs podem ir assistir, se no tiverem nada de melhor para fazer - disse ele, como uma concesso.
      Mas no permitia que elas competissem, embora Dominica soubesse que havia muitas provas que ela e F tinham chance de ganhar.
      Agora, ela ficou pensando se esses sacrifcios as haviam tornado pessoas melhores, ou at melhores crists.
      Por que a religio tinha que ser sempre to sombria, to austera?
      Por que a felicidade e o riso deviam ser condenados pelo Deus que seu pai adorava?
      Depois, esqueceu estas coisas, porque lorde Hawkston lhe dava explicaes sobre o ch.
      - O ch pode ser colhido o ano inteiro, seis dias na semana, com exceo de dois ou trs grandes festivais hindus.
      Antes de ver os cules que trabalhavam no meio dos ps de caf, Dominica ouviu suas vozes.
      - Os nativos da tribo Tmil so barulhentos e s vezes briguentos - disse ele. - Mas so bons trabalhadores.
      Quando se aproximaram, Dominica viu que os cules carregavam nas costas grandes cestas de vime presas por uma corda que passava na testa. As mulheres usavam 
roupas coloridas, enroladas nos seios,  moda grega. Na cabea, tinham uma espcie de turbante acolchoado, para proteg-las da corda que segurava a cesta.
      As vestes coloridas, de vrios tons de verde, vermelho e dourado, eram muito pitorescas.
      Dominica ficou fascinada com a velocidade e a habilidade com que as mulheres colhiam as folhas, juntando-as em montinhos, nas mos, e jogando-as na cesta, 
por cima do ombro, com gestos rpidos.
      - A fiscalizao do trabalho est a cargo dos homens - explicou lorde Hawkston. - So chamados kanganies ou feitores.
      Dominica teve que se conter para no rir dos feitores. A insgnia do posto era geralmente um palet do tipo europeu, um turbante e uma sombrinha (sendo esta 
um sinal de superioridade) presa na gola e caindo nas costas.
      - Quatro vezes ao dia, as folhas so pesadas cuidadosamente e a quota de cada trabalhador  anotada num livro chamado kannacka-piller - disse lorde Hawkston. 
Olhou para os trabalhadores com orgulho. - Nunca h roubo. Quando h uma dvida, a conta dos cules  aceita como certa, pois eles sabem exatamente quanto colheram.
      Todo mundo parecia feliz, e via-se claramente que muitos dos cules estavam contentes por rever o patro. Quando falavam com ele, demonstravam prazer, e Dominica 
percebeu que lhe devotavam grande amizade.
      Muito diferente do que aconteceu, quando Gerald chegou.
      Estava vermelho, gotas de suor escorrendo-lhe pelo rosto. Com uma atitude que Dominica achou que era um esforo para impressionar o tio, ele desmontou e se 
aproximou dos cules, pondo defeito em tudo e dirigindo-se a eles de um modo que fez com que ela agarrasse as rdeas com fora, furiosa.
      Ningum respondeu. Todos continuaram trabalhando, mas Dominica tinha certeza de que se ressentiam do jeito dominador de Gerald, da voz alta com que dava ordens, 
da atitude de arrogante superioridade.
      Os trs foram ver a pesagem do ch, num barraco que tinha sido construdo antes para o caf.  
      Para a moa, o tempo passou depressa demais, e logo estavam voltando para casa, por um caminho diferente.
      Gerald falava gaguejando, dando longas e confusas explicaes para o fato de a produo ter cado no ano anterior. Culpou os cules, os feitores, o tempo, at 
as prprias plantas, embora, na opinio de Dominica, fizesse isto para encobrir sua incompetncia.
      Lorde Hawkston falava pouco, mas ela sabia que estava decepcionado por ver que a plantao que tinha deixado em timas condies, melhorando cada vez mais, 
havia regredido, em vez de progredir, sendo de esperar que houvesse prejuzo, em vez de lucro.
      s vezes, quando o tio no respondia, Gerald ficava calado durante algum tempo, e Dominica gostava de poder seguir em silncio, apreciando a beleza  sua volta.
      Ficou fascinada por ver que, nas partes no cultivadas, a floresta era ainda mais bela do que imaginara. Havia uma imensa variedade de bambus; no vale, l 
embaixo, fetos gigantes, atingindo mais de seis metros de altura.
      Em toda parte via-se o azul vivo do nelu, como um lenol colorido, ao lado de magnlias, murtas e vrios tipos de camlias.
      Quando olhou para uma delas, encantada com a perfeio da flor, lorde Hawkston disse:
      - Voc sabe, naturalmente, que a planta do ch  prima da camlia?
      - No, no sabia. Mas, agora que diz, vejo que h uma certa semelhana.
      - Vou lhe mostrar uma coisa ainda mais bonita - disse lorde Hawkston.
      Andaram mais um pouco e ele apontou para a katuimbul ou al-godoeiro sedoso.
      Dominica tinha visto alguns, em jardins de Colombo, mas ali havia vrios, espalhados desordenadamente. No cho sob os arbustos, as ptalas cadas pareciam 
um tapete rubro. Era to bonito, que no tinha vontade de sair dali. Prometeu a si mesma que voltaria, antes que as flores acabassem.
      Quando chegaram em casa, lorde Hawkston ajudou-a a apear e disse:
      - Talvez ache que voltamos cedo, mas aqui os homens tomam o desjejum assim que amanhece, de modo que almoam ao meio-dia.
      - Seja que hora for, estou com fome!
      Era verdade, pois no comera quase nada, de manh, porque Gerald a perturbava. Agora disse a si mesma que estava sendo estpida e exigente. Ele era sobrinho 
de lorde Hawkston e ela devia tentar compreend-lo. Est constrangido, como eu, por causa dos arranjos que foram feitos para ns, pensou.
      Parecia uma explicao sensata, mas, no ntimo, achava repulsiva a idia de que aquele homem que bebia demais pudesse significar alguma coisa para ela, ou 
ela para ele.
      Depois do almoo, lorde Hawkston insistiu para que Dominica fosse descansar.
      -  um erro querer fazer demais no primeiro dia. A altitude, embora a gente s vezes no se lembre disso, afeta as pessoas que vm do nvel do mar. Alm do 
mais, Gerald e eu vamos sair a cavalo, para uma vistoria demorada, e seria muito cansativo para voc.
      Ficou desapontada, mas no pde deixar de achar que ele tinha razo. Na realidade, quando foi deitar, pretendia ler um dos muitos livros que encontrou  sua 
espera, mas logo pegou no sono.
      No tinha dormido na noite anterior e agora dormiu tranqilamente, s acordando s seis da tarde.
      - Devia ter-me acordado - disse  empregada, depois de tocar a campainha para saber a hora certa.
      - O durai disse para deixar a senhora dormir, nona. Quer tomar banho?
      - Sim, obrigada... Quando terminou o banho, eram quase sete horas. Pos um bonitos vestidos de noite que madame Fernando inclura em seu enxoval. Era amarelo-claro, 
de corpete justo, bem decotado na frente e atrs. As mangas eram franzidas, de tule amarelo, e havia tambm babados de tule na saia rodada. Parecia elegante demais 
e muito decotado para uma noite tranqila na montanha, mas Dominica desejou que lorde Hawkston a admirasse.
      Um tanto intimidada, foi para a saleta.
      Era um aposento comprido e bonito, cheio de peas de artesanato local, que Dominica estava ansiosa para examinar. Com grande decepo, viu que no era o dono 
da casa que se encontrava na sala, e sim, Gerald. E sozinho.
      Tinha na mo um copo de usque e ergueu o olhar, apreensivo, como se temesse ver o tio.
      - Ah,  voc, Dominica! Est adiantada. Ainda no me vesti para o jantar.
      - Gostou do passeio?
      - No muito. Senti-me como um colegial que esqueceu de fazer as lies!
      Pela primeira vez, Dominica teve pena dele.
      - Seu tio ficou muito zangado?
      - Ca em desgraa, como voc bem sabe! Mas no vamos esquentar a cabea. H muitas coisas agradveis que podemos fazer, em vez de chorar! - Largou o copo e 
disse, inesperadamente: - Por exemplo, voc poderia comear me dando um beijo. Vamos casar e ainda no tivemos tempo de travar conhecimento.
      Estendeu os braos e puxou-a, brutalmente. Instintivamente, a moa lutou e se libertou.
      - No! No!
      Havia uma nota de medo na voz trmula.
      - Por que no? Est se fazendo de difcil? Afinal, veio para c para casar comigo.
      - Sim... eu sei - disse ela, ofegante. - Mas  cedo... demais. Acabamos de nos conhecer... mal nos falamos. .
      - A culpa no  minha! E agora que estou olhando bem para voc, vejo que  muito bonita! Alm do mais, tem uma pele muito branca. Gosto disso!  bom, para 
variar!
      Agarrou-a to depressa, que ela no pde evitar. Depois, ao contato dos lbios dele, percebeu o que o rapaz havia dito: "Para variar"!
      Variar de Seetha... Variar da moa que se matara por causa dele.
      Enquanto todo seu corpo se rebelava, Dominica sentiu de novo na pele os lbios quentes e gulosos de Gerald.
      - No! No! - disse, preparando-se para gritar.
      Nesse momento, a porta se abriu e lorde Hawkston apareceu. Embora devesse ter visto o que estava acontecendo, disse, em voz totalmente inexpressiva:
      - Vai se atrasar para o jantar, Gerald, se no andar depressa. O rapaz soltou Dominica e ela teve a impresso de que ia desmaiar.
      Estendeu as mos e se apoiou no espaldar de uma cadeira.
      - No me demoro - disse Gerald, saindo da sala. Dominica procurou recuperar o flego. Estava de costas para lorde Hawkston e no se virou. Sabia apenas que 
se sentia profundamente aliviada com sua presena e, ao mesmo tempo, constrangida por ter ele visto Gerald beijar seu ombro nu.
      Que estaria ele pensando? Ser que acreditava que ela havia permitido semelhante coisa?
      Depois disse a si mesma que era isto o que ele esperava! Tinha-a trazido para casar com o sobrinho e devia estar contente pelo fato de os dois procurarem se 
conhecer melhor e por Gerald se sentir atrado pela noiva.
      Sentiu o calor dos lbios dele, o bafo de usque, a aspereza com que a havia abraado.
      No posso fazer isto!, disse a si mesma. No posso! Preciso dizer a lorde Hawkston que no posso!
      Ouviu-o atravessar a sala e se dirigir para a janela.
      - Voc viu o pr-do-sol? - perguntou ele, em voz serena. Isto impediu que Dominica falasse, que explicasse que Gerald a revoltara, que nunca mais permitiria 
que a tocasse e que, agora, no podia mais ficar ali.
      Depois lembrou-se de tudo o que devia a lorde Hawkston! Todo o enxoval, que devia ter custado uma fortuna, vestidos e chapus para suas irms. Lembrou-se da 
bondade dele durante a viagem e tambm ali, fazendo o possvel para que ela se sentisse em casa.
      Como  que podia ser to ingrata? Como dizer que ia quebrar a promessa?
      A sensao de fraqueza passou aos poucos, mas ainda parecia sentir nos ombros o calor dos lbios de Gerald. Achava-o repugnante, no entanto, precisava ser 
corajosa.
      Que mais poderia fazer, devendo tanto a lorde Hawkston? Mesmo que trabalhasse cem anos, no conseguiria lhe pagar.
      Com um esforo supremo, aproximou-se dele e saram juntos para o terrao.
      - s vezes, acho que  esta a hora mais bela do dia - disse ele. - Quando morava aqui sozinho, sempre procurava voltar a tempo de ver o pr-do-sol e as estrelas 
surgirem.  mais bonito do que o que possa haver em qualquer pea de teatro. E os sons da noite so para mim uma msica mais magnfica do que qualquer pera.
      Dominica percebeu que procurava acalm-la, dizer que, se no entrasse em pnico, se usasse o bom senso, tudo daria certo.
      Mas daria mesmo?
      Poderia suportar a presena de Gerald, deixar que a tocasse, permitir que a beijasse?
      Estendeu a mo para se apoiar numa coluna do terrao. Estava trmula.
      Como  que ia dizer a verdade?, perguntou a si mesma. Mas sabia que era impossvel.



CAPTULO VI
      
      
      
      Foi outra noite desagradvel, com lorde Hawkston procurando conversar e pouca cooperao tendo por parte de Gerald e Dominica.
      A moa fez um esforo, mas achava difcil conversar e sorrir e, mais ainda, deixar de sentir repulsa, quando olhava para o noivo.
      Parecia que o dono da casa no percebia o mal-estar reinante nem notava que Gerald tinha ingerido uma grande quantidade de usque, antes de aparecer vestido 
para o jantar.
      Durante a refeio, bebeu acintosamente o suco de lima preparado por Dominica, mas, terminado o jantar, quando saiu durante alguns minutos, ela teve certeza 
de que tinha ido tomar um trago.
      Tomaram caf no terrao, e agora as estrelas comeavam a surgir. Havia um leve brilho sobre o vale. Logo a nvoa se dissiparia, permitindo que se visse a plantao 
de ch.
      Ouviam o rudo da torrente e o som dos pssaros noturnos e dos morcegos-voadores. Eram animais muito pequenos, que voavam em volta do terrao, como que curiosos. 
Sempre que se acendiam as luzes numa casa cingalesa, apareciam aos bandos, como que por uma misteriosa atrao.
      Os insetos eram em to grande nmero, que no puderam ficar durante muito tempo no terrao, indo para a saleta.
      Lorde Hawkston explicou a Dominica que as peas de moblia tinham sido feitas em vrias partes do pas e trazidas pelos mais diferentes meios de transporte. 
Uma delas viera nas costas de um elefante!
      Durante todo o tempo em que falava, Dominica tinha conscincia de Gerald esparramado numa poltrona, provavelmente imaginando quando poderia arranjar outro 
drinque, sem que o tio percebesse.
      Ainda no eram dez horas, quando ela resolveu ir para a cama. Deu boa-noite aos homens, fazendo uma reverncia, e foi para o quarto, aliviada por ficar sozinha.
      Ao mesmo tempo, gostaria de ter continuado conversando com lorde Hawkston.
      Despiu-se, apagou a vela, abriu as cortinas e ficou olhando o lago.
      O jardim estava muito tranqilo. O luar iluminava o lago e as flores tinham uma fragrncia forte.
       lindo, tudo!, pensou. Se pudesse viver aqui com algum...
      Interrompeu o pensamento.
      De que adiantava desejar o impossvel?
      Se ficasse ali, seria com Gerald, como sua esposa.
      Saiu da janela, como se a beleza l de fora a machucasse. Deitou na cama e fechou os olhos, procurando esquecer o que tinha sentido quando ele a tocara, quando 
a beijara no ombro, dizendo, com incrvel insensibilidade: "Para variar!"
      Como poderia ela esquecer Seetha, sabendo que se matara por ter sido repudiada por Gerald?
      No vou pensar nisto! No vou!, disse a si mesma.
      Apesar disso, parecia que Seetha estava a seu lado, dizendo-lhe o quanto havia sofrido.
      De repente, Dominica soube porque a moa se suicidara. Porque tivera vergonha de ser despedida sem pagamento!
      Isso significava que nenhum homem casaria com ela sem um dote e que os parentes e amigos a desprezariam.
      A morte era prefervel  desonra!
      
      
      Como Gerald tivera coragem de fazer isso com a moa? Como?
      Depois que Dominica saiu da sala, lorde Hawkston disse ao sobrinho:
      - Tenho uma coisa para lhe falar, Gerald.
      - O qu?
      - Levantei-me cedo hoje e fui a cavalo at a aldeia onde Lakshman mora. Tinha esperana de v-lo, mas no estava l. Ainda assim, descobri algo importante 
a seu respeito.
      Gerald no respondeu. Apenas olhou para o tio, com ar emburrado, como se no gostasse daquela intruso em sua vida particular.
      - Os aldees me disseram que Lakshman foi atacado de loucura por causa dos rakshyos.
      - Que diabo significa isso?
      Lorde Hawkston fez um gesto impaciente.
      - Voc est aqui h dois anos. Certamente, tentou saber alguma coisa a respeito dessa gente. Principalmente os que vivem nos morros, com os quais lida.
      - Se est se referindo s crianas religiosas, no entendo nada dessas bobagens!
      O tom do rapaz fez com que lorde Hawkston apertasse os lbios, impaciente. Mas foi com voz calma que disse:
      - Deve saber que, embora os cingaleses sejam budistas, os aldees dependem, em grande parte, dos deuses hindus. Acreditam em bons e maus augrios, em espritos 
maus e em demnios, que eram as crenas de seus antepassados yakkho. - Percebeu que Gerald no estava muito interessado. Mesmo assim, continuou: - Na realidade, 
ainda so adoradores do diabo e nem mesmo sua devoo e um Buda pacfico, suave, impede isto. A crueldade e a morte, a doena e a dor esto nas mos de legies de 
demnios e de espritos maus que, para eles, existem num mundo desconhecido. - Lorde Hawkston fez uma pausa e continuou, com um sorriso: - Na minha opinio, h realmente 
muito pouca diferena entre os espritos e os demnios dos cingaleses e a doutrina de Satans e do inferno que  pregada com tanto fervor em Colombo pelo pai de 
Dominica.
      - Voc me disse que ele  pastor. Por que, em nome dos Cus, escolheu a filha de um pastor para minha esposa?
      Lorde Hawkston respondeu, agora em tom glido:
      - Escolhi Dominica porque tem personalidade e carter, qualidades que, lamento dizer, voc no tem.
      - J tornou isso bem claro - rosnou Gerald. - Continue o sermo.
      Lorde Hawkston no deu importncia  rudeza do sobrinho.
      - Os bons espritos dos aldees so os yakshyos, suaves e bondosos, venerando Buda. Por outro lado, os rakshyos so ferozes e malvolos. Habitam os lugares 
dos mortos e as florestas, onde cada um tem sua rvore particular de onde fere com a loucura aquele que por ali passar! Pode parecer estranho e absurdo para voc 
e para mim, mas as pessoas daqui acreditam e me disseram, com toda sinceridade, que Lakshman foi levado  loucura por um rakshyo.
      - Ento, azar dele! - respondeu Gerald, despreocupado. - No vejo o que eu possa fazer a respeito.
      - Isso  mais srio do que imagina.
      - Por qu?
      - Voc estava aqui no Ano-Novo Cingals. Deve saber, se tiver o mnimo interesse por este povo, que o festival, que  uma ocasio de reunies de famlia em 
toda a ilha, provoca uma enorme quantidade de males, principalmente o jogo e a embriagez. - Olhou para o sobrinho e continuou calmamente: - Sob a tenso de tanta 
coisa, a parte excitvel dos cingaleses domina sua habitual suavidade e passividade. H brigas, esfaqueamento e, como voc bem sabe, a taxa de assassinatos  alta 
no Ceilo.
      - Est querendo dizer que Lakshman vai me matar?
      - Acho possvel. O kappurala, ou o demnio-danarino, qu mora na aldeia e que  quem desencadeia ou aplaca os maus espritos, me falou seriamente de Lakshman. 
Conhece sua gente, e estou disposto a ouvir seu aviso.
      - Pois eu, no! - disse Gerald, com firmeza. - Se quer saber a verdade, acho tudo isso uma idiotice inventada pelos padres para extorquir dinheiro dos tolos 
que lhes do ouvidos. Conheo Lakshman. Vi-o, quando veio me oferecer a filha.  um sujeito quieto, inofensivo, que tem a metade do meu tamanho. No tenho mais medo 
dele do que teria de um galo garnis!
      - Muito bem. Ordenei que se d uma busca cuidadosa, para se encontrar Lakshman, para que eu possa lhe entregar o dinheiro que voc lhe deve e tentar compens-lo 
de certo modo pela morte da filha. S o que posso dizer  que estou atnito com seu comportamento neste caso, Gerald, e com sua incrvel indiferena em relao  
morte daquela infeliz jovem!
      Como se tivesse medo de falar mais alguma coisa, lorde Hawkston saiu da sala e fechou a porta.
      Gerald ficou imvel durante alguns segundos. Depois, bateu palmas, chamando um criado para que lhe trouxesse um usque, do qual sentia uma imperiosa necessidade.
      Dominica estava sonhando. No sonho, ouviu Prudncia chorar.
      s vezes, depois da morte da me, Prudncia tinha pesadelos. Acordava chamando a me e, quando no a via mais ali, desatava em lgrimas. Dominica sempre deixava 
aberta a porta de seu quarto e de F, para poder ouvi-la, se chorasse, j que o quarto da menina ficava no outro lado do corredor.
      A perda da me foi terrvel para todas, mas Prudncia s tinha sete anos e sentiu tanto a falta da me que Dominica s vezes tinha medo de que isso viesse 
a prejudicar sua sade. A verdade  que a garota nunca tinha sido muito forte. Era prematura, frgil e sempre se mostrara mais sujeita a doenas do que as outras. 
Talvez por ser a mais fraca, a sra. Radford parecia gostar mais dela, mas nenhuma das filhas tinha cime.
      Prudncia era especial. Quando saiu de Colombo, Dominica decidiu que a primeira a ser convidada para passar uns tempos em seu novo lar no seria Esperana, 
e sim, a caula.
      Sabia perfeitamente que, com sua natureza sensvel, Prudncia achava difcil suportar a severidade do pai e sua atitude para com as filhas.
      Ele as castigava como se fossem pecadores que precisassem purificar-se do mal, e o fato de incluir a menina era, para Dominica, prejudicial, no apenas fisicamente, 
como mentalmente.
      Antes de pegar no sono, ficou pensando em Prudncia, imaginando como ela se adaptaria quela casa.
      Dominica tinha acreditado que Gerald era parecido com o tio, tambm bondoso e compreensivo. Mas agora seus sonhos se desvaneciam, assim como os planos que 
tinha feito em relao s irms.
      Que iria pensar F, ao ver como ele bebia?
      Tinha certeza de que Caridade, com sua viva inteligncia, logo perceberia de que maneira Gerald tratava os empregados e os cules, e talvez chegasse mesmo a 
descobrir a verdade a respeito de Seetha.
      As meninas nunca deveriam ter conhecimento desse episdio, pensou. Ficariam chocadas e horrorizadas, porque, assim como Dominica, gostavam das mulheres cingalesas, 
to gentis e to atraentes.
      Ao mesmo tempo, sabia que o ar da montanha seria bom para Prudncia, fazendo, talvez, com que sua palidez desaparecesse. A menina apreciaria a comida, pois, 
embora tivesse despedido alguns criados, Gerald havia conservado o ltimo cozinheiro de lorde Hawkston. Dominica achava todos os pratos deliciosos, como nunca experimentara 
antes.
      Ainda meio sonolenta, sentou na cama, achando que precisava ir confortar Prudncia. Lembrou-se, ento, do lugar onde estava, a quilmetros da casa paroquial. 
O grito que julgara ser da irmzinha devia ter vindo de algum animal, no jardim.
      Saiu pela porta que dava para o jardim e percebeu que no fora um grito, mas um gemido, como o de um animal pequeno.
      Sabia que muitos animais, na floresta, emitem sons estranhos. Tinha lido sobre viajantes que haviam ficado apavorados com os gritos dos chacais e de outros 
bichos. No havia razo para ficar com medo do que ouvia agora. Prestou ateno: o animal estava bem embaixo de sua janela.
      Com certeza, ir logo embora, pensou, deitando novamente. Mas era impossvel no dar importncia queles sons. Eram comoventes, e Dominica sabia que no poderia 
dormir, se continuassem.
      Ir logo embora, disse a si mesma. Seria ridculo eu tentar socorr-lo. Talvez estivesse sofrendo, mas no permitiria que ela se aproximasse.
      Virou a cabea para o outro lado, mas continuou tensa.
      Desejou no ter deixado a porta-janela aberta. E se o animal entrasse? Pior ainda: e se aparecesse uma cobra?
      Seu corao bateu mais depressa, de medo. Depois, ouviu um rosnado que a fez pular de susto. No adiantava fingir que no se tratava de um animal selvagem 
e perigoso! O rosnado se transformou em rugido.
      Ficou apavorada. O pnico baniu todos os outros pensamentos Atravessou o quarto correndo e abriu a porta que dava para o corredor.
      No sabia para onde ia; no raciocinava, mas o instinto de preservao fez com que fugisse dali.
      Abriu outra porta e, desesperada, correu para onde ela sabia que  estaria em segurana.
      Lorde Hawkston tambm acordou com o barulho e percebeu logo que eram dois leopardos brigando. Intimamente, xingou o sobrinho por sua indolncia e indiferena 
em relao ao que era o dever normal de um fazendeiro.
      Os leopardos, em certa poca, tinham sido to proliferas, que constituam uma ameaa para os plantadores de ch. Depois que seu nmero foi controlado, tornaram-se 
mais raros e, em circunstncias normais, no eram to perigosos. Atacavam veados e gado e tinham uma espcie de poder hipntico sobre os macacos, que pareciam considerar 
seus inimigos naturais.
      Mas, se um fazendeiro deixasse que esses animais selvagens entras-| sem na plantao e se tornassem uma ameaa, no tanto para os  trabalhadores, como para 
os animais domsticos como porcos e ces, no podia culpar ningum, a no ser ele mesmo.
      Enquanto pensava nisto, uma criaturinha apavorada irrompeu no  quarto e atirou-se sobre ele.
      Tomou Dominica nos braos e percebeu que estava trmula de medo.
      - Est tudo bem - disse. - Eles no lhe faro mal.
      A moa agarrou-se ainda mais a ele, como se achasse um santurio   em seus braos.
      - Parece terrvel - disse lorde Hawkston, com voz grave e calma -, mas, nesta poca do ano, quando os animais acasalam, freqentemente h brigas na floresta 
e os elefantes selvagens so os que fazem mais barulho!
      Enquanto falava, percebeu que suas palavras pouco efeito produziam em Dominica. Ela ainda tremia, com o rosto escondido no ombro dele.
      - Os leopardos ainda esto no jardim. Deixe-me ir buscar uma arma para mat-los. Depois, nunca mais a assustaro.
      - No... no! No me deixe! - Falou baixinho, mas apavorada.
      - No vou fazer nada que a assuste, mas precisa ser sensata Dominica interrompeu-o:
      - No sou sensata! Nunca fui sensata! Procurei fazer o que o senhor queria... mas  impossvel! Tenho medo de... tudo! Tentei esconder isso... mas no adianta.
      - No  verdade. Acho que foi corajosa a respeito de muitas coisas.
      - No! No sou! Estive mentindo... mas o senhor no percebeu. Sempre tive medo, desde criana. Tinha medo dos anjos. Ento, papai me fez passar a noite inteira 
na igreja, sozinha, e agora tenho medo do escuro! Tenho medo de cobras e de leopardos! Tenho medo do... sr. Warren... e de ter que casar com ele!
      As palavras foram pronunciadas num mpeto apaixonado, e lorde Hawkston achou que, de certo modo, devia ter esperado por elas.
      - O senhor vai me desprezar e tenho medo de que fique zangado, mas precisa saber a verdade. Tenho vergonha de t-lo enganado...
      Desatou a chorar desoladamente. Era como se ele segurasse nos braos uma criana infeliz.
      Por um momento, no soube o que dizer. Continuou segurando-a. deixando que desse vazo s emoes.
      Dominica havia se dominado durante tanto tempo, que agora no podia mais se conter, sentindo uma grande insegurana.
      - No chore. Farei com que tudo d certo para voc. No  to mau como parece.
      - , sim! - disse a moa, ainda chorando. - Quebrei minha promessa. Mas no h o que eu possa fazer. Sou uma covarde!
      - No  nada disso. - Percebeu que ela j no tremia tanto e que os rudos tinham cessado, no jardim. - Os leopardos j foram embora. De certo modo,  uma 
pena, porque o leopardo  um animal impressionante. Tem manchas pretas no corpo, como o tigre, mas no to pronunciadas. Seu pulo  um dos movimentos mais graciosos, 
entre os de todas as criaturas do reino animal. - Falava para distra-la e percebeu que ela o ouvia. - H tambm, na ilha, o leopardo-preto.  um belo animal. S 
vi trs, desde que vim para o Ceilo.
      Dominica deu um suspirozinho e parou de chorar, mas continuou com o rosto escondido no ombro dele. Esquecera que estava usando uma camisola fina. Nem mesmo 
percebia que estava nos braos de um homem.
      Ele significava segurana, um santurio contra o medo, uma proteo contra tudo o que pudesse machuc-la. No havia naquilo nada de pessoal. S havia procurado 
porque era o homem de quem precisava naquele determinado momento.
      - Tudo est calmo - disse ele, suavemente. Dominica ergueu a cabea.
      Ele no podia v-la, no escuro, mas sentia a maciez dos cabelos que chegavam bem abaixo da cintura. Tinham um perfume que ele, a princpio no pde identificar. 
Depois percebeu que era a suave fragrncia de lavanda. Um perfume estranhamente ingls, diferente dos aromas exticos do Oriente, que fez com que pensasse em tudo 
o que amava na Inglaterra e tambm em sua me morta.
      - No precisa mais ter medo, Dominica.
      - No estou com medo - respondeu, em tom pattico, como o de uma criana.
      - Amanh tomarei providncia para que os leopardos no a incomodem mais. Vou mandar preparar os quartos do andar de cima. Devia ter feito isto, assim que chegamos.
      - Eu me sentiria mais segura l em cima. Mas no se estivesse... sozinha.
      - Meu quarto tambm  em cima, o quarto das palmeiras. Mas voc sabe que, esteja onde estiver, eu a protegerei.
      - Foi por isso que vim procur-lo - murmurou.
      Seu rosto no estava mais escondido no ombro de lorde Hawkston, mas Dominica no procurou se afastar da proteo dos braos dele.
      Continuava tensa,  escuta, como se temesse que os rudos recomeassem.
      - Eu gostaria que voc passasse uma boa noite. Estava cansada e, provavelmente, tambm perturbada com tudo o que aconteceu, desde que samos de Colombo. 
      - Eu no poderia voltar... para aquele quarto.
      - No, claro que no. Vamos trocar de quarto. Voc fica aqui e eu vou para l, para ficar de guarda. Mas garanto que os leopardos no voltam mais.
      - No me deixe ainda. S mais um minuto. Sentiu que a moa se agarrou ao seu camisolo.
      - No a deixarei, enquanto quiser que eu fique. Mas acho que devia procurar dormir. Sugiro que deite. Ficarei a seu lado, at que amanhea, ou at que voc 
pegue no sono.
      - O senhor deve achar que sou uma tola.
      - Acho que fez muito bem em vir me procurar, quando ficou com medo.
      Lorde Hawkston soltou-a, suavemente. Levantou-se depois e estendeu a mo,  procura do roupo que estava numa cadeira junto  cama. Vestiu-o. enquanto Dominica 
deitava e puxava o lenol at o queixo.
      - O senhor ainda no vai embora, no ?
      Lorde Hawkston sentou na cama e pegou a mo dela.
      - Prometi que ficaria.
      - Est... zangado comigo?
      - No estou zangado, no a desprezo, nem acho que seja tola. Acho, como sempre achei, que  uma pessoa excepcional e muito corajosa.
      - No sou... O senhor sabe que no sou! Mas agrada-me que pense assim.
      - Garanto que estou dizendo a verdade. - Houve silncio. Depois ele disse: - Feche os olhos. Acho que vai dormir logo. Alm do mais, j  quase madrugada. 
No preciso olhar o relgio para saber que daqui a menos de meia hora o dia vai clarear acima dos morros, trazendo uma bela manh ensolarada.
      Sentiu que os dedos dela relaxavam. Dali a minutos, percebeu que Dominica tinha adormecido, respirando regularmente.
      Sabia que estava exausta, tanto devido ao medo quando  crise de lgrimas, mas que, assim que relaxasse, pegaria no sono, como ele tinha visto acontecer com 
homens que dormiam aps um exerccio forado ou uma grande tenso emocional.
      Lorde Hawkston ficou ali, imvel, segurando a mo da jovem, at que a luz da madrugada comeou a aparecer por entre as cortinas agitadas por uma leve brisa.
      Apesar disso, continuou ali. Quando ficou mais claro, distinguiu o contorno da moblia e o rosto de Dominica sobre os travesseiros.
      Os cabelos cobriam-lhe os ombros e as pestanas ainda estavam midas contra o rosto plido. Parecia muito moa e indefesa, e lorde Hawkston fitou-a durante 
longo tempo. Depois, delicadamente, soltou a mo dela, se levantou e dirigiu-se para a porta entreaberta.
      Saiu e fechou-a, de mansinho.
      Atravessou o corredor e entrou no quarto de Dominica. Viu as roupas atiradas para um lado, na cama, e a porta-janela aberta para o terrao.
      Atravessou-a e saiu para o jardim. O gramado onde os leopardos tinham brigado estava estragado, as flores quebradas e as plantas com as razes expostas.
      Lorde Hawkston examinou os estragos e depois olhou para a borda da varanda.
      Viu, preso num dos pilares, um pedao de corda, que podia ter prendido um animalzinho, como um filhote de veado!
      Olhou para os morros cobertos de vegetao. Escondido em algum lugar, devia estar Lakshman, esperando para vingar a morte da filha.
      Se Dominica tivesse sado para socorrer o veadinho, os leopardos a teriam atacado!
      Lord Hawkston soube, ento, que precisava encontrar Lakshman o mais depressa possvel.
      Quando acordou e viu que estava numa cama estranha, Dominica lembrou dos acontecimentos da vspera.
      Olhou para o relgio de cabeceira. Era tarde, tinha dormido at a metade da manh. No era de se admirar. Ao mesmo tempo, teve vergonha de sua fraqueza e ficou 
constrangida por ter tirado lorde Hawkston da cama, s porque tinha tido medo.
      Como pude ser to tola?, perguntou a si mesma.
      Mas s o fato de lembrar o rudo dos leopardos lhe causava novo terror. Havia dito a verdade, ao contar a lorde Hawkston que sempre tinha sido tmida. Esforava-se 
para no o demonstrar, sabendo que devia ser um exemplo para as irms mais moas, mas nunca esqueceu a terrvel experincia que teve, aos sete anos, com o castigo 
imposto pelo pai.
      A me estava doente, na ocasio, e no soube o que estava acontecendo, embora mais tarde, ao saber, tivesse ficado muito zangada.
      O pai estava dando a Dominica uma lio sobre as Escrituras, falando dos anjos que guardavam as pessoas e as protegiam dos demnios do inferno. Fazia com que 
tudo parecesse muito real; ficou to empolgado e descreveu o inferno de modo to vivido, que Dominica comentou:
      - Tenho medo dos demnios, papai. Tenho medo de que me peguem.
      - Voc estar segura, enquanto for boazinha. Deus manda os anjos para proteg-la, Dominica. Os anjos esto sempre  sua volta, salvando-a do pecado.
      - Tenho medo dos anjos tambm. No quero nada  minha volta. Quero ficar sozinha!
      O padre considerou isto um sacrilgio e repreendeu a filha. Aos sete anos, a menina j era audaciosa e o desafiou.
      - Tenho medo dos anjos, papai. Diga o senhor o que disser, eu tenho medo... tenho!
      O resultado foi ela ficar fechada na igreja a noite toda, para meditar sobre os anjos e compreender que estava segura nas mos de Deus.
      Dominica lembrava de tudo vividamente; de que a escurido parecia povoada, no de anjos, mas de demnios.
      No dia seguinte foi encontrada dormindo de pura exausto, com a cabea apoiada na almofada vermelha de um genuflexrio.
      O vigrio nunca mais infligiu esse tipo de castigo s filhas, temendo a clera da esposa.
      Mas aquela noite terrvel deu a Dominica uma sensao de insegurana que jamais a abandonou. Fez com que ficasse com medo do escuro, de modo que, mais tarde, 
foi um conforto dormir no mesmo quarto tom F.
      Mas, sendo a mais velha, procurou assumir uma posio de autoridade. Quando a me morreu, tentou tomar seu lugar, no s junto s irms, como junto ao pai.
      Com ele, nem sempre era fcil, mas Dominica s vezes conseguia fazer com que se mostrasse menos severo.
      Mas, quando se tratava de obter dinheiro para comida e outras necessidades, ela reconhecia que era um fracasso total. Mesmo assim, nunca agira com tanta fraqueza, 
como na noite anterior. Nem de maneira to humilhante.
      Sabia que devia ter sido a gota d'gua, depois de tantos acontecimentos: o choque, ante a proposta de lorde Hawkston, a tristeza de sair de casa, a repulsa 
que sentira ao conhecer Gerald e, principalmente, o horror do contato dos lbios dele em seu ombro e o  futuro.
      Ficou imaginando o que lorde Hawkston estaria pensando dela e se teria se arrependido de traz-la para sua casa.
      Ficou com lgrimas nos olhos. Sentia-se cansada e fraca, aps a experincia da vspera.
      Preciso levantar-me, pensou. Mas continuou deitada, vendo o sol penetrar no quarto pelas cortinas entreabertas e iluminar os ltus vermelhos pintados nas paredes.
      A cama era de madeira entalhada, no mesmo estilo da de seu quarto, com ptalas pintadas em um rosa vivo! As cortinas tambm tinham flores de ltus, mas o quadro 
da parede era diferente. No um Buda, e sim, uma reproduo do lago em Kandy, cheio de ltus vermelhos.
      Ao longe, no outro lado do lago, divisava-se o Templo do Dente Sagrado e, debruando-se sobre a gua, as rvores floridas do templo, como Dominica as vira, 
quando passara por l em companhia de lorde Hawkston.
      Aquele dia tinha sido de grande beleza. Nunca pensara que tal magia pudesse existir.
      Agora, olhando para o quadro, compreendeu de repente por que Kandy lhe parecera to bela, por que o lago tivera um brilho especial, por que o colorido das 
flores era mais forte.
      Por que estava na companhia de lorde Hawkston porque tinha conscincia da presena dele e estava feliz. Mais feliz do que nunca na vida.
      E a razo dessa felicidade lhe ocorreu com uma luz sbita. Era muito simples e, no entanto, no havia percebido at ento. Estava amando!
      Amando lorde Hawkston!
      O homem que a tinha trazido para casar com o sobrinho!
      
      
      J era quase meio-dia, quando Dominica se levantou. Mas, ao sair do quarto, viu que a casa estava vazia. Lorde Hawkston e Gerald no estavam em parte alguma.
      Pegou a sombrinha, com inteno de ir para o jardim.
      Achava que o penteado novo, com uma corola no alto da cabea lhe ia bem e no quis estragar o efeito, usando chapu.
      Fosse como fosse, no havia ningum para v-la.
      Mas, quando chegou  porta, ouviu o rudo de cascos de cavalo e viu lorde Hawkston chegar, vindo pelo caminho que levava aos morros.
      Ele apeou e, pela aparncia do cavalo. Dominica achou que devia ter sido uma dura cavalgada.
      Notou tambm que o dono da casa tinha uma pistola no cinto. Achou que tinha ido atrs dos leopardos, mas era difcil pensar em qualquer coisa, a no ser que 
seu corao batia acelerado. Ao mesmo tempo, estava bastante encabulada.
      A camisa branca estava aberta no peito e ele tinha enrolado as mangas, como na manh anterior, quando sara a cavalo.
      - Aonde vai? - perguntou, com um sorriso.
      Dominica achou que ele olhava com ar aprovador para o vestido de musselina que usava, de saia rodada e com fitas no decote.
      - Eu ia para o jardim, andar um pouco, antes do almoo - disse, imaginando por que era difcil falar. As palavras pareciam presas na garganta.
      Um criado levou o cavalo embora.
      - Se tiver tempo, podemos ir ver os ltus-gigantes - sugeriu ele.
      - Com muito... prazer - respondeu, ofegante. Atravessaram o gramado juntos, e ela ficou pensando como ele parecia atltico e jovem, quando se vestia de maneira 
informal.
      Ao mesmo tempo, porque o amava e sentia o estado de esprito dele, teve a impresso de que estava preocupado e desejou que lhe contasse o que havia.
      Em vez disso, lorde Hawkston falou do jardim, mostrando-lhe as diferentes flores que havia plantado, indicando as rvores raras, sendo que de algumas Dominica 
jamais tinha ouvido falar.
      - Daqui a dois meses, os rododendros estaro em flor. Nas grandes altitudes florescem tarde, mas as cores so indescritveis.
      Dominica queria perguntar se ele achava que ela estaria ali dali a dois meses, mas soube que no poderia fazer tal pergunta.
      Lorde Hawkston confiava nela. Acreditava nela. Lembrou que, em Kandy, ela lhe tinha dito que, quando a gente ama, no h sacrifcio que no esteja disposta 
a fazer.
      Pois bem, estava apaixonada, e o sacrifcio exigido dela era que fizesse a vontade de lorde Hawkston e casasse com seu sobrinho.
      S de pensar nisso, teve vontade de chorar, como tinha chorado na noite anterior, no ombro dele, mas sabia que, se o fizesse, ele a desprezaria mais ainda.
      Lorde Hawkston estava sendo corts e gentil, porque queria tornar as coisas mais fceis e fazer com que ambos esquecessem a atitude dela, correndo para seu 
quarto e aninhando-se em seus braos.
      Naquele momento, parecera a nica coisa a fazer, mas agora Dominica ficava corada, ao lembrar seu comportamento.
      Era verdade que, na ocasio, no pensou nele como homem, e sim, como uma fora, um conforto e um protetor.
      Mas ele era um homem, ela lembrara disto, ao acordar em sua cama.
      Eu o amo! Eu o amo!
      Nunca devia deixar que ele soubesse de seus sentimentos. Pelo contrrio, teria que sacrificar sua vida, para satisfazer a vontade dele.
      Procurou prestar ateno ao que lorde Hawkston dizia, mas s podia pensar no quanto era emocionante estar ao lado dele. Quando tocava no brao dela por acaso, 
ao examinar uma flor ou um arbusto, sentia uma onda de excitao percorrer-lhe o corpo.
      Admirou-se, agora, de na vspera, quando se vira nos braos dele, no ter percebido, que era isso o que desejava mais do que qualquer outra coisa na vida.
      Ficou imaginando o que ele diria, se lhe pedisse que a enlaasse de novo para lhe dar a sensao de segurana e de proteo que tinha afastado o medo, permitindo 
que. adormecesse ainda segurando a mo dele.
      Nenhum homem poderia ser mais bondoso, mais compreensivo!
      Sabia que seu pai ficaria muito zangado com seu comportamento.
      Sabia que qualquer pessoa, se soubesse do acontecido, ficaria chocada por ela se agarrar a lorde Hawkston, vestindo apenas uma camisola transparente.
      Teria ele achado que era leviana e ousada?
      Provavelmente a considerava apenas uma criana aborrecida, um jovem tola que tinha medo do escuro e que, embora tendo sempre vivido no Ceilo, temia dois leopardos 
que brigavam e no representavam perigo para ela.
      Posso parecer uma criana para ele, mas eu o amo como uma mulher, pensou. Amo-o com todas as fibras do meu corao e sei que  assim que o amor deve ser, amor 
que existe desde o princpio do mundo.
      O que sentia por lorde Hawkston era um desejo espiritual, quase divino. Uma coisa que Gerald, por exemplo, jamais compreenderia.
      Como poderia viver, ano aps ano, com um homem grosseiro e materialista, sem a mnima sensibilidade?
      Como poderia suportar a atitude de Gerald em relao  vida? Como poderia pensar no momento em que no somente ele a beijaria, mas ambos se uniriam como marido 
e mulher?
      Instintivamente, sentindo medo outra vez, chegou mais perto de lorde Hawkston.
      Como se percebesse que alguma coisa a perturbava, ele disse:
      - Talvez estejamos perdendo tempo. Venha. Prometi lhe mostrar os ltus-gigantes, antes de voltarmos para casa, para almoar.
      Levou-a por um caminho que, obviamente, tinha sido aberto no meio da floresta. De cada lado havia plantas em flor, mas Dominica achou que o caminho se havia 
estreitado, provavelmente por falta de trato, as plantas invadindo a trilha, a ponto de, em certos pontos, terem que caminhar em fila indiana.
      Mas era tudo muito belo e o perfume das magnlias, dos jasmins e dos champees fazia com que tivesse impresso de estar no Jardim do den.
      Depois, de repente, surgiu o tanque que procuravam.
      Era cercado de rvores e no muito grande. O sol filtrava-se na gua, dando  clareira uma aparncia de misticismo difcil de descrever. . A gua estava cheia 
de ltus, alguns abertos, outros em boto, formando um quadro de beleza e cor que deixou Dominica fascinada.
      No outro lado via-se um pedestal com uma esttua de Buda.
      Seguindo o olhar de Dominica, lorde Hawkston disse:
      -  um de meus tesouros prediletos, que eu fazia questo de lhe mostrar. Creio que veio de Anuradhapura, mas encontrei-o abandonado no meio de algumas runas 
na floresta e trouxe-o para c; de modo que agora, pelo menos, tem uma moldura adequada.
      -  verdade!
      - Venha ver a beleza do entalhe.
      Deram a volta, tendo dificuldade em passar no meio das samambaias e das plantas que se haviam insinuado por entre das rvores, num lugar onde no havia jardineiro 
para control-las.
      Chegaram at a esttua e Dominica viu que lorde Hawkston a tinha colocado contra um fundo de rvores champees, que podiam ser encontradas perto de cada wihara 
budista da ilha.
      O budismo era a religio das flores, e achou que lorde Hawkston era um dos poucos ingleses que teriam tratado com respeito o emblema de uma religio que no 
era a sua.
      Quando chegaram junto  esttua, que ficava um pouco acima deles, Dominica notou que ele se aborreceu por encontrar ali algumas heras enroladas na pedra.
      Estendeu a mo para arranc-las do pedestal do Buda.
      - Deve ser muito antigo... - comeou Dominica. Ento, um movimento chamou sua ateno.
      Virou a cabea e gritou.
      Bem atrs deles, tendo surgido silenciosamente, havia um homem!
      Seu rosto estava contorcido pelo dio, um dio diablico, e na sua mo erguida segurava um kris pontiagudo, de cabo de madeira.
      Sem pensar, o instinto lhe dizendo que devia salvar o homem amado, Dominica se atirou contra lorde Hawkston, quando ele se inclinava sobre o pedestal.
      Ela cambaleou com o impacto, e a faca, que deveria atingi-lo na nuca, errou o alvo, atravessou o coque no alto da cabea de Dominica. A fora do golpe atirou-a 
para trs, contra uma rvore.
      Tudo aconteceu muito depressa. Recuperando o equilbrio, lorde Hawkston sacou a pistola e atirou no louco que os ameaava.
      No momento em que atirou, percebeu que o homem era Lakshman, que estivera procurando a manh inteira.
      O nativo foi atingido no peito e caiu de costas na gua, no meio dos ltus-gigantes.
      Lorde Hawkston virou-se para Dominica e percebeu que tinha desmaiado, continuando de p apenas porque o kris que atravessara seus cabelos a mantinha presa 
 rvore.
      Segurou-a, tirou a faca, sentindo medo, ao ver que estava suja de sangue.
      Quando jogou a arma no cho e examinou a cabea da moa, viu que no era o sangue dela que manchara a faca.
      Ainda estava inconsciente. Tomou-a nos braos e contornou o tanque.
      S quando chegou  trilha que levava  casa foi que olhou para a gua e percebeu que Lakshmun havia desaparecido.
      As flores de ltus se haviam fechado novamente, no ponto onde ele cara.
      A no ser pelo kris ensangentado que estava aos ps da esttua, nada indicava que tinha havido uma tentativa de assassinato naquele lugar calmo e que duas 
pessoas tinham escapado  morte por um triz e por um grito assustado.
      Carregando Dominica nos braos, caminhou rapidamente em direo  casa.
      Ao chegar ao jardim, encontrou Gerald. Estava cado de bruos na grama, com a camisa branca manchada de sangue, no lugar onde Lakshman o golpeara, nas costas.
      Dominica moveu-se.
      Lembrou-se de ter readquirido conscincia mais de uma vez, mas era tudo muito vago...
      Algum lhe dera alguma coisa para beber e tinha adormecido... o sono profundo, sem sonhos, do esquecimento total.
      Agora era diferente. Era como se sentisse que tomava a viver; sua mente recomeou a funcionar e no sentiu mais sono.
      Abriu os olhos lentamente e achou difcil imaginar onde estava. Era um quarto que nunca tinha visto e a cama onde estava deitada era muito larga. Na extremidade 
havia duas colunas que chegavam at o teto.
      O sol entrava pelas cortinas entreabertas e as janelas estavam abertas para o terrao.
      De repente, percebeu que estava no quarto do qual lorde Hawkston havia falado, o quarto das palmeiras.
      Ao pensar em lorde Hawkston, teve um estremecimento. Agora lembrava!
      Viu de novo o rosto contorcido de Lakshman, quando tentara mat-lo.
      Ela havia percebido imediatamente que o louco era pai de Seetha, buscando vingana pelo tratamento que Gerald tinha dado  filha, devia querer matar, no apenas 
Gerald, o responsvel pela morte da filha, como qualquer homem branco relacionado com ele.
      Antes de desmaiar devido ao horror do que estava acontecendo, Dominica ouviu o rudo do tiro e viu Lakshman cair na lagoa.
      A, ento, uma escurido misericordiosa a envolveu e no viu mais nada.
      H quanto tempo isso teria acontecido? Parecia-lhe que j fazia algum tempo, mas no tinha certeza de nada.
      Estranhamente, no sentia mais medo.
      Talvez fosse pelo fato de estar no quarto de lorde Hawkston. Embora sozinha, parecia-lhe que o ambiente lhe dava uma sensao de proteo.
      Ergueu os olhos e ficou atnita com o que viu. As colunas eram entalhadas em formato de palmeira, do cho ao teto, e entre elas, executados com habilidade, 
havia murais da floresta. Havia rvores, fetos e trepadeiras; havia uma planta conhecida como kudumirris, que se enrolava de rvore em rvore. E cips que formavam 
tranados fantsticos na copa das rvores, caindo at o cho como maravilhosas grinaldas. E, naturalmente, havia flores. Orqudeas de todos os tamanhos, formatos 
e cores, magnlias e camlias, rododendros e rosas.
      Era tudo to belo, que Dominica continuou deitada, olhando em volta, maravilhada.
      Viu ali reproduzidos os pssaros que tinha conhecido a vida inteira: a guia, o gavio, o martim; os alcones, pequenos, resplandecentes, de corpo azul, o 
azul mais azul que se podia imaginar!
      Como lorde Hawkston tinha criado um quarto to interessante e to belo?
      Lembrou que ele lhe dissera que era incomparvel, nico, e achou que, realmente, no podia haver nada no mundo que se assemelhas quilo.  
      Sentou melhor na cama, para continuar olhando. Viu que nas rvores, tinham sido pintados uns macaquinhos e que, num canto do quarto, havia o walura, ou javali, 
que Dominica sabia ser um animal tranqilo e pacfico, a no ser quando se via acuado. A, ento, podia ser perigoso.
      Atravs da folhagem, podiam-se divisar tambm um urso, um sambhur e um leopardo.
      Mas o mais bonito eram as borboletas de todos os tamanhos e de todas as cores, assim como as lagartixas, bichinho que Dominica tinha tentado domesticar quando 
era da idade de Prudncia.
      Era como ver um conto de fadas projetado  sua frente. Continuou olhando e imaginou quantos amigos de lorde Hawkston, principalmente na Inglaterra, o achariam 
capaz de tal fantasia criativa.
       porque ele gosta muito deste pas, pensou. Gosta tanto que quer telo  sua volta, mesmo quando est dormindo.
      E soube que, tanto quanto lorde Hawkston gostava do Ceilo, Gerald o detestava.
      A lembrana do rapaz obscureceu tudo, por um momento. Ento, a porta se abriu e uma mulher entrou.
      Dominica nunca a tinha visto, mas lembrava de sentir sua presena, mesmo quando inconscientemente.
      Era uma inglesa agradvel e sorridente. Usava uma blusa e uma saia malfeitas. Alguns fios dos cabelos opacos e cinzentos tinham escapado do coque na nuca.
      - J acordou! Pensei mesmo que estaria acordada.
      - Quanto tempo dormi?
      - Trs dias. - Dominica pareceu incrdula e a outra continuou: - Sou a sra. Smithson e estive tratando de voc.
      - Obrigada.  enfermeira?
      A mulher atravessou o quarto e foi abrir as cortinas, para deixar o sol penetrar no quarto.
      - Sou o que chamam de missionria mdica. Mas enfermeira  melhor, porque, quando algum fica doente no distrito, sou a nica pessoa que podem chamar, a no 
ser que queiram ir at Kandy. - Virou-se e aproximou-se da cama. - Estou contente por ver que acordou, srta. Radford, porque vim dizer-lhe que preciso ir embora.
      - J avisou... lorde Hawkston?
      - Lorde Hawkston vai chegar de Kandy, de trem. Foi ao enterro.
      - Enterro?
      - Do sobrinho, o sr. Warren.
      Percebeu que Dominica se contraa e que seus olhos tinham uma expresso de surpresa.
      - Lakshman matou-o, antes de atentar contra a vida de milorde. Ele me contou que voc o salvou!
      - Lakshman matou... Gerald? - perguntou Dominica, baixinho.
      - Morreu instantaneamente. O kris  uma arma mortal! - Dominica nada disse, e a enfermeira continuou: - Sinto muito o que aconteceu. Deve ter sido um choque 
para voc. Mas sei que compreender que nada pode fazer, a no ser procurar esquecer. Essas tragdias acontecem, mas no so muito freqentes, graas a Deus.
      - Lorde Hawkston matou... Lakshman? - perguntou a moa, hesitante.
      - O pobre homem estava louco! Para dizer a verdade, quando tratei dele, de uma doena nos olhos, h uns meses, achei que estava realmente perturbado. Era um 
homem difcil e ningum o queria como empregado. - A enfermeira apoiou-se na coluna da cama e olhou para Dominica. - Esquea tudo, menina. Se quiser meu conselho, 
levante-se, v para baixo e fique  espera de milorde.
      - Como  que dormi tanto?
      - Foi idia de lorde Hawkston e concordei com ele. No lhe demos nada muito forte, apenas, algumas ervas que costumo dar s mulheres que esto com dores, para 
que fiquem um pouco tontas. Vai se sentir completamente boa, depois que tomar uma xcara de ch. - Deu uma risadinha. - Sempre digo que no h nada como uma xcara 
do nosso prprio ch, para reanimar uma pessoa! - Olhou para o relgio. - Vou mandar os criados lhe prepararem seu banho. Sinto no poder ficar para nos conhecermos 
melhor, mas provavelmente no faltar ocasio.
      - Por que vai embora?
      -  o que vim explicar. Diga a lorde Hawkston que a sra. Davidson, mulher de um plantador do outro lado do morro, est para ter o primeiro filho e mandou me 
chamar. Sei que ele vai compreender.
      - Garanto que vai. E obrigada por ter cuidado de mim.
      - Foi um prazer! C entre ns, no h o que eu no faa para Chilton Hawk. Perdo... para lorde Hawkston! Pode lhe dizer, da minha parte, que, quanto mais 
tempo ficar aqui, melhor! Precisamos dele!
      - Darei o recado.
      A enfermeira estendeu-lhe a mo.
      - Adeus, srta. Radford! Procure no se aborrecer com o que aconteceu. H sempre o dia de amanh.  o que costumo dizer.
      - Vou procurar seguir seu conselho - disse Dominica, sorrindo. A sra. Smithson apertou a mo da jovem.
      - Adeus! E cuide-se bem. Qualquer dia, passarei por aqui para v-la.
      Depois que ela saiu, Dominica reclinou-se nos travesseiros.
      Ento, Gerald tinha morrido!
      Talvez fosse errado, talvez fosse mesmo muita maldade, mas no pde deixar de sentir um imenso alvio.
      Agora no precisava casar com ele! Agora estava livre da promessa feita a lorde Hawkston!
      De repente, outro problema se apresentou. Isto significaria que teria que voltar para casa imediatamente? Que no poderia mais ficar naquela casa? Que teria 
que voltar para a vida que levava antes de lorde Hawkston traz-la para um mundo que no conhecia?
      Um mundo que continha drama e perigo e estranhas paixes, mas, ao mesmo tempo, um mundo to belo, to maravilhoso, que havia mudado todo seu ser!
      Sentiu que queria ver de novo lorde Hawkston, falar com ele, ficar a seu lado. No momento, no podia pensar em mais nada!
      Dominica estava embaixo, na saleta, quando ouviu o rudo da carruagem que tinha ido esperar o dono da casa na estao.
      As portas estavam sempre abertas, para deixar entrar o ar fresco. Ficou tensa, quando ouviu os criados cumprimentarem o patro. Ouviu-o dizer:
      - Quero tomar banho e vestir uma roupa mais confortvel.
      - Seu banho est pronto, durai.
      Lorde Hawkston subiu a escada. Dominica sabia que, tendo-lhe dado seu quarto, ele dormia em outro no andar de cima.
      J tinha percebido que, mesmo durante os trs dias em que estivera dormindo, as coisas tinham mudado, na casa. Havia mais empregados e tudo parecia brilhar.
      Olhando para o jardim, notou que havia cinco homens trabalhando l, tirando o mato e as ervas daninhas, substituindo as plantas arrancadas pelos leopardos 
e regando a grama.
      Notou tambm que algumas peas de moblia tinham sido mudadas de lugar e adivinhou que estavam de volta ao lugar onde lorde Hawkston as havia colocado, a princpio.
      A saleta estava cheia de flores e no quarto de Dominica tambm havia grandes vasos floridos, parecendo fazer parte dos murais das paredes.
      Na saleta havia vasos em todas as mesas; no hall, viam-se enormes vasos de lrios que perfumavam a casa toda.
      Dominica levou mais tempo do que habitualmente para se vestir e tornar-se o mais atraente possvel. Emagrecera, nos ltimos dias, e os olhos pareciam tomar 
todo o seu rosto.
      No teve coragem de pentear os cabelos como antes. S o fato de pensar no coque no alto da cabea fazia com que lembrasse o impacto do kris de Lakshman, quando 
o atravessara, prendendo-a na rvore.
      Em vez disso, fez um coque na nuca, desejando que lorde Hawkston no achasse que era um penteado muito antigo.
      Escolheu seu vestido mais bonito. Depois de pronta, pensou se no deveria troc-lo.
      Sentia que era importante ter a melhor aparncia possvel, porque seu futuro dependia do que ele resolvesse, assim que chegasse. Tal pensamento a preocupava...
      Sentada na saleta, procurando fazer com que o corao se acalmasse, reconhecia que estava com medo.
      Desejava ardentemente tornar a v-lo, mas temia que, assim que a visse, ele lhe dissesse que teria que voltar para casa, talvez at mesmo no dia seguinte.
      Como poderia suportar isso?
      Refletiu que seria humilhante se desatasse em lgrimas, escondendo a cabea no ombro dele, como havia feito quando tivera medo dos leopardos.
      Mas, quando ele entrou na sala, sentiu o corao pular e no conseguiu dizer uma nica palavra. Levantou-se e ficou olhando para ele, os joelhos trmulos.
      - Dominica! Eu estava com esperana de que voc j estivesse boa para poder levantar-se. Mas... onde est a sra. Smithson? Os criados me disseram que foi embora.
      Com um tremendo esforo, a moa disse, como se a voz viesse de muito longe:
      - Ela me pediu que lhe dissesse que precisava ir embora... A sra. Davidson vai ter... um beb. A enfermeira disse que achava que o senhor ia compreender.
      Lorde Hawkston aproximou-se.
      - Sim, compreendo. Ao mesmo tempo, acho inconveniente. Dominica murchou. Evidentemente, ele no queria ficar ali, sozinho com ela. Gostaria que a sra. Smithson 
estivesse presente, talvez para que no pudessem conversar intimamente.
      Os criados entraram com refrescos e sanduches. Lorde Hawkston pegou um copo e aproximou-se da janela.
      - Fazia muito calor em Kandy - disse, em tom natural. - Eu estava aflito para voltar.
      Os criados saram, e Dominica no soube o que dizer. Ficou olhando para ele, achando-o muito bonito, notando a elegncia com que usava o terno branco.
      - Como se sente?
      - Estou... bem.
      - Era o que eu esperava ouvir. - Colocou o copo numa mesinha e continuou: - Mas  muito aborrecido a sra. Smithson ter ido embora to depressa. Gostaria de 
que ela ficasse, enquanto falssemos de seu futuro, Dominica, e agora voc no tem uma acompanhante!
      -  assim to... importante?
      -  o que as convenes exigem, como bem sabe.
      Ficou de costas para a lareira. Dali a um momento, Dominica perguntou, timidamente:
      - Vai me mandar... embora?
      Ele no olhou para ela, e sim, para a janela.
      - Estive pensando nisso. Para falar a verdade, no pensei em outra coisa, nos ltimos dias. Parece que h duas opes.
      - Quais so?
      - A primeira, naturalmente,  voc voltar para a casa de seu pai. Considerando-se que quase casou com meu sobrinho,  mais do que justo que eu lhe d um dote.
      - No  preciso!
      - Pelo contrrio, acho que . Por outro lado, creio que voc no veria a cor desse dinheiro e que seu pai o gastaria com aqueles que julga mais necessitados.
      Isto era to verdadeiro, que Dominica no achou preciso responder.
      - Por outro lado, posso lev-la para a Inglaterra. - Fitou-a e notou que o rosto dela se iluminava. - Uma vez l, no ser difcil arranjar-lhe um marido adequado.
      A luz do rosto desapareceu.
      Os olhos de ambos se encontraram, parecendo que no podiam se separar.
      Era impossvel fazer um movimento, impossvel respirar. Depois, ela disse, com uma voz apenas audvel:
      - Deixe-me ficar aqui com... voc.
      - Sabe o que est pedindo? Sou velho demais para voc, Dominica.
      Por um momento, pareceu que ela no compreendia. Depois, aproximou-se dele, instintivamente, procurando-o como na noite em que tinha tanto medo.
      Ele tomou-a nos braos e Dominica se sentiu no cu, abraada pelo homem que amava, como sempre tinha desejado...
      - Eu disse que sou velho demais - repetiu lorde Hawkston, num tom estranho, que ela nunca tinha ouvido antes.
      - Eu amo... voc!
      As palavras foram apenas murmuradas, mas eram bem claras.
      - Tem certeza? Oh, minha querida, tem certeza? Ela ergueu o rosto para ele.
      Por um momento, lorde Hawkston fitou-a bem nos olhos, puxando-a depois contra o peito e beijando-a nos lbios.
      Dominica teve a impresso de que o mundo inteiro se iluminava.
      Os lbios dele eram dominadores, mas sentiu que lhe davam tudo o
      que havia de belo na vida, tudo o que havia de bom! Era o que ela havia buscado na msica que tocara, assim como no sussurro da brisa.
      Significava tambm o que encontrara no brilho das flores, em Kandy, e na magia da floresta.
      - Eu o amo! Eu o amo!
      No soube se disse isto em voz alta, ou se deixou que seus sentimentos passassem de seus lbios para os dele.
      Amava-o to intensamente, que achava que j fazia parte dele, que pertenciam um ao outro; que eram indivisveis, uma nica pessoa.
      Finalmente, lorde Hawkston levantou a cabea.
      - Minha querida, minha bem-amada! - disse, emocionado. - Isso est errado! Voc devia procurar uma pessoa da sua idade.
      - S existe voc, no mundo inteiro!
      -  mesmo verdade?
      - Acho que soube disto desde o momento em que o conheci. Mas no sabia que era... amor.
      Beijou-a de novo, e Dominica vibrou com uma sensao que jamais tinha experimentado na vida, que nem mesmo sabia que existia.
      Lorde Hawkston olhou para o rosto radiante e perguntou, em tom autoritrio:
      - Quando foi que me amou, pela primeira vez? Vamos, diga! Quero saber.
      - Acho que a primeira vez foi quando voc foi to... bondoso... dando s minhas irms um vestido e um chapu. E quando disse a madame Fernando que deviam ser 
todos diferentes. Achei que era mais compreensivo do que eu poderia esperar. - Deu um suspiro de felicidade e continuou: - E quando foi to inteligente com Prudncia, 
dizendo que ela precisava comer bastante, para poder ir ao baile que pretendia dar em sua homenagem. A, eu soube... 
      Dominica interrompeu-se, corando.
      - Soube o que, meu amor?
      - Soube que era assim que eu queria que... o pai de meus filhos fosse... - murmurou, escondendo o rosto no ombro dele.
      Apertou-a com tanta fora, que ela teve dificuldade em respirar. -- E quando foi que descobriu que me amava?
      - Quando estvamos em Kandy. Era tudo to bonito, que no pude pensar em outra coisa, a no ser no amor. Depois, quando vi o quadro, em seu quarto, soube por 
qu. Era porque eu amava voc. Amava-o com todas as fibras do meu ser... mas tinha medo de que me desprezasse.
      - Eu a amei desde o primeiro momento. Percebi que vida dura voc levava e quis tir-la de l, proteg-la! - Fez uma pausa e continuou: - Nunca na vida desejei 
proteger e tomar conta de uma mulher por causa dela, e no pelo meu prazer pessoal. Mas queria proteger voc, colocar-me entre voc e tudo o que pudesse machuc-la.
      - Foi por isso que corri para seu quarto, quando tive medo. Sabia que estaria segura a seu lado.
      - Como sempre estar. E, quando a vi de vestido de noiva, soube que era a encarnao de tudo o que um homem podia desejar numa mulher. - Beijou-a na testa. 
- Quer usar aquele vestido amanh, querida, quando formos a Kandy, para casar?
      Dominica virou o rosto para ele, e seus olhos pareciam estrelas fulgurantes.
      Depois, lorde Hawkston percebeu que ela se contraa e abaixava a cabea.
      - Que aconteceu, querida?
      - Esqueci que, na Inglaterra, voc  muito... importante. Tenho pensado em voc aqui, como fazendeiro. Talvez se envergonhe de mim, no meio de seus amigos 
elegantes.
      Lorde Hawkston pegou o queixo de Dominica e fez com que ela o olhasse.
      - No tenho amigos entre os quais voc no venha a brilhar como o prprio sol! Voc  minha, Dominica! Minha, como sempre esteve determinado que seria, como 
talvez tenha sido no passado! Agora que disse que me ama, nunca mais a deixarei, nunca mais!
      -  s o que desejo. Ser sua, para sempre!
      -  assim que vai ser. E como sei que isto lhe agradar, e  tambm o que desejo, pretendo passar aqui seis meses por ano. No se leva muito tempo para ir 
 Inglaterra. Iremos para l no vero, cumpriremos nosso dever para com a famlia e a propriedade, mas no inverno viremos para c. Fica contente, assim?
      - Sabe que sim! E sabe que serei feliz em qualquer parte, contanto que... esteja com voc!
      O tom de Dominica fez com que o olhar de lorde Hawkston brilhasse. Depois, beijou-a novamente, at ela no poder mais pensar, sabendo apenas que seu corao 
e sua alma pertenciam quele homem.
      As estrelas brilhavam, quando lorde Hawkston e Dominica saram do quarto das palmeiras para o terrao.
      
      
      Ela usava o vestido branco com o qual casara naquele mesmo dia.
      Tinha mudado de roupa para a viagem de trem, mas, chegando em casa, pusera de novo o vestido de noiva, porque sabia que o marido gostava de v-la assim.
      Foi um casamento simples e ntimo, com James Taylor como padrinho. Mas, para Dominica, foi uma cerimnia de devoo, e sabia que o mesmo acontecia com o noivo.
      Terminada a cerimnia, Taylor disse:
      - Estou satisfeito por voc, Chilton. Sempre precisou de uma esposa.
      - Para me manter na linha? - perguntou ele, com um sorriso.
      - Para completar seu sucesso! Depois que a lua-de-mel terminar, venha me procurar. Tenho no s uns novos mtodos de cultura para lhe mostrar, como um rapaz 
que  exatamente o administrador que lhe convm. Est aqui h dois anos e  digno de toda confiana.
      - Obrigado, James.
      Dominica achou muito comovente voltar para a casa do morro e saber que seria seu lar, com o homem amado.
      Ao ver a casa acima do vale, como uma jia cercada pelos belos jardins e pelo lago prateado, ela apertou a mo do marido.
      - Vamos ser felizes.
      - Agora sei que constru a casa para voc e que estava faltando alguma coisa no quarto das palmeiras.
      Dominica corou e ele beijou-lhe a mo.
      - Voc nunca mais precisar ter medo de ficar sozinha no escuro, meu amor.
      Tinham tanta coisa que falar, que ainda ficaram l embaixo, sentados, depois do maravilhoso jantar. Quando passaram para o terrao, era tarde demais para verem 
o pr-do-sol.
      Dominica ergueu o olhar.
      A lua crescente movia-se no cu, e lorde Hawkston perguntou:
      - Voc sabe como o povo chama o quarto crescente?
      - No. Diga-me.
      At mesmo o som da voz dele a fazia vibrar, e, sentindo o brao do marido em volta da cintura, ela desejou ser beijada.
      -  chamada "lua dos amantes". E isto, minha querida esposa,  o que significa para ns.
      - Uma lua dos amantes sobre o Jardim do den! - disse Dominica, meigamente. - Que mais podem os amantes desejar?
      Ergueu a cabea para ele e o luar iluminou seu rosto repleto de felicidade.
      - Voc  to linda, to perfeita! Quero dizer-lhe uma coisa.
      - O que ?
      - Quando vim para o Ceilo, com apenas vinte e um anos, eu achava, como todos os jovens, que cedo ou tarde encontraria algum que eu amasse e com quem casaria. 
Mas o que aconteceu foi muito diferente.
      Dominica fitou-o, um tanto apreensiva, e ele continuou:
      - Apaixonei-me, no por uma mulher, mas por um pas. Amei o Ceilo! Significava para mim tudo o que um homem pode desejar na mulher amada. Era macio e quente, 
doce e amistoso, e, alm de dar tantas coisas materiais, tinha tambm uma mensagem espiritual para aqueles que a queriam ouvir.
      - Posso compreender isso.
      Lorde Hawkston beijou-lhe os cabelos e sentiu o perfume dos jasmins que ela havia colocado no meio das flores de laranjeira da grinalda feita por madame Fernando. 
Era um perfume do Ceilo, pensou ele, uma fragrncia irresistvel e essencialmente feminina.
      - s vezes, quando ficava aqui neste terrao, eu pensava que continuaria sozinho o resto da vida. Ningum jamais significaria para mim o que este pas significava. 
Nenhuma mulher poderia ser to bela, nem to desejvel. - Apertou Dominica contra o peito. - Depois, encontrei voc, minha querida! E soube que era tudo o que eu 
queria, tudo com que havia sonhado, a mxima perfeio que uma mulher poderia atingir.
      - Suponhamos que eu... o decepcione.
      - Isso jamais poderia acontecer! Certamente, teremos dificuldades, contratempos, talvez at mesmo brigas, mas, fundamentalmente, somos uma pessoa s, pertencemos 
um ao outro, e nada pode mudar isto!
      - Outro Ado e outra Eva!
      Sentiu na pele os lbios carinhosos do marido.
      - Voc  a minha Eva. Amo-a com todo o amor que existe no mundo. E vou passar minha vida fazendo com que tenha certeza disto.
      Apertou-a de novo contra o peito e os lbios de ambos se encontraram. Dominica ps os braos em volta do pescoo do. marido, puxando-o para mais perto ainda.
      - Amo voc! Amo voc!
      Sentiu que ele lhe tirava os grampos, para que os cabelos cassem em ondas sedosas.
      Ele beijou os cabelos de Dominica, o pescoo, os ombros. Depois, desabotoou o vestido e beijou os seios de bicos rosados.
      - Voc  como uma flor de ltus e eu a adoro, querida - disse, apaixonadamente.
      Ento, suavemente, levou-a para dentro do quarto, e as cortinas se fecharam atrs deles.
      L fora, a lua dos amantes subia no cu estrelado, prateando o vale adormecido.
       
      
      
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
      
      
      
      As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos 
aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira 
como constri suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. 
A preciso das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. 
Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de 
Jerusalm, por sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

No perca a prxima edio!




MILAGRE DE AMOR

Desde os nove anos de idade, Syrilla amava o belo duque de Savigne, que, em sua imaginao, era um herico cavaleiro de armadura dourada, lutando contra terrveis 
drages. Agora, aos dezoito, ela sente que todos os seus sonhos de amor esto prestes a se tornar realidade: o homem que adora quer que seja sua esposa! Vivenda. 
tranqilamente no campo, com o pai, Syrilla no sabe da vida desregrada que Aristide de Savigne leva em Paris. Nem que seu nome se torna sinnimo de depravao e 
libertinagem. O cavaleiro de armadura , na verdade, um cnico que no respeita nada nem ningum. E que pretende abandonar a noiva depois da noite de npcias!
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